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  • Sônia Apolinário

Chairman BR do World Beer Awards fala sobre a inclusão do estilo Brazilian Pale Ale no concurso

Para tirar dúvidas a respeito do estilo Brazilian Pale Ale e como passou a fazer parte da edição 2022 do World Beer Awards, Lupulinário entrevistou René Aduan Junior, que está em Londres por conta da competição. O resultado final do WBA será divulgado no próximo dia 25.


Juiz de concursos cervejeiros, ele participa do WBA desde 2015, sendo que, em 2017, passou a ser também chairman no Brasil.


Essa função deve-se a uma particularidade deste concurso. Brasil, Chile, Japão e África têm, digamos, núcleos próprios: rótulos desses respectivos países são enviados para seus chairmans, que encaminham parte para o Reino Unido – todo o resto do mundo manda diretamente para a equipe do concurso, em UK. Uma parte fica no próprio país, onde as amostras são julgadas na primeira etapa da competição. Neste caso, o resultado foi divulgado no último dia 6 de agosto.


René é sommelier de cerveja e vinho, biólogo, biotecnólogo, professor, chef, músico e pesquisador independente. Ele contou que batalhou pela inclusão do estilo Brazilian Pale Ale e também Catharina Sour, no concurso, sendo a BPA assim descrito para os competidores, dentro da categoria Pale Ale:


“A cor é de pálida a dourada, alta formação de espuma, com boa duração. Intensidade média-baixa a média de aroma e sabor de malte, com notas de cereais, crosta de pão, sem caramelo. Final levemente doce. Aroma e sabor de lúpulos típicos brasileiros com médio a amargor médio-alto com aromas florais, herbais e/ou cítricos leves. Fermentação com características de ésteres tópicos de frutas amarelas presentes em níveis médios a médios-altos. Pode ter um leve tempero lembrando cravo. Possui corpo médio-baixo a moderado, alta drinkability, acabamento “crispy”.

Características gerais: uso de matérias-primas produzidas e processadas com técnicas e Terroir. Gravidade Original (°P) 1,044-1,050 (11-12,4°P) Extrato Aparente/Gravidade Final (°P) 1,011-1,019 (2,8-4,8°P) Álcool (Volume) (3,8%-5,0%) Amargor de Lúpulo (IBU) 20-35 Cor SRM 3-7 (7-14 EBC)”.


Ou seja, o Brazilian Pale Ale não prevê adjuntos, mas os ingredientes básicos da produção da cerveja precisam ser brasileiros ou apresentar características que remetam ao terroir brasileiro.


Na primeira fase da competição, quando os rótulos são julgados por país, uma única cervejaria nacional obteve medalha. A catarinense Lohn conquistou prata (pontuação não ultrapassou os oito pontos) com a Todanossa, já definida como uma Brazilian Pale, quando foi lançada, em 2021. O que o site da cervejaria fiz sobre a cerveja:


“Brazilian com Z, pois acreditamos que a cerveja não será apenas para nós brasileiros, ela tem potencial internacional, assim como tudo que o mercado brasileiro desenvolve e é observado mundialmente com muitos méritos. A cerveja é clara (Pale), fermentação acima de 15°C (Ale), corpo leve, amargor para 30 IBUs e singelos 4,2% ABV, dando muita drinkability para ela. Lúpulos de amargor e aroma da safra 2021, ornam com fenóis e de frutas amarelas de levedura, repetindo as sensações ao final de boca. Esse conjunto faz com que a cerveja tenha características novas no conjunto, uma legítima Ale Clara Brasileira".


A Lohn é uma cervejaria de origem artesanal, com sede em Orleans (SC). Atualmente, faz parte do portfólio da Ambev (que integra a AB InBev) via ZX Ventures, o braço de inovação da gigante cervejeira.


René foi um dos pesquisadores da levedura usada na Todanossa - proveniente do litoral de Santa Catarina, em trabalho conjunto com a biotecnóloga Ana Carolina Souza Ramos de Carvalho:


- A levedura usada na Todanossa tem o DNA brasileiro. Dizem que somos muito jovens para ter nosso próprio estilo. Mas somos o terceiro maior produtor de cerveja do mundo e o Brasil tem um bioma muito grande. Somos um celeiro de ideias. No Brazilian Pale Ale, os atributos da levedura estão em primeiro plano, ou seja, fruta amarela tropical proveniente da fermentação. Os lúpulos nacionais também contribuem com herbal, floral ou cítrico. Apesar das nossas plantas serem de castas vindas de outros países, os lúpulos brasileiros já têm seus fenótipos. A Brazilian Pale Ale está ganhando observadores no mundo inteiro. Estamos abrindo as portas para os produtos brasileiros – comenta.


A Lohn também informou no seu site, a respeito do rótulo Todanossa, que usou água “que vem das encostas da serra catarinense”. Os lúpulos são da agricultura familiar também da serra, “um projeto da Fazenda Santa Catarina com a Ambev de Lages”. A cevada, de acordo com a cervejaria, também é nacional e teve o processo de malteação desenvolvido pela Maltearia Blumenau. A levedura utilizada é a Saccharomyces, descoberta pelos pesquisadores da Yeast Hunters, testada no Centro de Inovação Tecnológica do Rio de Janeiro, “identificada como nova e expressando características únicas”.


Em 2018, a Ambev inaugurou, no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um centro de pesquisa e desenvolvimento, tido como o mais avançado do grupo AB InBev. O CIT (Centro de Inovação e Tecnologia) Cervejeiro, contou com investimentos da ordem de R$ 180 milhões e “tem como missão desenvolver novas cervejas, receitas, embalagens e outras bebidas”.


Nessa primeira fase do World Beer Awards, a categoria Brazilian Pale Ale registrou medalha de ouro para o rótulo holandês Juicy Pale Ale da cervejaria Liberty (5,5% ABV e 23 IBU). Eles usaram ingredientes brasileiros? René responde:


- O fato de um rótulo holandês ter ganho ouro é fantástico. Significa que o estilo transcendeu o país. E essa é a ideia. Da mesma forma que existe uma American Pale Ale, que todo mundo pode fazer, temos, agora, uma Brazilina Pale Ale. A holandesa usou levedura belga? Usou. Mas a cerveja é uma juice e lembra o padrão do estilo. O importante é que o Brazilian Pale Ale precisa ser aceito para se firmar como estilo e está sendo e isso é muito bacana. Tem várias cervejarias em Londres que me procuram interessadas em saber mais sobre o estilo e os ingredientes. A holandesa é uma Brazilian Pale Ale, de fato? O importante é que tem muito dos seus atributos, uma versão de algo que foi criado no Brasil. Uma holandesa ter ganho ouro nesse estilo é estranho, mas animador. Estou feliz que isso tenha acontecido. O Brazilina Pale Ale abre uma nova gama de possibilidades como estilo base para novas produções. E nasce a partir de um grande impulso tecnológico.


Na foto, René ao centro, entre brasileiros que participaram do julgamento da primeira fase do World Beer Awards.



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