Livro reconstrói a vida de Ênio Silveira - um dos mais influentes editores do Brasil
- Sônia Apolinário

- há 4 dias
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Fazer justiça à dimensão do editor Ênio Silveira sem transformá-lo num monumento. Esse foi o principal desafio enfrentado pelo escritor Sérgio França, segundo suas palavras, para a realização do livro "Ènio Silveira: O editor que peitou a ditadura" (Alameda Casa Editorial, 278 páginas). O lançamento será nesta quinta-feira (29), na livraria da Travessa de Botafogo (RJ).
Militante do Partido Comunista Brasileiro, o paulista Ênio Silveira (1925-1996) foi um dos mais influentes editores do Brasil. Segundo o autor, ele transformou a edição de livros "em trincheira política e espaço de resistência cultural durante os anos mais duros da ditadura militar". E pagou um preço por isso:
- Nas pesquisas feitas para a realização do livro, uma descoberta em especial me surpreendeu: a extensão da vigilância e da perseguição contínua que ele sofreu. Não era algo episódico — era estrutural, permanente - contou França em entrevista para o ComuniC.
De acordo com o autor, o livro é um mergulho na trajetória de um homem que viveu como quem edita o próprio destino: "com coragem, ironia e fé inabalável na palavra impressa". O livro reconstrói todas as fases da vida do editor — da infância paulistana à consagração no Rio; do auge à ruína econômica, e dos últimos anos silenciosos à eternidade simbólica.
Ênio ressuscitou e reinventou a histórica Editora Civilização Brasileira, transformando-a, a partir dos anos 1950, em símbolo de resistência política, cultural e moral contra a censura e o obscurantismo. Fundada em 1932, a Civilização Brasileira foi incorporada ao Grupo Editorial Record em 1996.
O editor, durante os chamados anos de chumbo, foi preso oito vezes, acusado de “subversão cultural” e “propaganda comunista”. Seus livros foram recolhidos, confiscados e queimados; sua livraria e editora, alvo de incêndio criminoso e atentado a bomba. Ainda assim, ele não recuou. Reabriria as portas todas as vezes, com o mesmo gesto teimoso e sereno de quem acreditava que “a arma mais perigosa é o livro”.
A editora Civilização Brasileira — sob sua direção — publicou alguns dos maiores nomes da literatura e do pensamento do século XX, como Carlos Heitor Cony, Fernando Sabino, Nelson Werneck Sodré, Marx, Engels, Lenin e Lukács. Como disse França, "cada lançamento era um ato político. Cada exemplar, uma faísca de liberdade".
Nascido em uma tradicional família de intelectuais da classe média, desde muito cedo Ênio teve contato com os livros. Ele trabalhou com Monteiro Lobato; estudou na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo e estagiou com Alfred A. Knopf, em Nova York (EUA), de onde trouxe a então moderna noção de “publisher” — um editor que pensa, negocia e age como intelectual.
Nos anos 1960, quando o país mergulhava nas trevas da ditadura, Ênio buscou a luz. Criou coleções como "Cadernos do Povo Brasileiro" e dirigiu a lendária "Revista Civilização Brasileira", que reuniu as prinicpais vozes da esquerda democrática, o que fez com que fosse alvo direto da repressão.
Entre 1964 e 1982, Ênio enfrentou censura, vigilância, prisões e asfixia financeira — e continuou publicando. Depois disso, já sem ser o proprietário, seguiu como diretor editorial até 1996, trabalhando como editor no próprio dia em que faleceu. Como observou França, para Ênio, "editar era resistir — até o fim".
Também editor, além de jornalista, Sérgio França é doutor em História Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV. Na sua opinião, muitos dos livros lançados por Ênio Silveira seriam, ainda hoje, sucesso editorial.
- Ênio sempre foi um editor com faro para o sucesso - disse França.
Confira a entrevista:
Comunic: Qual o maior desafio que o personagem representou para o projeto deste livro?
Sérgio França: O maior desafio foi fazer justiça à dimensão do Ênio Silveira sem transformá-lo num monumento. Ele foi um personagem enorme da história editorial e política brasileira, mas também era um homem cheio de contradições, afetos, medos e teimosias. O livro precisava equilibrar o editor corajoso que enfrentou a ditadura com o Ênio cotidiano, que errava, insistia, se reinventava, com o pai que gostava de nadar no mar com os filhos. Humanizar sem diminuir foi o grande desafio.
Comunic: Nas pesquisas feitas, alguma descoberta lhe surpreendeu? Qual?
SF: Sim, várias, mas uma em especial: a extensão da vigilância e da perseguição contínua que ele sofreu. Não era algo episódico — era estrutural, permanente. Ao mesmo tempo, me surpreendeu a rede de solidariedade intelectual e afetiva que se formou em torno dele. Os fatos revelados pela minha pesquisa sobre a vida do Manoel Boullosa, o bilionário português que acabou adquirindo dele a Civilização Brasileira foi também uma surpresa e tanto.
Comunic: Os livros publicados por Ênio Silveira, se fossem lançados hoje, seriam sucesso de vendas?
SF: Muitos, sim. Ênio sempre foi um editor com faro para o sucesso. Talvez não fossem todos best-sellers imediatos, mas seriam extremamente relevantes — e alguns certamente viralizariam. Ênio tinha uma percepção aguçada para textos que dialogavam com o espírito do tempo. Isso continua valendo hoje.
Comunic: Como você avalia o mercado editorial da época do Ênio e o de hoje?
SF: Na época do Ênio, o mercado era menor, mais concentrado, mas paradoxalmente havia mais espaço para projetos editoriais com identidade clara. Hoje o mercado é mais amplo, mais tecnológico, mais rápido — porém muito mais pressionado por métricas, algoritmos e retorno imediato. Ganhamos em acesso e perdemos um pouco em risco editorial.
Comunic: O papel do editor mudou muito da época do Ênio para hoje?
SF: Mudou na forma, mas não na essência. Hoje o editor lida com dados, redes sociais, plataformas, IA. Na época do Ênio, lidava com censores, polícia política, gráfica, distribuição precária. Mas o núcleo é o mesmo: apostar em ideias, defender autores e acreditar que livros podem transformar consciências.
Comunic: Quem busca se tornar editor, que mensagem vai ser possível extrair do livro?
SF: Que ser editor não é apenas um trabalho técnico — é uma posição ética diante do mundo. O livro mostra que editar é escolher, assumir riscos, bancar vozes e, muitas vezes, pagar um preço por isso. Para quem quer seguir esse caminho, a mensagem é clara: sem coragem, curiosidade intelectual e compromisso com a cultura, não há edição que faça sentido.
Serviço
Lançamento do livro "Ènio Silveira: O editor que peitou a ditadura"
Data: 29 de janeiro, a partir das 19h
Local: Livraria da Travessa de Botafogo - Rua Voluntários da Pátria, 97, RJ
Preço: R$ 94,00
































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