Casa Rozental é vinícola boutique na região serrana do Rio
- Sônia Apolinário

- há 2 horas
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Uma história que seria considerada improvável, até há pouco tempo, a cada dia ganha novos (e sólidos) capítulos. Trata-se da produção de vinho em cidades serranas do Rio de Janeiro. No estado, atualmente, existem 42 produtores (e contando...) espalhados por oito municípios.
Apesar do pouco tempo de estrada e colheitas recentes, as bebidas começam a chamar atenção pela qualidade. Nesse quadro, uma vinícola tem se destacado - devagar, devagarinho - pelo seu trabalho extremamente artesanal que resulta em uma produção reduzida com direito a garrafas numeradas.
Na Casa Rozental, em Secretário (Petrópolis) é o casal Célia e Marcelo, donos da propriedade, que cuidam de absolutamente tudo. A trabalheira contrasta com a ideia inicial deles: se mudar da cidade do Rio de Janeiro para a serra para começar a "plantar" uma vida em torno de uma aposentadoria que se acenava.
Sim, foi a pandemia do Coronavírus, em 2020, que os levou para Secretário. A ideia era comprar um pequeno terreno, de no máximo 5 mil metros quadrados, e construir uma casa. Mas foi uma área de 25 mil metros quadrados que fez os olhos do casal brilhar. Apesar da inclinação do terreno.
- Quando fomos mostrar a propriedade para nossos filhos, um deles bateu no meu ombro e disse: 'parabéns pai, você comprou um paredão' - contou Marcelo, entre risos, em entrevista para o ComuniC.
Segundo ele, foi a vista que encantou o casal. Compra feita, veio a pergunta: o que fazer com um terreno tão grande e inclinado? Naquele momento, Marcelo não sabia que já existiam outros vinhedos por perto. Até então, apenas ouvira falar da pioneira na região, a vinícola Inconfidência, mas nunca tinha bebido vinho de lá. Para ser sincero, ele não costumava nem beber vinhos nacionais. Degustador diletante, suas preferências recaíam em rótulos franceses das regiões de Bordeaux e, nos últimos anos, Borgonha. Agora, ele se tornou apreciador do vinho nacional, principalmente, os da serra catarinense.

