Cachaça com terpeno de cannabis é atração em festival de bebidas do Rio
- Sônia Apolinário

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Atualizado: há 1 hora

Provocar e quebrar preconceitos. Foram esses os objetivos que levaram o empresário Carlos Lyra a elaborar e produzir a cachaça Hemp. Com 42% de teor alcoólico e cor verde, o produto é uma das atrações do Festival Bebericando que será realizado entre 6 e 8 de março, no Rio.
Lançada há cerca de dois anos, a cachaça Hemp levou 14 meses para ser desenvolvida e outros seis meses para obter o registro do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária).
Ou seja, trata-se de um produto totalmente legalizado. Tanto que, oficialmente, nem pode ser chamado de cachaça, mas de bebida alcoólica mista. Isso porque, pela lei, cachaça é uma aguardente de cana-de-açúcar. Ponto. A Hemp é uma cachaça infusionada com terpeno, mas com adição de corante.
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A relação de Lyra com a Cannabis começou há oito anos. Aos 70 de idade, ele passou a sofrer de fibromialgia.
- É uma dor infernal. Nenhum tratamento resolvia. Você pensa em desistir de tudo. Foi quando o médico sugeriu um tratamento com cannabis medicinal. O que posso dizer, hoje, é que tenho uma dívida de gratidão com a cannabis - contou ele que se tornou, de lá para cá, representante de três laboratórios de cannabis medicinal que atendem duas mil famílias.
Pernambucano, filho de usineiro, Lyra praticamente "desde sempre" conviveu com o mundo da cachaça - mais fortemente, porém, nos últimos 50 anos. Depois de criar estabelecimentos e desenvolver, nos últimos oito anos, três rótulos comemorativos (90 anos da escola de samba Estação Primeira de Mangueira; 10ª edição do Gay Games Olímpicos e os 71 anos do Clube Renascença, no Rio) ele avaliou que seria uma boa "provocação" juntar dois produtos que sofrem preconceito social: a cannabis e a cachaça.
Sim, a cachaça. Porque, apesar de ser reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural do Brasil, a bebida não goza do prestígio de um vinho ou mesmo cerveja, muito menos o de outros destilados "gringos" - um quadro que os produtores nacionais têm se empenhado para mudar, já com algum sucesso.
- Uma "cachaça de maconha" levaria o debate para a mesa do bar. Todo preconceito é fruto de falta de informação. Por isso é preciso provocar o debate para difundir o conhecimento - explicou Lyra.

É claro que a primeira coisa que perguntam para ele é se a cachaça "dá barato" - como se a bebida não tivesse um teor alcoólico alto o suficiente para isso.
O que a Hemp e outras bebidas que se anunciam feitas com cannabis usam é o terpeno da planta e não sua principal substância psicotrópica, o tetraidrocanabinol (THC), responsável pelos efeitos de alteração da consciência e euforia.
E a primeira coisa a se esclarecer é que terpeno não existe somente na maconha. Terpenos são substâncias voláteis produzidas por todas as plantas ou animais. O Linalol, por exemplo, é o terpeno usado pela indústria dos cosméticos para dar ao produto o cheiro da lavanda.
Dito isso, não, a cachaça de maconha não dá barato. Só embriaga, mesmo. Como qualquer bebida alcoólica.
Para desenvolver a fórmula de uma maneira que a futura bebida se adequasse à legislação brasileira, Lyra rumou para o Uruguai onde, desde 2017, maconha, produzida sob o controle do Estado, é vendida em farmácias.
Foi na oitava tentativa de infusão que ele conseguiu o que queria. Como ele mesmo disse: "levar para a bebida o aroma como se a pessoa tivesse fumando um baseado".
Lyra tinha definido que sua infusão de cannabis seria feita em uma cachaça prata, tipo que não passa por envelhecimento em barris de madeira. Acabou por escolher para sua produção o Alambique do Leley, em Campos do Goytacazes (RJ) - não sem antes ter que fazer toda uma preleção para garantir para a família de usineiros que a bebida estava dentro da lei.
- O pessoal da cachaça é conservador. A resistência foi por conta do tabu em relação à própria produção da bebida. Para ampliar o consumo da cachaça, é preciso criar outras opções de sabores e não se limitar apenas, como é hoje, ao envelhecimento em barris. Quanto tempo mais ainda teremos essas madeiras? - questiona Lyra.

Fazer a bebida na cor verde, segundo ele, faz parte do "processo de provocação" e ajuda a chamar a atenção para a bebida. Lyra se gaba que, em pleno mundo globalizado, seu produto ainda é único, em todo o mundo.
Ele informou que, graça à erva, a bebida proporciona uma "explosão de sabor na boca". Usada como base para drinques, "cria sabores que vão surpreender".
- Cannabis é a penicilina (primeiro e um dos mais importantes antibióticos) do momento atual e do futuro. Tenho um nível de gratidão enorme com a planta. Viver sem dor é o que todos queremos. E eu quero ajudar a quebrar o preconceito das pessoas - afirmou Lyra.
Serviço
Festival Bebericando – 1ª edição
Data: dias 6, 7 e 8 de março, das 12h às 20h
Local: Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) - Rua do Pinheiro, 10 – Flamengo – Rio de Janeiro
Exposição de produtos, palestras e debates ao longo do dia.
Música ao vivo com banda das 18h30 às 20h (todos os dias)
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia), apenas para ingresso no local. Eventuais degustações são de responsabilidade dos expositores
A iniciativa do evento é do canal Bebericando dedicados ao universo das bebidas
A Hemp é comercializada apenas online
































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