Clandestina: Devagarinho, roda de samba formada por mulheres conquista Niterói
- Sônia Apolinário

- há 6 horas
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Estudante, jornalista, professora, trancista. Essas são as profissões de algumas das mulheres que, quando se reúnem, exibem um talento especial comum: tocar e cantar samba. Juntas, elas formam a Roda Clandestina.
No compasso de Martinho da Vila, elas seguem "devagar; devagarinho"; porque, como diz o sambista, "Devagarinho é que a gente chega lá".
Há quase dois anos, essas "mulheres comuns" de Niterói decidiram tirar seus talentos musicais do armário. Agora, começam a ser reconhecidas pelos apreciadores de roda de samba, da cidade.
- A Roda Clandestina nasce de um sonho coletivo e vai se firmando no compasso do respeito às tradições do samba e às mulheres que seguem fazendo esse gênero pulsar no presente - afirma Carolina Vergara Muzi, a Carol, uma das idealizadoras do grupo.
A formação atual reúne, além da jornalista Carol (percussão e voz), a estudante de Geologia da UFRJ e professora Clau Maiã (voz), a técnica de análise clínica Cíntia Krauser (pandeiro e voz), a trancista Fernanda de Paula (pandeiro e voz), a engenheira Flávia Freitas (cavaquinho e violão), a professora de música Paula Guimarães (violão), a corretora de seguros Janine Britto (percussão), a estudante de Medicina da UFF Daniele Silva (violão) e a comerciante Thainã Vianna (tantã).
Oficina das Minas
A história da Roda começa em 2023, a partir de uma oficina social de instrumentos voltada para mulheres. Trata-se da Oficina das Minas, criada pela produtora cultural Camille Siston, que reúne cerca de 300 pessoas, de abril a setembro.
Carol era uma das poucas participantes da oficina que já tinha tocado um instrumento, no caso surdo, com experiência na fanfarra niteroiense Sinfônica Ambulante e no bloco carioca Mulheres Rodadas.
Um grupo começou a ensaiar, "no sapatinho", sem todos os integrantes da oficina - grupo devidamente batizado de "Clandestinas" por Carol.
- A oficina sempre faz uma apresentação em novembro e começamos os ensaios para essa apresentação. Em março, no meu aniversário, fizemos a nossa 'estreia' no play do meu prédio. A gente era horrível, mas carismáticas. Agora, estamos bem bonitinhas - conta Carol, caindo na gargalhada.
Aquela apresentação no play acendeu uma luz e, com ela, veio a inevitável pergunta: por que não?
Decididas a tirar o grupo da clandestinidade, Carol reuniu professores e os estudos dos instrumentos foram intensificados. Aliás, a escolha de cada uma pelo seu instrumento foi intuitiva, uma vez que ninguém sabia tocar nada, até se chegar na Oficina das Minas.
Mais seguras, elas começaram a se aventurar pelos espaços de roda de samba de Niterói. Foram inicialmente acolhidas pelo Estúdio 11 Botequim, na Cantareira, onde se tornaram residentes e atração fixa no segundo domingo de cada mês. E a cada apresentação, o público aumenta.
Machismo
Dominar cada vez melhor seus instrumentos se tornou um desafio até "fácil", diante da realidade com a qual as clandestinas se depararam: o conservadorismo do mundo do samba:
- Não é fácil manter uma roda só de mulheres em um universo tão machista. Chegaram a tirar instrumentos das nossas mãos, durante apresentação, para mostrar como nós deveríamos tocar. Também ouvimos reclamações de que estávamos ocupando lugar de profissionais. Atualmente, as coisas começam a mudar e, definitivamente, a Cantareira é nosso território - comenta Carol.
Ao mesmo tempo em que amplia sua atuação em Niterói, a Roda Clandestina já sonha em atravessar a Baía de Guanabara e se aventurar pelo Rio de Janeiro - meta para 2026. Como cartão de visitas levam na bagagem apresentações em dois lugares tradicionalíssimos do samba carioca: o Clube Renascença e o Rio Scenarium.
No dia 12 de abril, a roda comemora seus dois anos de formação. E vai ter comemoração, é claro, no Estúdio 11 Botequim:
- Nossa premissa é simples, mas também profunda: pertencer, representar, ocupar e integrar o território musical com qualidade artística, potência feminina e alegria. Porque no samba, festa também é linguagem política, celebração e resistência - afirma Carol.
Antes do aniversário, porém, tem Carnaval. Vai rolar o Bloco Clandestino, no dia 8 de fevereiro, a partir das 17 horas, na Cantareira. Save The Date!
































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