Biografia de repórter descortina os bastidores do jornalismo investigativo policial do Rio
- Sônia Apolinário

- há 12 horas
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Houve uma época, no Rio de Janeiro, que onde estivesse acontecendo um caso policial escabroso, era certo que uma pessoa seria encontrada na "cena do crime". Era o repórter carioca Luarlindo Ernesto Silva. Com 82 anos de idade e 68 de profissão, ele é o tema da biografia “Luar: o Último Repórter dos Anos de Chumbo”, da também jornalista Elenilce Bottari, que será lançado nesta quinta-feira (14), na Associação Brasileira de Imprensa, no Centro do Rio.
Trata-se de um encontro peso pesado, profissionalmente falando. Afinal, se Luar - como o Luarlindo costumava ser chamado nas redações de jornal onde trabalhou - ganhou três prêmios Esso, Elenilce também tem um Esso no currículo além de vários outros prêmios jornalísticos por conta de dezenas de reportagens investigativas feitas ao longo de 40 anos de profissão. Ela é co-autora do livro “Massacre em Vigário Geral – Os 30 anos da chacina que escancarou a violência policial do Rio”, lançado em 2024.
- Eu tinha apenas 24 anos quando cheguei ao Jornal do Brasil, em 1986. Ali conheci grandes feras da imprensa, entre eles Luarlindo. Além de excelente profissional, é dono de um humor fantástico. Um dia, depois de dois ou três chopes num quiosque próximo ao jornal, fiquei tão animada com seus “causos” que perguntei a ele se eu poderia ser sua biógrafa. Ele disse que sim e esse compromisso descomprometido foi se renovando por anos, e agora, 40 anos depois, estamos lançando o livro - contou Elenilce.
E são esses "causos" que o livro resgata, ao longo de 296 páginas. Por intermédio deles, são descortinados os bastidores de histórias que marcaram época do jornalismo investigativo policial do Rio de Janeiro.
Isso porque o repórter Luar cobriu casos como, por exemplo, o assalto ao trem pagador (que virou filme); a morte do detetive Le Cocq pelo temido Cara de Cavalo, bandido que acabou caçado e morto em um emboscada policial; e acompanhou as fugas cinematográficas de Lúcio Flávio (que também virou filme) - e o foragido mais famoso do Brasil era amigo de infância do jornalista.
Luar testemunhou o nascimento do Esquadrão da Morte, cobriu a Bomba do Riocentro e foi o primeiro jornalista a encontrar Tommaso Buscetta escondido em solo brasileiro — uma descoberta que ajudaria a desmontar parte da máfia italiana nos Estados Unidos. O mafioso e narcotraficante Buscetta acabou extraditado para a Itália graças a uma reportagem de Luar, publicada em 1982.
Quem diria, o menino Luarlindo teve como padrasto um contraventor poderoso de São Cristóvão, bairro onde o futuro jornalista morava com sua família.
- A ideia central do livro é, através de Luar, resgatar histórias que sempre povoaram as redações de jornais. Antes, esse conhecimento era passado de forma oral, em bate-papos entre colegas, de geração para geração, assim como também, os princípios e técnicas de reportagem. Isso está acabando por conta do formato atual, do trabalho remoto, do jornalismo online, das redes sociais e, agora da Inteligência Artificial. É o momento da gente resgatar esses registros. E as histórias de Luar são lendárias - observou a autora que trabalhou em veículos como Rádio Tupi, revista Veja e jornais do Brasil e O Globo, atuando nas áreas de investigação criminal, Justiça e Cidadania.
De tão lendárias as histórias, o próprio Luar as comenta, no livro - um recurso que dá agilidade à narrativa do livro. A obra integra a Coleção José do Patrocínio, com a qual a Editora Letra Selvagem homenageia grandes nomes do jornalismo brasileiro.
Luarlindo faz parte de uma galeria de profissionais que, a partir da década de 1960, fez história no jornalismo brasileiro, logrando sobreviver em seu ofício, apesar do ambiente de censura criado pela ditadura militar implantada em 1964, que impedia o exercício do jornalismo investigativo.
- Luarlindo tem mais de 60 anos de atividade, trabalhando em jornal. Para resgatar tamanho conhecimento, a gente precisou realizar expedições ao passado e aos acervos de jornais. Para isso, a gente acabou repetindo a mesma arte de transmissão do conhecimento que havia nas antigas redações: o bate-papo. Parece estranho falar isso, mas o fato é que as pessoas cada vez falam mais e conversam menos. Acabamos construindo juntos uma linda amizade. Foi isso o que mais nos surpreendeu - afirmou Elenilce.
Os casos
Assalto ao trem pagador - Em 14 de junho de 1960, um assalto ao trem de pagamentos da Estrada de Ferro Central do Brasil ocorreu próximo à estação Japeri, no Rio de Janeiro. A história real inspirou o clássico filme brasileiro de 1962, dirigido por Roberto Farias.
Morte do detetive Le Cocq - Milton Le Cocq d'Oliveira (1920-1964) foi um detetive de polícia do estado do Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal), integrante da guarda pessoal de Getúlio Vargas. De ascendência francesa, foi considerado o melhor detetive da polícia carioca em sua época. Ídolo dentro da polícia, Le Cocq foi morto, em 27 de agosto de 1964, durante confronto com o criminoso Cara de Cavalo (Manoel Moreira, cafetão, contraventor, traficante de drogas). Sua morte levou à mobilização de dois mil policiais e culminou na morte de Cara de Cavalo, alvejado com 52 tiros. A Scuderie Detetive Le Cocq, o mais famoso esquadrão da morte brasileiro, foi criado para vingar a morte do detetive Le Cocq e batizado em sua homenagem.
Lúcio Flávio - O carioca Lúcio Flávio Vilar Lírio (1944–1975) se notabilizou, nos anos 60-70, pelos assaltos a bancos que praticava e as fugas cinematográficas que protagonizava. Ele delatou policiais corruptos que integravam o "Esquadrão da Morte", no Rio de Janeiro. A história real, marcada por violência e corrupção policial, inspirou o filme "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977)", dirigido por Hector Babenco.

Bomba do Riocentro - O chamado Caso do Riocentro, foi um ataque terrorista perpetrado
por setores do Exército Brasileiro e da Polícia Militar do Rio de Janeiro na noite de 30 de abril de 1981, com o objetivo de incriminar grupos que se opunham à ditadura militar no Brasil e, assim, justificar a necessidade do seu aparato de repressão e retardar a abertura política em andamento. Exemplo emblemático do terrorismo de Estado praticado pela ditadura, previa uma série de explosões no Centro de Convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, quando ali se encontravam 20 mil pessoas durante um espetáculo de MPB em comemoração do Dia do Trabalhador. O tiro (ou bomba) saiu pela culatra. Uma das bombas explodiu longe de seu alvo e outra detonou prematuramente, danificando os explosivos restantes e vitimando dois dos terroristas, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora, e o capitão Wilson Dias Machado, que ficou gravemente ferido. Na sequência dessas falhas, outros militares removeram discretamente os explosivos instalados no palco do show, antes que explodissem.
Tommaso Buscetta (1928-2000) - Foi um dos mais importantes membros da Cosa Nostra, a máfia siciliana. Foi um "arrependido", ou seja, colaborou com a Justiça delatando companheiros e informando o juiz Giovanni Falcone sobre as estruturas da organização e seus esquemas de corrupção de políticos.
Serviço
Lançamento do livro “Luar: o Último Repórter dos Anos de Chumbo”
Data: 14 de maio, a partir das 18h.
Local: sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio de Janeiro
































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