Novas fábricas prometem movimentar o mercado das cervejas especiais no Rio de Janeiro

16/03/2017

 

O ambiente das cervejas artesanais do Rio de Janeiro, a todo o momento, dá sinais que vive um período especial.  Na edição 2017 do Festival Brasileiro da Cerveja, realizada no último dia 11, em Blumenau (SC), cervejarias do Rio conquistaram, ao todo, 21 medalhas. Em 2016, foram apenas 9. E as apostas na expansão do setor continuam. Apostas altas. Nada menos do que duas novas cervejarias (leia-se fábricas) estão prestes a inaugurar. Isso depois de uma outra ter entrado em funcionamento, no final do ano passado, em plena Cidade Maravilhosa, e duas tradicionais passarem por grandes processos de ampliação. Juntas, têm capacidade para produzir, por baixo, 700 mil litros de cerveja. Conheça as novas cervejarias Piedade, Lagos e Serra Verde Imperial e as últimas movimentações das veteranas Noi e Mistura Clássica. No jogo das cervejas especiais do Rio de Janeiro, novas forças entram em campo para animar ainda mais a disputa.

 

Na Zona Norte do Rio de Janeiro, em um galpão de 3.500 metros quadrados no bairro da Piedade, costumava funcionar uma empresa de bebedouro de água. Esse foi, por muitos anos, o segmento de atuação de René Saleme. O engenheiro, especializado em automação industrial, para dar um gás nos negócios, passou a trabalhar com chopeiras digitais. Foi sua porta de entrada para o mundo cervejeiro e o suficiente para redimensionar completamente sua atuação empresarial. Em novembro de 2016, o galpão se transformou na Piedade Cervejaria, com o objetivo de ser a incubadora carioca dos cervejeiros ciganos.

 

“No Mondial de La Bière, vi a quantidade enorme de empresas ciganas que existem no Rio e percebi uma oportunidade de negócio porque muitos deles produzem suas cervejas fora do Rio de Janeiro”, conta Saleme.

 

Na Piedade, é possível “contratar” todo ou parte do serviço que envolve o processo de produção de uma cerveja, desde ajuste da receita até o armazenamento e a distribuição da bebida, passando pela parte administrativa e providências para a obtenção do Mapa. Rodrigo Ribeiro é o cervejeiro da Piedade.

 

Atualmente, 7 tanques de fermentação estão em atividade. A meta é chegar a 60, ao longo de 5 anos, quando será possível atingir a capacidade máxima do local: 120 mil litros por mês. Saleme acredita que, nesse momento, poderá atender, ao mesmo tempo, 50 ciganos.

 

“Eu tenho a impressão que já temos mais de cem ciganos no Rio. Porém, não sabemos ao certo. Não encontro em lugar algum esse número. Isso significa que tem espaço para todos”, afirma Saleme que estima usar, no momento, apenas 15% da sua capacidade, na produção de dez rótulos.

 

Ter um rótulo próprio não faz parte dos planos da Piedade, pelo menos neste momento. A cervejaria tem capacidade para envasar 200 garrafas por hora e não trabalha com lata.

 

Em Saquarema, na Região dos Lagos, distante cerca de 100 km da Piedade Cervejaria, a Lagos está prestes a ser inaugurada. Seu modelo de negócio é o mesmo da “colega” carioca: atender o cigano em parte ou todas as etapas da produção. Seu consultor mestre cervejeiro é Ilceu Dimer. O envase também é de garrafa (1.200 por hora).

 

Por que Saquarema?

 

"Os dois principais pontos em nossa decisão foram acesso e estrutura. A cervejaria tem fácil acesso pela Via Lagos, sempre por estradas pavimentadas. Nosso galpão, de 1.200 metros, está em um condomínio logístico que possui um total de 7.500 metros de área construída e mais de 100 mil metros de terreno, o que nos dá muita flexibilidade para uma possível expansão, no futuro, além de nos permitir organizar cursos e eventos que fomentem o mercado cervejeiro”, explica Marcelle Lopes, sócia-fundadora da Lagos junto com Dennis Martins.