Foi uma agrônoma que Marcelo chamou para analisar o terreno quem primeiro alertou sobre o potencial do lugar para se tornar um vinhedo, por conta de vários detalhes. O principal deles: a direção norte-sul do sol. Célia gostou da ideia no ato.
- Minha esposa diz que coincidências não existem, que não fomos parar naquele local por acaso - afirmou Marcelo.
Engenheiro civil, foi fácil para ele absorver a ideia de fazer um platô no "paredão", ideia que evoluiu para a construção de 20 terraços - o que criaria para o futuro vinhedo condições originais para a produção.
Na Casa Rozental, o primeiro ano foi dedicado à recuperação do solo. No seguinte, foram plantados, por todo o terreno, os atuais 4 mil pés da vinícola, com Marcelo à frente do trabalho - reza a lenda que ele conhece cada um deles detalhadamente.
O novato seguiu a tendência da região e plantou Syrah e Sauvignon Blanc. Tentou Chardonnay, mas as plantas não vingaram. Ampliou suas castas com Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Marsellan.
A primeira garrafa do Casa Rozental foi vendida em 2025 (safra de 2024). Em 2026, estão prestes a fazer a terceira colheita. Porém a fama da boa qualidade do vinho da casa já começa a se espalhar:
- Nem todo vinho fica melhor com o tempo porque nem todos podem envelhecer. Uma videira precisa ser preparada para que um vinho aguente 10 anos em garrafa. Nossa primeira safra de Sauvignon Blanc foi espetacular, foi considerada a melhor da região. Já as uvas tintas, nessa primeira safra, não foram tão boas. Uma videira velha produz mais quantidade. A técnica da dupla poda que usamos rende mais qualidade da fruta do que quantidade - explicou Marcelo.
Dupla poda
Ele reconhece que foi o pioneirismos da Inconfidência que permitiu que a Casa Rozental (e outros vinhedos da região) conseguissem produzir vinhos de qualidade em pouco tempo.
Isso porque, na serra Fluminense, as vinícolas realizam o sistema de dupla poda e colheita de inverno. Significa realizar duas podas anuais na videira, sendo a primeira em agosto, e a a segunda, em janeiro - o que inverte o ciclo natural das plantas.
Esse método de cultivo inédito foi desenvolvido pelo agrônomo Murillo de Albuquerque Regina, quando fazia parte dos quadros da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), e implantado por ele na Inconfidência.
- O Murillo foi um desbravador, encurtou nosso trabalho. Mas tudo é muito novo para todos na serra. Estamos tendo o privilégio de ver o surgimento de uma nova área vitivinícola no país. Acredito que, em cinco anos, ainda vamos encontrar a uva da dupla poda da serra Fluminense. Essa é uma técnica nova e é preciso criar protocolos para essa nova realidade - observou Marcelo que tem a "intuição" que a casta a ser considerada característica do Rio de Janeiro terá sotaque italiano.
Desafio
Na sua opinião, o maior de todos os desafios, quando se trata de ser produtor de vinhos na serra Fluminense, atende pelo nome de Míldio - principal fungo que ataca os vinhedos da região, que se prolifera em locais de clima quente e úmido. Já teve quem perdesse safras inteiras por causa dele.
- Ano passado foi um desastre. Este ano está mais tranquilo - afirmou Marcelo.
Isso significa que os vinhos do Rio de Janeiro não são orgânicos, pois necessitam de "ajuda" no combate ao Mildio.
- Em toda a região Sudeste, quem falar que faz vinho orgânico ou está mentindo ou protege todo o vinhedo com uma cobertura. Eu só conheço um lugar em Minas Gerais que faz essa cobertura - disse Marcelo.
Safras
Quando Marcelo e a esposa decidiram que se tornariam produtores de vinho, ele resolveu voltar para os bancos escolares. Primeiro, fez uma pós em viticultura e enologia. Agora, termina um curso de graduação na Faculdade Católica Paulista, também de enologia e viticultura. Tudo isso para poder assinar seus próprios vinhos.
Nesse meio tempo, Marcelo se tornou o vice-presidente da Associação dos Produtores de Uvas vitis vinifera da Serra Fluminense (AVIVA), entidade que reúne, no momento, 32 dos 42 produtores da região.
A observar que ele concilia o trabalho no vinhedo com o de engenheiro civil, no Rio. Afinal, como disse, os boletos gerados na serra precisavam ser pagos.
Atualmente, a produção da Casa Rozental é vinificada na Inconfidência. Mas Marcelo realiza experimentações no próprio vinhedo em busca do blend perfeito para futuras comercializações. Esse vinho experimental, quem visita o local pode degustar.
Todos os sábados, ele e Célia recebem pessoalmente para um tour no vinhedo, com degustação, grupo de, no máximo 16 pessoas. Marcelo explicou que o local foi batizado Casa Rozental não por acaso. A proposta do casal, segundo ele, é ser uma vinícola "pequena e receptiva".
Receptivo onde as degustações são realizadas
No quesito pequena, a primeira colheita rendeu 1.100 garrafas; a segunda, 2 mil. Para a próxima, a expectativa é chegar a 3 mil garrafas e, em dois anos, seis mil, no máximo - limite que a Casa Rozental não pretende ultrapassar.
E sim, produção baixa, preço alto. A garrafa da safra de 2024 custa R$ 225 (disponível somente na degustação da vinícola); a de 2025, atualmente em comercialização, sai por R$ 195.
Perfil sensorial
A ficha técnica dos vinhos da safra de 2025, fornecida pela vinícola, é a seguinte:
Casa Rozental Cabernet Franc (13,9%, vermelho rubi) - Notas típicas da casta como frutas vermelhas, cereja, framboesa e groselha vermelha, toques sutis herbáceos e uma mineralidade discreta. Estruturado com acidez equilibrada.

Casa Rozental Sauvignon Blanc (13,8%, amarelo palha) - Notas cítricas (grapefruit e lima) que se fundem a toques de ervas fresca e arruda, com um sutil final mineral. Acidez vibrante, corpo untuoso, garantindo um final longo, seco e muito refrescante.
Casa Rozental Syrah (13,9%, púrpura intenso) - Notas típicas como mirtillo, ameixa preta, jabuticaba e um toque de pimenta preta. Taninos sedosos, estrutura média-alta com um final de boca persistente e levemente especiado.
Terraços 2025 (Syrah, Marsellan, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, 13,8%, rubi profundo) - Notas de frutas negras maduras (amora e mirtilo) que se fundem a especiarias e um distinto toque de chocolate amargo, conferindo profundidade aromática. Encorpado e estruturado. O final de boca é persistente, onde as notas de chocolate amargo reaparecem. Taninos maduros e a excelente acidez.
Visitas

A visitação, aos sábados, começa às 16h e não tem hora marcada para terminar. O horário foi escolhido com precisão para que o grupo seja brindado com o pôr do sol. Precisa ser agendada com antecedência, diretamente com Célia: 21 99619-3061
9 de maio - harmonização dos vinhos da vinícola com queijos da serra do Rio conduzida pelo especialista em queijos Tiago Dardeau. 5 rótulos com 5 queijos. Grupo de 14 pessoas. Reservas: 21 99619-3061
16 e 17 de maio - A Casa Rozental faz parte do roteiro de um tour com degustação por três vinícolas, em três municípios da região serrana do Rio (Paraíba do Sul, Secretário/Petrópolis e Areal). As outras vinícolas são: Inconfidência e Arouca. Saída do Rio de Janeiro. Experiência de enoturismo idealizada pela Mural À La Carte. Contato via Instagram.




































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