• Sônia Apolinário

Os novos rumos da Abracerva sob a presidência de Nadhine França


Há pouco mais de um ano, Nadhine França se tornou associada da Abracerva. Analista de sistemas e beer sommelière, chegou na instituição com alguns projetos debaixo do braço. De cara, implantou um deles, o Núcleo de Diversidade, do qual se tornou coordenadora. Mal sabia ela que, poucos meses depois, se tornaria presidente interina da Associação e, na sequência, seria eleita presidente executiva.


Lupulinário conversou com Nadhine para saber os rumos que ela e a nova diretoria pretendem dar para a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal.


Whatsapp


Nadhine substituiu, no cargo, Carlo Lapolli, que renunciou em setembro passado. Até então, ele estava no seu segundo mandato como presidente da Abracerva. Foi ele quem deu sinal verde para Nadhine implantar o Núcleo de Diversidade. Também foi com o aval de Lapolli que a instituição iniciou os trabalhos para a criação de um código de ética.


Sua saída da Abracerva foi um dos efeitos da revelação da existência dos Iluminattis - grupo de Whatsapp que reunia 200 homens do setor cervejeiro, que tiveram comentários racistas divulgados. Lapolli já tinha feito parte do grupo e também teve opiniões expostas publicamente, no caso, de cunho machista.


“Foi uma surpresa essa situação. Toda essa história é um marco triste no mercado cervejeiro. O setor chegou à TV aberta por conta dessas mensagens”, observa Nadhine. “A ideia inicial era o Lapolli não renunciar. Estávamos tentando reestruturar a casa, mostrar que podíamos fazer uma mudança. Mas ele preferiu renunciar e me convidou para assumir a presidência interina. Ele sugeriu que novas eleições fossem convocadas”.


A então presidente interina da Abracerva passou a articular uma chapa que mantivesse a preocupação com a diversidade além das outras pautas. Foi um trabalho relativamente fácil. Isso porque, segundo conta, pessoas que tinham projetos para apresentar para a Associação – ou até já tinham apresentado, mas que ficaram perdidos em alguma gaveta, foram se chegando; bem como pessoas que estavam em busca de melhorias para o setor.


Nadhine admite que temia que o processo eleitoral sofresse um esvaziamento. Mas o que aconteceu foi o contrário: outra chapa foi criada e disputou a eleição. Por conta da pandemia do Coronavírus, a assembleia-eleição foi feita de forma virtual, com votação online. Resultado: participação massiva.


Até então, Lapolli acumulava dois cargos: presidente executivo e coordenador do Conselho. A chapa vencedora optou por ter ocupantes diferentes para esses cargos. Nadhine foi escolhida presidente-executiva. Coube a Marcelo Paixão (cervejaria Verace) assumir a coordenação do Conselho.


“As decisões são tomadas em conjunto, pelo Conselho. Todo mundo trabalha igual, o presidente executivo dá mais a cara no desempenho das funções”, explica Nadhine.


Desafio


Segundo ela, “arrumar a casa” é o principal desafio da nova gestão:


“Pegamos a Abracerva em uma situação de grande instabilidade, tanto de confiança quanto financeira. Temos cerca de 800 associados e a inadimplência é alta. Estamos tentando colocar as contas em dia e fazendo um planejamento para o ano que vem”.


Do que estava em andamento, Nadhine destaca os trabalhos referentes à reforma tributária. Na nova gestão, um núcleo liderado pela advogada Elisabeth Bronzeri ficou responsável pelos estudos e acompanhamentos relacionados com o assunto.


O Núcleo de Diversidade, agora, tem como coordenador Leandro Sequelle (Graja Beer). Sua primeira tarefa foi a aprovação do Código de Ética. Agora, será produzido um manual de boas práticas e serão elaborados projetos para ações afirmativas no segmento.


Além disso, em janeiro, um censo cervejeiro começa a ser feito pelo Sebrae, a partir de orientações fornecidas pela Abracerva.


Representatividade


Moradora de Recife (PE), Nadhine vinha atuado em prol da união das mulheres do segmento. Esse movimento se materializou no lançamento da cerveja Batom Vermelho, uma produção colaborativa, que envolveu várias confrarias femininas pelo país. Foram feitas duas versões da cerveja, lançadas, em 2018 e 2019.


Ela chegou a cogitar criar uma associação com foco nas mulheres. Optou, porém, por “bater na porta” da Abracerva e usar a força de uma instituição já consolidada como forma de levar o tema da diversidade para o ambiente cervejeiro.


Acredita que o segmento se sente representado tendo uma mulher negra como presidente da Abracerva?

NF: O mercado, hoje, ainda é masculino, branco, de classe média. Ao mesmo tempo, de forma mais ampla, o próprio mercado está exigindo um posicionamento. A maioria das marcas não faz mais marketing a partir da objetificação da mulher. Isso aconteceu não porque as empresas ficaram boazinhas, mas por pressão do mercado. É um processo que o segmento das artesanais vai acompanhar. A nossa chapa ter sido eleita já é uma resposta a essa exigência do mercado. O Código de Ética teve 100% de votação. São respostas. Existem barreiras, ainda, mas acredito que irão se quebrando na medida em que o trabalho vai sendo feito. Nossa chapa tem pessoas de vários segmentos dentro da cadeia produtiva da cerveja, ou seja, é uma equipe multidisciplinar. Isso é bastante positivo.


Agora, integralmente dedicada ao trabalho na Abracerva, o que mudou na sua rotina?

NF: Não é fácil. É muita informação. Eu já tinha uma rede de relacionamentos grande, mas é muito mais gente com que tenho que lidar, muitas mensagens o tempo todo. Gerenciar meu Whatsapp está difícil. Não estava acostumada a ter tantas coisas na agenda. A vantagem é que, pelo menos, praticamente tudo está sendo feito online. Nossa equipe é formada por pessoas competentes, com as quais tenho proximidade. Estou muito confiante.


Conheça os integrantes da nova diretoria da Abracerva


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