• Sônia Apolinário

Beber, comer e dormir nas pousadas cervejeiras



Um novo elemento tem chamado a atenção no turismo cervejeiro: oferecer opção de hospedagem para quem visita a fábrica, no próprio local da fábrica. Há casos, porém, que a criação de uma cervejaria é que foi estratégico para potencializar os negócios da pousada.

Lupulinário será a guia de um passeio por quatro cases cervejeiros que agregaram pousadas aos seus negócios - ou vice versa.


Esse tour começa pela cidade de Gonçalves (MG) onde fica a 3 Orelhas. Cervejeiro e sócio da marca, Bruno Faria conta que a inspiração para ter hospedagem na cervejaria veio da Bélgica, onde esse tipo de negócio é comum.


No momento, no terreno onde a fábrica está instalada, existem três chalés. Inicialmente, foram usados para hospedar familiares que visitavam a cervejaria. O próprio Bruno chegou a morar em um deles, o Castorzinho, justamente por ficar a cerca de 100 metros da cervejaria (na foto, vista da cervejaria, da varanda do chalé). Foi no ano passado, em plena pandemia, que ele percebeu que os chalés poderiam contribuir para diversificar a renda da 3 Orelhas.


“Difícil um final de semana que os chalés não estejam ocupados. Com a hospedagem, conseguimos oferecer uma nova experiência para os fãs da cervejaria. O bacana é que estamos recebendo vistas de gente do meio cervejeiro. Tem muito carioca aparecendo por aqui”, conta Bruno.


Um dos chalés acabou ficando sob contrato convencional de aluguel. Assim, somente dois estão disponíveis para temporada. O Castorzinho está localizado a uma altitude de 1.450 m. O Chalé da Montanha está a 1.600 m de altitude e, para chegar lá, é preciso encarar uma subida íngreme que obrigada o visitante a ter veículos tipo 4 x 4. Por lá, a vista é de 360 graus para a serra da Mantiqueira, o que inclui a visão das Três Pedras, que inspirou o nome da cervejaria.


Ambos os chalés têm duas suítes e recebe até quatro pessoas. São mobiliados e equipados com lareira, churrasqueira e, no Montanha, também forno de pizza. É claro que o frigobar fica devidamente abastecido de rótulos da 3 Orelhas. E todo o cardápio do bar da fábrica também é entregue por delivery.


É possível “visitar” as acomodações no site da Airbnb (clique nas fotos para ver), mas quem administra, mesmo, é dona Fátima, mãe de Bruno.


De Minas, seguimos para o Rio de Janeiro, mais precisamente para a cidade serrana de Penedo. Lá, há 22 anos, funciona a Pousada Valle dos Pássaros, em um terreno de 60 mil metros quadrados, cortado por um rio e com direito a um lago. A cervejaria Penélope ocupa três mil metros quadrados dessa área. Foi inaugurada em 2019 e o bar da fábrica abriu no carnaval de 2020, ou seja, abriu e logo fechou, mas já voltou a funcionar.



“Fiz várias viagens cervejeiras. Perto de Munique, na Alemanha, conheci um local que tinha uma cervejaria no subsolo e quartos três andares acima. Isso ficou na minha cabeça, mas confesso que nunca achei que faria algo parecido aqui”, comenta Flávio Marques, cervejeiro da Penélope.


Foi dele a ideia de construir a cervejaria (foto à esquerda) próximo à pousada da família, que já ajudava a cuidar. Na sua opinião, a cerveja “agrega” o movimento do hotel.


Foi em 2014 que ele descobriu o movimento craft beer. Entrou para a Acerva Carioca, fez curso de técnico cervejeiro no Senai e, em 2018, criou a Penélope, então como marca cigana.

Atualmente, a fábrica da cervejaria tem capacidade de adega de 6 mil litros. São seis estilos em linha e, geralmente, 4 sazonais disponíveis nas torneiras do bar. Os planos para 2022 inclui começar a fazer eventos no local.


“O turismo movido pela cerveja tem muito potencial, mas tudo isso ainda é muito novo para nós. Tenho planos de ter, na pousada, pelo menos um quarto temático com chopeira ou torneira”, conta.


Ainda no Estado do Rio de Janeiro, o destino, agora, é a também serrana Nova Friburgo. No Sanandu Bike Park, a cervejaria está ainda mais “fresquinha”. O Mapa foi obtido há dois meses e, no momento, o brewpub, que terá quatro torneiras, está em obras com expectativa de inauguração em janeiro de 2022.


A cervejaria é a caçula dos negócios do local que se espalham por uma área de 1,5 milhão de metros quadrados. O engenheiro agrônomo Daniel Ross Hollick voltou de uma temporada na Nova Zelândia com a ideia de criar, nas terras da família, algo que conheceu por lá: um bike park, repleto de trilhas para os amantes da “magrela”.


