Caborê: há 20 anos, a cervejaria de Paraty
- Sônia Apolinário

- há 4 minutos
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Uma determinada localidade em Paraty, cidade no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, foi escolhida por corujas para ser seu lar. Em um território originalmente habitado por indígenas, as aves passaram a ser chamadas de caborê, palavra em tupi-guarani.

Muitos anos depois, Caborê se tornou nome de bairro da cidade e também de uma cervejaria que, não por acaso, é praticamente uma embaixadora de Paraty onde quer que seus rótulos cheguem.
Não é para menos. A marca completa 20 anos no final de 2026 - um marco em um mercado relativamente novo, no país. Tanto que a Caborê é uma das 100 primeiras cervejarias artesanais do Brasil.
Lupulinário visitou a cervejaria e conversou com seu proprietário, Murilo Monticelli.
Origem
Paulista e arquiteto por formação, Murilo não tinha planos de morar em Paraty e, muito menos, ser tornar o responsável pela administração de uma cervejaria. Mas negócios de família têm dessas coisas: os pais "pediram" e a esposa adorou a ideia de morar em um lugar mais tranquilo, então... Lá se vão 20 anos que Murilo se mudou para Paraty.
Voltando no tempo. Em São Paulo, a família Monticelli tinha boticários, uma espécie de avós das farmácias modernas. Para diversificar os negócios, o patriarca João Gerônimo pegou o caminho de Paraty, decidido a abrir uma pousada.
Se instalou em Caborê, então, um local sem asfaltamento e, muito menos, opções turísticas. Oito anos depois, ele também teve a ideia da cervejaria. Segundo Murilo, a aposta do pai é que o novo negócio iria atrair a curiosidade das pessoas para levá-las até o "tão distante" bairro - que fica a menos de cinco minutos de carro do Centro Histórico. Naquela época, não tinha cervejaria em Paraty. Atualmente, existem cinco, em diferentes estágios de atuação e legalização.
A cervejaria aparece nessa história de família graças a um amigo alemão do patriarca, um geólogo que trabalhava com consórcio de águas. E de cerveja, a Alemanha entende.
- Compramos equipamentos alemães e contratamos a Cevada Pura para nos dar consultoria. Fizemos sete versões de Pilsen até chegarmos na receita final que adotamos. Quando começou essa movimentação da minha família, eu era recém-formado e recém-casado, com um filho de um ano. Eu que fiz o projeto arquitetônico da cervejaria. Meu pai me "convocou" e eu disse que não queria morar em Paraty, mas minha esposa Léa adorou a ideia - contou Murilo.
Restou ao arquiteto estudar sobre cerveja. E administração. O primeiro cervejeiro da Caborê foi João Bucchioni, ex-gerente da pousada que estudou tudo o que pode sobre a produção da bebida. Em 2014, ele saiu do grupo para abrir a própria cervejaria.
Vários mestre-cervejeiros já passaram pela Caborê. Cada um deles deixou um rótulo como legado, que segue no portfólio da marca. Atualmente, quem está à frente das "panelas" é Alexandre Oliveira, um ex-aprendiz da pousada, que está concluindo sua formação cervejeira.
Mercado
Quando a fábrica foi inaugurada, a missão inicial do negócio era abastecer o restaurante da pousada, também aberto ao público em geral.
Pioneira na cidade, foi fácil para a Caborê se instalar em 60 pontos de venda em Paraty. Mas veio a pandemia do Coronavírus. E a cidade, turística por excelência, simplesmente fechou as portas. Foram seis meses sem receber visitantes.
- Passei a vender a cerveja de forma itinerante, a preço de custo. Naquela época, nossa produção era de 4 mil litros por mês. Quando a pandemia chegou, estávamos com tanques cheios, tínhamos uma loja no Centro Histórico que fechamos - contou Murilo.
Quando a vida foi voltando ao normal, em Paraty, Murilo fez uma revisão geral nos planos da cervejaria. Ficou claro para ele que não daria para abraçar o mundo com as pernas - ou seja, conquistar mercados no Rio e em São Paulo - Paraty está à mesma distância das duas grandes cidades.
Decidiu que não reabriria a loja. Hoje, além de abastecer os negócios da família, seu foco está na realização de eventos. Murilo também começa a desenvolver novos planos para melhorar a experiência de visitação da cervejaria onde também faz o próprio envase e a pasteurização das bebidas.
- Logo no início, fiz cursos de produção caseira de cerveja, mas desisti de embarcar, eu mesmo, na produção. Demora muito e depois tem muita coisa para limpar - disse ele, entre risos.
No final das contas, é Murilo quem administra a pousada de 42 quartos e a cervejaria - que inclui fábrica e choperia (foto no alto que mostra também Murilo e o cervejeiro Alexandre).
- Eu aproveitava mais Paraty quando não morava na cidade - afirmou ele, dando uma sonora gargalhada.
Rótulos
Com uma adega de 12 mil litros de capacidade, a produção atual da Caborê é de 3 mil litros por mês. Ao todo a marca tem sete rótulos fixos, São eles:
Pilsen (5,2%),
Lark Lager (4,8%),
Weizenbier (trigo não filtrada, 5,5%),
Hop Lager (a preferida de Murilo, 4,5%),
American IPA (também não filtrada, 7,5%),
Porter (em parceria com a cachaçaria local Pedra Branca, feita com melaço da cachaçaria e maturada em barril de carvalho, 9%),
Sour com abacaxi e raiz de lírio-do-brejo (ingredientes oriundos de produção familiar local, lançada para celebrar o título de Patrimônio Mundial da Humanidade concedido a Paraty, em 2022, 5,3%).
Além de dois sazonais: a Ostera (uma American Lager com adição de hibisco criada em prol da campanha Outubro Rosa) e a Cofee IPA (elaborada em parceria com a Montañitas Café, para as festividades do IPA-DAY).
A choperia oferece régua de degustação, o que facilita o público a conhecer as diferentes cervejas.

Lupulinário: Ter sido pioneiro na região ajudou ou atrapalhou?
Murilo Monticelli: Não ajudou muito, não. O mercado de cerveja artesanal é fechado. Tenho dúvidas sobre os tais 2%, 3% do público para o segmento que sempre falaram que existia. Acho que o público não sabe o que, de fato, é cerveja artesanal. E, atualmente, estamos concorrendo com as cervejas especiais produzidas pela grande indústria, que consegue preços que nós não conseguimos. Não temos condições, por exemplo, de produzir cerveja sem álcool a preços competitivos. Mas ainda temos muito a consolidar.
Como percebe o mercado de cerveja artesanal, atualmente, em Paraty?
MM: Torço para que o pessoal consiga se regularizar. Mas o que vejo hoje, são as marcas brigando por preço.
Qual a meta da Caborê para os próximos anos?
MM: Eu parei de focar no mercado e passei a me dedicar aos nossos próprios eventos. Os principais são a Oktoberfest e a Corrida Cervejeira. Também apoiamos o bloco de carnaval de Jabaquara, bairro vizinho ao nosso. Quremos ser a cerveja do nosso vilarejo. Queremos ser a cerveja identificada com Paraty. Isso nos deixa muito felizes.
A questão é que o patriarca João Gerônimo segue com suas ideias. Murilo contou que o pai sonha, agora, em produzir um destilado de malte, ou seja, whisky. Ou seja, ele sonha em ter uma destilaria.
Em tempo. As caborês ainda são vistas pelo bairro, apesar das luzes que as corujas não gostam muito.










































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