• Sônia Apolinário

A cerveja como guia do turismo no Rio de Janeiro



Uma pesquisa recente da plataforma Booking.com detectou que, quando o assunto é viagem, a bebida que primeiro passa pela cabeça das pessoas é vinho. Muito disso deve-se ao fato de que tour por vinhedos já é uma opção antiga (e estruturada) de passeios. A cerveja, porém, começa a reagir. Ano passado, em plena pandemia, projetos relacionados com tour por cervejarias saíram da gaveta; deram os primeiros passos este ano; e são promessas para movimentar o setor em 2022. Tem agência (Niterói Experience), plataforma (Rio Mais Cerveja), beer sommelier (Gustavo Renha) e até estudo acadêmico (Caminho Cervejeiro) “mexendo os pauzinhos” para organizar esse tipo de turismo, no Rio de Janeiro.


O estudo


A plataforma Booking.com detectou que 33% dos seus clientes que participaram da pesquisa associam férias a vinho. A cerveja ficou em segundo lugar com 24%. Para essas pessoas, “vinho tem sabor de viagem”. Até mesmo o cheiro do vinho (21%) os remete mais a passeios do que o da cerveja (16%).


Niterói


Graças a uma legislação criada especificamente para estimular o setor cervejeiro, Niterói tem atualmente cinco cervejarias e dois brewpubs em fase de instalação. O segmento foi alvo de um estudo acadêmico, por iniciativa da Faculdade de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal Fluminense (UFF): o Caminho Cervejeiro de Niterói.


O objetivo do estudo é contribuir para a criação de um circuito turístico-gastronômico, em Niterói, tendo a cerveja como guia. Recém concluído, terá recomendações encaminhadas para a prefeitura. Idealizador do estudo, Lélio Galdino destaca algumas delas:


“Nossa principal sugestão é que seja formada uma cooperativa para unir as cervejarias. Isso pode, inclusive, facilitar a compra conjunta de insumos. Também recomendamos a criação de um calendário de eventos pensado em conjunto, além da necessidade de se investir na capacitação de profissionais para a recepção de turistas”, comenta. “Não é função da cervejaria organizar os tours. Isso é o trade que tem que fazer unindo todos os setores relacionado com o turismo cervejeiro”.


Lélio também sugeriu uma continuidade para o trabalho, a ser executado em 2022. Dessa vez, o alvo da pesquisa será a demanda por esse tipo de atividade, ou seja, o consumidor.


Roteiros


Na cidade, quando foi permitida a reabertura dos bares, a agência Niterói Experience iniciou a realização de beer tours para grupos de apenas cinco pessoas. A partir de janeiro de 2022, serão instituídas datas e dois roteiros fixos: Guanabara e Oceânica.


O primeiro inclui as cervejarias Malteca, Habbeas Copos e Dead Dog (brewpub em implantação, na Vila Cervejeira); o segundo faz o circuito entre Masterpiece, Máfia, Noi e o Biergarten Jardim Icaraí. Cada tour é guiado e dura cerca de quatro horas e meia. O ingresso, que será comprado diretamente no site da agência, inclui transporte e consumo de algumas cervejas nas fábricas. Ano que vem, a capacidade para cada um dos roteiros será de 20 pessoas


“Quem participa tem curiosidade para conhecer o universo da cerveja artesanal; geralmente, têm algum conhecimento sobre o assunto e querem aprender mais. Todos os tours que fiz, até agora, teve participação de moradores do Rio de Janeiro”, informa Marcello Almo, responsável pelo Niterói Experience.


Rio de Janeiro


Em novembro passado, foi lançada a Rio Mais Cerveja, plataforma de venda de experiências cervejeiras. No momento, o "cardápio" é formado a partir de 16 fábricas cadastradas que oferecem, ao todo, 20 experiências diferentes, em cinco municípios do Estado: Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis, Friburgo e Niterói. O ingresso para cada uma delas pode ser comprado diretamente na plataforma.


De acordo com Luana Cloper, uma das sócias do empreendimento, na segunda fase do projeto (segundo trimestre de 2022) já será possível adquirir, também diretamente na plataforma, roteiros com saídas regulares.


Harmonização guiada; degustações criadas especialmente para o visitante; ser recebido pelo próprio cervejeiro; e conhecer a história da fábrica e de rótulos são algumas das experiências oferecidas.


“Poucas agências enxergam a cerveja como ativo turístico. Nosso trabalho é de formiguinha. Começa desenhando as experiências a serem oferecidas junto com as próprias cervejarias, de acordo com o DNA de cada uma. Temos participado de rodadas de negócios pelo Estado e o pessoal se espanta. Não têm noção da potência do Rio de Janeiro na cerveja”, comenta Luana.


No Estado, são 78 fábricas instaladas, o que deixa o Rio de Janeiro em sexto lugar no ranking nacional. A serra fluminense concentra um terço desse total.


Luana observa que as visitas podem ajudar a tornar produtivo períodos ociosos de uma fábrica, além de estimular a criação de produtos a serem vendidos nas lojas das marcas. E assim, a cadeia turística vai se fortalecendo.


“No sul do país existem algumas rotas cervejeiras, mas não são estruturadas. Têm organização, mas não têm ponta mercadológica para colocar a cervejaria na prateleira do turismo. O Rio é uma porta de entrada importante para o turismo de todo o país. Vamos usar isso também para fortalecer outros municípios do Estado”, afirma ela.



Um beer sommelier como guia


No exterior, o tour por cervejarias de uma determinada região é comum. Em 2012, o beer sommelier Gustavo Renha fez sua primeira viagem cervejeira internacional (EUA), voltou encantado com a experiência e decidiu que faria algo semelhante, no Brasil.


No mesmo ano, ele organizou um tour por Belo Horizonte, então chamada de Bélgica brasileira, por conta do elevado número de cervejarias, na capital mineira. Na época, foi o guia de 12 pessoas. Repetiu a dose umas 16 vezes até fazer o seu primeiro tour internacional.


A pandemia interrompeu essa atividade. Porém, no final de janeiro de 2022, ele planeja retornar à organização de viagens com um roteiro de três dias pela Serra da Mantiqueira que inclui visita às cervejarias Zalaz, 3 Orelhas e Gard.


Dá para fazer um tour desse tipo sozinho?


“Dá, mas não é a mesma coisa. Primeiro que, em grupo, ninguém precisa se preocupar com a logística da viagem; geralmente, a recepção é diferente, o cervejeiro já está esperando pela chegada das pessoas e dá uma atenção especial. Sem contar as informações sobre o local e os rótulos que, sozinho, talvez a pessoa não tenha tanto acesso”, comenta Renha que planeja voltar a fazer seu tour cervejeiro pela Bélgica, também em 2022.


Confira ainda:

O podcast Happy Hour com a Lupulinário especial de Ano Novo, que foi ao ar no dia 31 de dezembro de 2020, apresentou o Rio Mais Cerveja com a participação de Luana Cloper e Ana Pampillón

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