Os ciclistas, logo, passaram a demandar algum tipo de refeição e um restaurante com torneira para marcas artesanais foi inaugurado. Depois vieram as hospedagens e área para camping. Com a cervejaria, Daniel acredita que o “complexo” chegou ao seu melhor formato.


Cervejeiro autodidata, ele executou sua primeira receita em 2017 como presente para a festa de casamento de amigos. O feedback dos convidados o animou e ele começou a pensar na possibilidade de fazer da cerveja também um negócio. Agora, sua fábrica tem capacidade para produzir 1.300 litros, por mês. Blond Ale, Bitter e Pilsen são as receitas que já produz. Uma IPA está para ser criada. Sazonais com uso de ingredientes de época também estão nos planos.


“Acho que o público da cerveja vai somar ao público da bike. Tem lugares turísticos que a cerveja é o grande atrativo e estou apostando nisso”, comenta ele que é a terceira geração da família a cuidar das terras.


Daniel mora no parque desde 2015. Sua mãe Mariza cuida do restaurante durante o dia e da hospedagem (são dois chalés e o camping tem capacidade para 50 barracas). Ele cuida do restaurante à noite, onde faz e serve pizza e hamburger. Seus planos incluem fazer eventos no local e iniciar uma plantação de lúpulo.


Do Rio de Janeiro, seguimos para São Paulo, capital, última parada dessa viagem. Lá vamos direto para a Casa Avós, que tem um hostel, no segundo andar. O local, atualmente está em obras, com previsão de reinauguração também em janeiro de 2022.


“Nós não vamos mais vender somente a acomodação, mas experiências. Vamos atrelar a presença do hóspede a atividades como produção de cerveja, aula de sommelieria, um tipo de introdução ao mundo da cerveja artesanal”, explica Junior Bottura, cervejeiro e sócio da Avós.


A criação do hostel, em 2019, não foi planejada. No andar de cima do bar da marca, morava uma senhora, que deixou o local. Junior tratou de alugar, em princípio, para ficar "sozinho" no imóvel. Veio, então, a ideia de criar o hostel. Com o novo negócio, ele buscava uma forma para ajudar a pagar o aluguel de todo o imóvel ocupado pela Avós, na Vila Ipojuca.


Na verdade, tudo por lá foi crescendo aos poucos, na base do “atendendo a pedidos”. Junior explica. Sua ideia inicial era apenas ter a sede da empresa, no local. Virou um growler station, frequentado pela vizinhança, que levava sua cadeira de praia para beber por lá mesmo. Houve uma mudança no zoneamento da área, que passou a permitir o funcionamento de bares. Surgiu, então, a Casa Avós, um bar-empório.


O hostel tinha como charme uma torneira embutida em um armário, plugada com o chope do bar que o hóspede quisesse. E quem diria, os primeiros hóspedes foram atletas e não consumiam bebida alcoólica.


“As pessoas estavam vindo pela localização e pelo custo. Mas o hostel fica em cima de um bar, ou seja, tem barulho até fecharmos. Só tem silêncio depois de meia noite. Mesmo assim, foi um baita sucesso. Fechávamos de 12 a 15 diárias, por mês e, com isso, eu pagava o aluguel da casa inteira”, comenta Junior que deixou para o Airbnb a tarefa de administração do hostel.



Sobre a torneira no quarto, era o próprio hóspede quem informava, no check out, o quanto tinha consumido – não havia controle formal. E, não, ninguém deu volta na cervejaria, segundo Junior.


Na sua opinião, “tem tudo para várias cervejarias fazerem o mesmo”, ou seja, atrelarem alguma hospedagem à experiência de uma visita à fábrica. Ele lembra que a pandemia fez com que muitas pessoas “descobrissem” cidades, como a própria Gonçalves, da 3 Orelhas, por exemplo. Junior conta que, nos últimos tempos, quem mais alugava o quarto eram pessoas do meio cervejeiro.


“Dá trabalho, não é simples. Tem que ter uma estrutura mínima. Fomos pegando o feedback das pessoas para melhorar o serviço. Por isso, agora, queremos oferecer mais do que um pernoite, mas uma experiência cervejeira”, afirma Junior.


3 Orelhas - Estrada da Terra Fria, km 5 - Gonçalves - MG

Cervejaria Penélope - Rua Harry Bertel, 226, Penedo / Itatiaia – RJ

Sanandu Bike Park - Estrada do Stucky / Colonial 61, Nova Friburgo - RJ, acesso pela Estrada Mury Lumiar (RJ 142) KM 6

Casa Avós - Rua Croata, 679, Vila Ipojuca - São Paulo (SP)


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