 

Há um ano, eles planejam a entrada no mercado e consideram a concorrência “natural e saudável para o desenvolvimento da cerveja artesanal brasileira”. Os sócios também acreditam que há espaço para todos e que a tendência é uma maior profissionalização do setor, o que fará com que cada novo player encontre seu nicho. Na opinião dos dois, existe uma carência no mercado por soluções de fábrica que atendam às necessidades dos ciganos, desde os pequenos até os mais estabelecidos.

 

Para os sócios da Lagos, a legalização das empresas “continua sendo o calcanhar de Aquiles deste mercado”. Outra questão do setor, na opinião deles, é a padronização dos lotes. Eles consideram como principais desafios da Lagos para 2017 a consolidação da cartela de clientes e “a conscientização contra a informalidade”.

 

“Queremos consolidar nossa empresa como a melhor solução em produção terceirizada de cerveja artesanal. Nosso objetivo é atingir o limite máximo de nossa produtividade, ainda no segundo semestre, para que possamos alcançar nossa expansão já planejada em 2018. O momento é de amadurecimento e profissionalização. No geral, o mercado de cerveja artesanal cresce bastante. Especificamente no Rio de Janeiro, temos a presença de importantes marcas, já estabelecidas no mercado e com atuação nacional. O fato do Rio ser a capital cultural do país faz com que possamos sediar importantes eventos cervejeiros que estimulam o aparecimento de marcas cheias de arrojo e criatividade. Em conversas com ciganos, percebemos que o que realmente faltava era um parceiro com soluções que ajudassem os novos cervejeiros a se profissionalizarem e valorizarem seus negócios”, afirma Marcelle.

 

Entre o Rio de Janeiro e a Região dos Lagos, está Niterói. É lá, na Região Oceânica da cidade que a Serra Verde Imperial se instalou e também está prestes a ser inaugurada. Essa será a “casa própria” da até então cigana Máfia. A cervejaria ocupa uma área de 400 metros quadrados e tem capacidade para produzir 100 mil litros por mês. O montante do investimento foi de R$ 1,5 milhões.

 

A Serra Verde Imperial fica em Itaipu, bem perto da “veterana” Noi.  Carlos Fernando Ribeiro, um dos sócios, explica que o endereço foi “uma bela coincidência”, depois de dois meses de procura por um local. A busca começou após a decisão de que teriam, sim, uma cervejaria e que seria em Niterói, onde todos os cinco sócios moram. O grupo quase se instalou em Friburgo, ano passado - por isso o nome Serra Verde Imperial.

 

“Estarmos próximos a uma outra cervejaria, principalmente uma já consolidada no mercado como a Noi, com toda certeza é um atrativo. Porém, entendemos que será atrativo para ambos, pois estamos criando em endereços próximos a possibilidade do consumidor, em uma pequena distância, ter experiência de passar por duas cervejarias”, explica Ribeiro. 

 

Na verdade, há uma movimentação em Niterói para criar, na região em que a Serra e a Noi estão, uma espécie de polo cervejeiro, de apelo turístico. No Estado do Rio, esse tipo de atividade está organizada apenas na Região Serrana.  A Rota Cervejeira é formada por oito cervejarias, de vários portes, inclusive gigantes como Bohemia e Grupo Petrópolis, espalhadas por três cidades (Petrópolis, Teresópolis e Friburgo).

 

Ribeiro diz que não há “nada de concreto” em relação a uma possível parceria entre a Serra Verde Imperial e a Noi, mas que, “com toda certeza”, existe o interesse “de ambas as partes” em estabelecer algum tipo de cooperação futura.

