Bloco Mulheres de Chico celebra 20 carnavais no Rio
- Sônia Apolinário
- há 22 horas
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No próximo sábado (21), o bloco Mulheres de Chico é atração de pós-Carnaval, no canto final da praia do Leme, com concentração às 16h. Esse ano, essa já tradicional apresentação na zona sul carioca tem um gostinho especial: o bloco, que homenageia a obra do cantor e compositor Chico Buarque, vai celebrar seus 20 anos.
Para comemorar a data, as chicólatras assumidas convocaram outras mulheres para marcarem presença no evento. Não literalmente, mas em forma de repertório.
- Prestaremos homenagem às divas do samba como Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Clara Nunes e Alcione que abriram portas para as mulheres entrarem nesse mundo tão machista que é o mundo do samba - afirmou Vivian Carvalho, uma das idealizadoras do bloco ao lado de Gláucia Cabral.
Há 20 anos as Mulheres de Chico (um trocadilho que só mulheres mais velhas entendem) driblam esse machismo na base do jeitinho feminino. Foliãs inveteradas, Vivian estava em plena folia no bloco Céu da Terra, que ainda desfila por Santa Teresa, quando olhou para Gláucia e propôs: vamos criar um bloco de mulheres? Apesar de nenhuma das duas tocar qualquer instrumento, à época, a amiga achou a proposta razoável. E a ideia foi sendo lapidada.
Primeira providência: aprender a tocar um instrumento. Hà 20 anos, oficinas de percussão não eram comuns como atualmente. Muito pelo contrário. Por indicação de amigos, elas procuraram a Acadêmicos da Rocinha.
- Naquela época, as escolas de samba não aceitavam mulher na bateria. A Rocinha estava começando a aceitar. Mas os homens nos deram apenas três opções de instrumentos: cuíca, chocalho e agogô. Escolhemos a cuíca - contou Vivian que segue firme e forte no instrumento, bem como Gláucia.
Outra dica de ouro foi uma espécie de palavra mágica: Monobloco. Lá, a dupla conheceu outras mulheres apaixonadas por percussão. Fala com uma, fala com outra e, de repente, umas 20 se "apresentaram" para formar o que seria o primeiro bloco temático do carnaval carioca e o primeiro formado apenas por mulheres - segundo Vivian, demorou a cair a ficha que elas estavam envolvidas em um duplo pioneirismo do Carnaval do Rio.
O Mulheres de Chico tem 25 integrantes (todas moradoras do Rio, exceto por uma de Niterói) entre ritmistas e cantoras, das mais diversas profissões. Glaucia, por exemplo, é advogada. Viviane, quando o bloco começou, tinha uma confecção de bijuterias e acessórios. Hoje, trabalha como produtora cultural e vive de música, da mesma forma que algumas outras poucas integrantes.
Essas 25 mulheres são as mesmas desde o início do bloco. Na opinião de Vivian, aconteceu um "encontro perfeito":
- Tinha que ser elas. Chegou na ideia quem tinha que chegar.
A primeira apresentação, ainda tímida, foi feita na Praça Antero de Quental, no Leblon, porque elas tinham ouvido falar que Chico Buarque costumava passear por lá. Atualmente, no Carnaval, o bloco (parado) se apresenta para um público de cerca de 70 mil pessoas.

O homenageado não passou pela Praça Antero de Quental naquele dia. Também não foi em uma única apresentação do bloco, mesmo quando realizada em teatros. Mas Chico literalmente vestiu uma camisa do grupo que lhe foi enviada, fez uma foto com e mandou para para elas - o que foi considerado um aval para que continuassem o projeto.
Outro sinal que o homenageado estava feliz com a homenagem foi um convite que surpreendeu a todas: conhecer o campo de futebol, no Recreio, na Zona Oeste do Rio, onde o cantor joga toda a semana com o seu time, o Politheama. Elas foram e ele estava lá.
Sim, ele conversou com elas, mas não muito:
- O Chico é tímido, de verdade. Ele nunca apareceu em um show nosso, mas ele nunca aparece em lugar nenhum. Ele é assim, é discreto. E quer saber, ele pode fazer o que quiser. Ele é maravilhoso e amamos a obra ele - disse Vivian.
Segundo ela, ter como base a obra de Chico Buarque para "segurar" tantos carnavais não faz a apresentação das Mulheres de Chico ser sempre igual. Afinal, como lembrou, ele tem mais de 500 músicas. Fazem parte do repertório, por exemplo, "Roda Viva", "Apesar de Você", "Não sonho mais", "Geni", “Vai Passar”, "Quem te viu, quem te vê".
Ao longo dos anos, porém, o grupo tem feito algumas homenagens em função de datas comemorativas como, por exemplo, os 70 anos de Clara Nunes ou 100 anos de Vinícius de Moraes. São essas homenagens, todas juntas, que estarão no palco, na apresentação que marca os 20 anos do bloco. Seja como for, ainda a maior parte do repertório é formado por músicas (carnavalizadas) de Chico Buarque.

Depois de 20 anos, vocês ainda sentem o peso do machismo no samba?
- Nesse período, o machismo no samba não melhorou. Porém, as pessoas já sabem que a gente existe. Chegamos a ser convidadas para tocar na Mangueira e nós fomos, morrendo de medo. Atualmente, as pessoas do mundo do samba já não duvidam tanto da gente. E somos admiradas, principalmente, pelas mulheres. Isso é muito importante. É importante as mulheres se ajudarem, se inspirarem - afirmou Vivian.
A trajetória de sucesso do bloco gerou, porém, um "efeito colateral" para as suas fundadoras. Agora, nem Vivian nem Gláucia conseguem mais curtir o Carnaval carioca. Porque nessa época, elas estão na estrada, fazendo shows nos mais diversos lugares.
- Isso é bom, divertido, mas cansativo. Exatamente o que acontece quando a gente aproveita o Carnaval - brincou Vivian.

























