Mapa holandês de 1647 vai guiar pesquisadores brasileiros até os primeiros quilombos do país


Logo que começar 2026, serão dados os primeiros passos de uma escavação arqueológica que poderá esclarecer detalhes sobre a vida em liberdade de pessoas negras que, durante o período colonial, viveram nos quilombos dos Palmares.
Sim, quilombos, no plural. Pesquisadores estimam que existiram, pelo menos, dez quilombos anteriores ou posteriores a Palmares, em Alagoas.
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Agora, um mapa holandês, produzido em 1647, vai ajudar a guiar uma equipe formada por arqueólogos, geógrafos, historiadores e antropólogos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL- Campus Sertão) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em direção a vestígios do que seriam os quilombos mais antigos fundados na região, entre os estados de Pernambuco e Alagoas.
O mapa
O mapa em questão foi descoberto, em 2021, na biblioteca da Universidade de Harvard (EUA), pelo cartógrafo histórico Levy Pereira que faz parte da equipe das escavações.
O documento integra a versão original manuscrita do “Brasilia Qua Parte Paret Belgis” (A parte do Brasil que pertence aos Neerlandeses), do matemático e naturalista George Marggraf. O material era usado pelas expedições holandesas (1644–1645) que caçavam, no Brasil, comunidades de escravizados fugitivos.
Nos últimos quatro anos, enquanto aguardavam o financiamento que permitiria as escavações, pesquisadores fizeram a transposição do documento histórico sobre uma base cartográfica atual.
Além do mapa “atualizado” nas mãos, os pesquisadores que seguirão a campo, a partir de janeiro, também contarão com a ajuda de imagens de satélite, drones e GPS para localizar os quilombos, além de detectores de metal para a realização de varreduras do solo.
O mapa indica três locais distintos. Dois estariam situados nos atuais municípios de Correntes e Lagoa do Ouro, no Agreste de Pernambuco; o terceiro seria na região de Chã Preta e União dos Palmares, em Alagoas.
Segundo o documento holandês, o primeiro estaria abandonado; o segundo, parcialmente destruído e também abandonado; já o terceiro, ativo, em 1647, quando o mapa foi elaborado.
Nas escavações, os pesquisadores pretendem encontrar vestígios que revelem detalhes do cotidiano da população que viveu nos quilombos como, por exemplo, como cultivavam a terra, coletavam, caçavam, faziam seus rituais e enterravam seus mortos.
- Os holandeses viam esses quilombos como ameaça real. O que nós sabemos pelos relatos históricos é como eram as cercas que fortificavam os quilombos; que as casas eram de madeira e que eles produziam uma cerâmica diferente da indígena. Sobretudo, sabemos que os quilombolas dominavam a fundição do ferro – afirmou, em entrevista para o site alagoano BR104, o arqueólogo Onésimo Santos, um dos coordenadores da pesquisa ao lado do também arqueólogo Flávio Moraes, ambos da UFAL – Campus Sertão.
O trabalho, financiados pela Fundação Cultural Palmares (FCP), terá a duração de 18 meses. As escavações contam com autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
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Palmares
Instalado na Serra da Barriga, no município de União dos Palmares, em Alagoas, o Quilombo dos Palmares foi um Estado autônomo que resistiu por quase cem anos aos ataques holandeses, luso-brasileiros e de bandeirantes paulistas.
De acordo com historiadores, foi fundado em 1590 pela princesa congolesa Aqualtune. Teria sido o último dos quilombos da região.
- Nossa história foi fincada sempre nas bases do colonizador. Os povos afro-indígenas, intencionalmente, foram apagados ou foram retirados, ou foi minimizada a sua participação na nossa história – afirmou Flávio Moraes para o G1.
Segundo ele, somente a partir das décadas de 1970 e 1980, a historiografia começou a mudar e dar importância à perspectiva negra e indígena, e alguns documentos passaram a receber, também, esse olhar.
Participam da pesquisa, além de Levy Pereira, Onésimo Santos e Flávio Moraes, o geógrafo e arqueólogo Daniel Ferreira, os historiadores Bruno Miranda, da UFRPE, Felipe Damasceno, Danilo Marques e Zezito Araújo, e o antropólogo Vágner Bijagó, no Neabi da UFAL-Campus Sertão. Também integra a equipe Leandro Pereira, responsável pelo registro audiovisual.
































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