Brewteco amplia sua produção de cerveja de olho nos supermercados
- Sônia Apolinário

- há 6 horas
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No último mês de abril, a rede de bares carioca Brewteco fechou as portas da sua unidade na Lapa. Para o público. Lá dentro, porém, a atividade continua intensa. No local funciona a fábrica do Brew, comprada da extinta Marmota, em 2023.
Naquela época, a aquisição foi feita como estratégia da rede de bares para dar mais um passo na expansão do seu negócio: produzir a própria cerveja para abastecer suas unidades.
Agora, outro passo dessa expansão está sendo dado. Dessa vez, com a ampliação da produção feita no local tendo como meta abastecer também supermercados com os rótulos Brewteco. À frente das "panelas" está o veterano Salo Maldonado. Criador da marca Motim, ele atua no mercado de cerveja artesanal do Rio desde os seus primórdios, tendo sido também um dos criadores da 2Cabeças, cigana que fez história na cidade.
- Teremos os mesmos produtos que oferecemos nos bares também nos supermercados. Bar e supermercado são momentos diferentes de consumo. No supermercado, só o giro salva. Supermercado te dá volume se souber jogar o jogo. E Jogar esse jogo não é fácil. Envolve disputar a atenção do consumidor, ficar ligado nas tendências e atuar em preço. A estratégia de venda da marca é ter o Brewteco também na casa do consumidor - explicou Salo.
Ele chegou no Brewteco em agosto do ano passado sabendo bem como é o jogo disputado no supermercado. Afinal, nos últimos três anos, ele foi do time da Hocus Pocus, uma das poucas marcas artesanais, que não pertence à grande indústria, presente, com constância, em muitas gôndolas de supermercados do Rio e de outros estados - sim, a Hocus Pocus já foi acelerada pela Ambev, mas isso é outra história.
No Brew, Salo chegou para tocar uma espécie de segunda fase da fábrica. Em 2023, a produção era de oito mil litros por mês. Atualmente, já está em 24 mil litros por mês com uma meta de chegar a 38 mil litros/mês até o final de 2026.
Outras bebidas
A cerveja é o carro-chefe dessa produção, mas o portfólio do Brew pode vir a ser ampliado com outros tipos de bebidas. As famosas batidas servidas nos bares da rede, por exemplo, já estão sendo feitas por lá de forma padronizada, com envaze devidamente separado das cervejas.
O que a rede Brewteco está fazendo, segundo Salo, é se adequando para acompanhar o novo jeito de ser do consumidor de bebidas, que mudou seu comportamento a partir da pandemia do Coronavírus. Ele informou que, naquele momento, a venda de bebidas em supermercados subiu de 30% para 50% e o consumidor passou a "comprar" mais a ideia de beber em casa.
- É preciso olhar para o mercado como um todo. A geração que abraçou a cerveja artesanal, no país, está envelhecendo e, consequentemente, está bebendo menos até por questão de saúde. Antes, tinha o cervejeiro, agora, tem a pessoa que bebe. Ou seja, quem vai a um bar está aberto a beber diferentes tipos de bebidas. E faltam soluções de bebidas artesanais para atender essa demanda. O chope de vinho, por exemplo, não pode ser visto como uma versão porcaria de uma bebida mista. Por que não abraçar o mercado mais amplo? Eu posso muito bem fazer gin, por exemplo - disse Salo, indicando, quem sabe, as novidades que podem vir a ser lançadas sob a marca Brewteco.
Ele admitiu que está "em estudos", a produção de outras bebidas diferentes de cerveja, mas que não sabia informar sobre "o horizonte desse futuro". Particularmente, Salo tem experiência com produção de gin, licor e vodca.
Engana-se quem aposta que da fábrica da Lapa só vai sair Pilsen. Sim, é o estilo mais vendido em todas as unidades da rede, com a IPA em segundo lugar absoluto. Porém, aumentar a oferta de estilos de cerveja faz parte dos planos.
Atualmente, dez deles já são produzidos de forma regular, na fábrica. Essa carta será reforçada com a chegada - que se tornará mais constante - de rótulos da Overhop, marca carioca comprada pelo Brewteco no final de 2024.
Nesse caso, após ajustes nas receitas, estão prestes a chegar ao mercado os rótulos Bolo de Laranja da Tia Mey (Russian Imperial Stout maturada com cacau, baunilha e raspas de laranja); Pizookie (Double Oatmeal Stout com cacau e cumaru) e Aeternum Menta (American Imperial Stout com menta) - todas com teor alcoólico acima de 8%, além da GraviOH-Là-Là (Catharina Sour com adição de graviola). Uma curiosidade: a Mey homenageada na cerveja original da Overhop trabalha atualmente no Brewteco.
No momento, supermercados das redes Zona Sul e CasaFruti, no Rio, já vendem garrafas de Pilsen, IPA e APA Brewteco; em Niterói, a marca está presente em sete lojas do Real, inclusive com a Tripel. A cervejaria está em negociação com outras redes de supermercado para ampliar sua presença nas gôndolas.
Na Lapa, a fábrica ocupa 40% do espaço onde está instalada. Ou seja, tem para onde crescer. Até porque, também faz parte dos planos começar a receber produção de marcas ciganas. Alguns rótulos da Oceânica já são feitos por lá, sob licenciamento.
Pelo menos por enquanto, não há planos do local voltar a funcionar como bar. Talvez, no máximo, para a realização de eventos, mas nem tão cedo. Em termos de expansão da rede de bares, os olhos do Brewteco começam a se voltar é para São Paulo.
- O maior problema do mercado de cerveja artesanal, hoje, é que não coloca muitos clientes para dentro ao mesmo tempo em que perde cliente. Em resumo, o mercado artesanal diminuiu de tamanho ao mesmo tempo que o de bebida mudou de panorama. Temos que renovar nosso consumidor.
Salo em três tempos

- Houve uma falha do mercado de cerveja artesanal em educar o consumidor. Era um mercado que vivia de beer geek, que consumia cerveja mais cara. Os cervejeiros falharam em agregar valor ao seu produto perante o consumidor. Eu saí logo da sociedade da 2Cabeças porque tinha visões diferentes para a marca. Naquela época, já falava que tinha que popularizar com a produção de Pilsen e Red Ale porque são estilos mais acessíveis em termos de paladar e preço.
- É preciso treinar as pessoas para oferecer a cerveja artesanal nos bares. Pede provinha, tem que dar. Porque quando se mata a curiosidade de uma pessoa, de um consumidor, fecha-se uma porta para sempre.
- A Motin, atualmente, é produzida pela Backbone, sob licenciamento. Em 2020, fui chamado para tocar a fábrica da Antuérpia (Matias Barbosa, MG). Nessa época, a Motin era produzida na Bohemia (Petrópolis, RJ). Não iria dar conta de tocar as duas e licenciei a Motin para a Antuérpia. No final de 2021, saí da Antuérpia. Motin saiu de lá em 2023, quando passou a ser licenciada pela Backbone (Visconde de Mauá, RJ), que está produzindo os rótulos 18 do Forte, Dublin e Hell de Janeiro. Em julho, vamos lançar uma colab Backbone-Motin, a Pancho México, uma Imperial Stout com pimenta, cacau e canela. Também vou produzir algumas receitas da Motin na fábrica do Brewteco. E ainda deve sair uma colab entre Motin e Brewteco.
































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