Nem todo negócio de Carnaval é passageiro; Xeque Mate e Lambe Lambe que o digam
- Sônia Apolinário

- há 2 horas
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Atualizado: há 24 minutos

Quem curte bloco de Carnaval de rua sabe que todo cortejo é acompanhado por um grande número de ambulantes, em "carros alegóricos" dos mais diversos tipos e tamanhos.
O quanto eles faturam durante o evento é um mistério. Mas há quem fature muito. Graças aos ambulantes, pelo menos duas marcas nacionais de drinques prontos (RTD - sigla para o termo em ‘Ready to Drink’ ) se tornaram grandes negócios. São elas Xeque Mate e Lambe Lambe.
Criadas em Belo Horizonte, ambas usaram o Carnaval como vitrine. Os ambulantes entram na história como "ponto de venda" natural do evento. A Ambev "compra" a exclusividade de uso desses "pontos de venda" no Rio e em São Paulo. "Por acaso", essa exclusividade da gigante cervejeira nunca funcionou em Belo Horizonte, a capital mineira.
Xeque Mate
Xeque Mate, a bebida, é uma mistura de mate, rum, guaraná e limão, gaseificada, com 8% de teor alcoólico, vendida em lata. Rendeu para Xeque Mate, a marca, só em janeiro passado, um faturamento de R$ 35 milhões - o equivalente a tudo o que vendeu ao longo do ano de 2023.
Em 2025, a empresa produziu 9 milhões de litros da bebida (um crescimento de 26% em relação ao ano anterior) e, em 2026, a expectativa é chegar a uma produção de 15 milhões de litros. Além de abastecer o três bares da marca (dois em BH e um em Caraíva, BA) e 34 mil pontos de venda espalhados pelo Brasil, a bebida fará parte do "cardápio" de 30 mil ambulantes.
A empresa tem duas fábricas, uma em Belo Horizonte e outra em São Paulo.
Lambe Lambe
O sucesso do Xeque Mate, criada em 2017 por dois universitários, inspirou o surgimento da Lambe Lambe, dois anos depois. Trata-se também de uma bebida alcoólica gaseificada, com 6% de teor alcoólico, porém, feita com frutas in natura e álcool de cereais.
O sabor que "explodiu" no mercado (depois de cerca de 70 experimentos) foi o que reuniu tangerina, limão e sal - 400 mil litros dessa mistura já foram produzidos. Os outros sabores disponíveis da marca são: uva e frutas vermelhas; missô, limão e mel; e manga, abacaxi, gengibre e pimenta.
Este ano, as novidades previstas são os sabores manga com maracujá, e uma versão zero-álcool que leva frutas, especiarias, flores e ingredientes fermentados (entre eles, framboesa, gengibre, ginseng, hibisco, pimenta-rosa, cravo, canela e missô).
Após investir cerca de R$ 1,5 milhão na fabricação de mais de 1 milhão de latas, para abastecer o Carnaval de BH, Rio e São Paulo, a empresa terminou a folia de 2026 com o estoque zerado. O feito representou um aumento de 40% nas vendas, em relação ao ano passado e um faturamento de R$ 1,8 milhão.
Sendo assim, para 2027, a Lambe Lambe pretende triplicar o volume de latas produzidas com o foco no consumo durante o Carnaval.
Passada a folia, a bebida fica um pouco mais difícil de ser encontrada. A Lambe Lambe tem uma loja em BH (onde a bebida é vendida também em taps), uma no Rio, além de um ponto de venda fixo em SP e outro em Arraial d'Ajuda (BA).
Efeito formiguinha
Desde 2017, a gigante cervejeira Ambev paga pelo direito de vender suas marcas com exclusividade nas centenas de blocos de Carnaval que tomam as ruas do Rio e São Paulo. Os ambulantes fazem parte do negócio. Neste ano, a empresa desembolsou, para isso, R$ 29,2 milhões, somente em SP.
Já a Lambe Lambe apoiou 25 blocos independentes em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Mesma estratégia adotada pela pioneira Xeque Mate.
O resultado é que, mesmo proibidos, os ambulantes vendem (escondidos) as duas marcas (ao mesmo tempo) pelo simples motivo: atender o consumidor que busca cada vez pelos drinques prontos, durante a folia. Pelo mesmo motivo, ambulantes também vendem (escondidos) Heineken, nos blocos - mas isso é outra matéria.
Mascate Drinks

Os criadores do Xeque Mate, os amigos e empreendedores Gabriel Rochael e Alex Freire, já declararam que o negócio deles cresceu junto com o Carnaval de Belo Horizonte. E manter a marca associada à festa faz parte da estragégia do negócio.
Nos últimos anos, surgiram bebidas semelhantes ao Xeque Mate, como o mineiro Matchê (também de mate, guaraná, rum e limão) e o carioca Mate Shine (rum, mate e limão). Além disso, um ex-presidente da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur) virou sócio da recém-lançada Mexerico - um drinque em lata que mistura cachaça, mexerica, limão capeta e hortelã.
Para crescer, os sócios da Xeque Mate optaram por lançar a Mascate Drinks. A bebida da nova marca (que repete o nome da rede de bares da empresa) também é um drinque pronto à base de rum, mas com duas opções de sabores: melancia com framboesa, hibisco e limão siciliano, e maracujá com caju e água de coco.
De novembro de 2025 até o Carnaval em fevereiro de 2026, a produção da linha Mascate Drinks chegou a 1,04 milhão de litros. E sim, já "pularam" o Carnaval.
Vão concorrer com eles mesmos pela preferência do folião? Os sócios da Xeque Mate acreditam que não.
- A gente quis preservar o Xeque Mate intacto. E o sabor é completamente diferente. Tem uma pegada mais frutada, fresquinha, dá para tomar no dia a dia, na hora do almoço - afirmou Alex Freire para a Isto É Dinheiro.
Segundo ele, o que o movimento dos bares da marca tem mostrado é que a nova bebida não canibaliza consumidores do Xeque Mate. Está, porém, tirando público da cerveja.
Mercado nacional RTD
No Brasil, o mercado RTD cresceu mais de 60% nos últimos anos, segundo a Nielsen Scantrack, empresa global de medição e dados. Globalmente, esse nicho deve atingir US$ 40 bilhões até 2027, de acordo com a IWSR, consultoria de análises para a indústria de bebidas alcoólicas.

Um exemplo da força nacional do segmento é a criação de um concurso nacional, em 2024, voltado para a categoria. O Brasil RTD Cup 2026, com sede em Belo Horizonte, foi realizado em janeiro passado. Reuniu 92 rótulos de 42 marcas, um avanço superior a 50% em relação à edição anterior, que contou com 60 drinks.
A grande vencedora da competição foi a Manza (Belo Horizonte, MG), uma sidra feita com maçãs brasileiras e toque de limão siciliano.
Os vencedores, de acordo com a base da bebida foi o seguinte:
Gin - Mestre Gato - White Rabbit, das Cachaça Boa Vida Ltda (MG)
Vodca - Porn Star Martini, da Casa Pro Coquetéis (MT)
Álcool de cereais - Like Spritz, da marca Like Wine (MG)
Cachaça - Jorge Amado, da CRD Indústria e Comércio (MG)
Rum - Mate Melo, da Mate Melo Ltda (DF)
Vinho - Ovnih Espumante Moscatel, da Vinícola Giaretta (RS)
Sem álcool - St. Pierre Paloma, da St. Pierre (SP)
Texto original a partir de dados de publicações da Forbes, Isto É Dinheiro e Diário do Comércio
































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