 

“Ter a fábrica no estágio que está, praticamente pronta, com os registros legais em ordem, foi um desafio muito grande. Exigiu muita dedicação ao projeto. Nossas rotinas estão sendo duplas, já que todos temos nossas profissões. Iniciamos esse projeto há um ano”, conta ele.

 

Como ciganos, o grupo criou a família Máfia com quatro rótulos (Chicago, Sicília, New York e Las Vegas). Segundo Ribeiro, na nova fase da empresa, todos serão mantidos, mas a família não aumentará. A ideia é criar outras marcas.

 

“No início do nosso projeto, já tínhamos traçado a estratégia de ter nossa própria cervejaria, caso tivéssemos sucesso em nossa empreitada. Acreditamos que, somente com a nossa fábrica, poderíamos crescer sem o limitador de sermos ciganos e depender da disponibilidade de terceiros”, explica Ribeiro.

 

O grupo cresceu, mas não dará as costas ao passado. A Serra vai reservar até 30% da sua capacidade para uso de ciganos, que também poderão vender seus produtos no bar da cervejaria, a ser inaugurado no segundo semestre.

 

“Não pensamos em inventar a roda. Queremos apenas ter um produto de boa qualidade, regular e um local onde o nosso público poderá beber um chopp super fresco, apreciando do mezanino a produção dessa bebida. Nesse espaço, teremos como acompanhamento uma boa música e alguns petiscos”, afirma Ribeiro.

 

Pioneira na produção de cerveja artesanal, em Niterói, a Noi inaugurou sua cervejaria em 2011. Segundo sua  Diretora-Geral, Bianca Buzin, desde a abertura da fábrica houve expansão em todos os anos seguintes, sendo a maior delas em 2015/2016. Quando iniciou suas operações, a Noi tinha uma produção de 15 mil litros por mês. Agora, tem capacidade para até 200 mil. A cervejaria nunca produziu para terceiros.

 

Bianca informa que, além de aumentar as vendas para fora do Estado, o grande projeto da cervejaria para este ano é fazer com que o consumidor conheça cada vez mais a história da Noi.

 

“Acredito que os desafios de um pioneiro sempre serão diferentes. No início, lá em 2008, quando abrimos o primeiro restaurante Noi, vendíamos apenas cervejas artesanais, porém não eram nossas ainda. O projeto de abrir a fábrica própria foi uma aventura e tanto, que vivemos entre 2008 e 2011. Esse trabalho incluiu desde a escolha dos parceiros, do mestre cervejeiro, às fórmulas das cervejas e visitas às fábricas pioneiras do Brasil. Porém, o nosso maior desafio foi mostrar e informar ao consumidor o que ele estava consumindo. Porque, naquela época, o consumidor estava acostumado com poucas marcas e estilos de cerveja. E, de repente, se deparou com um mundo de sensações e variedades de estilos. Não foi fácil, já que em 2008 não havia todo este movimento cervejeiro ainda”. 

 

Ela considera “comportamento natural de um mercado”, a chegada de outra cervejaria na região onde a Noi reinou sozinha por todos esses anos, mas, observa que “a primeira sempre será a primeira”. 

 

SA: Que dica a experiente Noi pode dar para quem está abrindo, agora, uma cervejaria no Rio de Janeiro?

BB: Estar atento aos desafios e à transparência de informações do produto que os consumidores necessitam. E, como qualquer negócio, ter um planejamento estratégico já voltado para o seu objetivo. As cervejas especiais no Rio de Janeiro vivem um período de grande expansão e aquecimento. Porém, apenas com o tempo veremos como este mercado em expansão se consolidará. 

 

Em outra parte do Estado, na Costa Verde, a Mistura Clássica vive o segundo momento da cervejaria. Fundada em 2003, em Volta Redonda, município do Rio de Janeiro, a empresa cresceu e se mudou. No ano passado, se instalou em Angra dos Reis. O objetivo, segundo informou um dos sócios, Rodrigo Baruffaldi, era triplicar a produção e operar em um local turístico. De frente para o mar, sua atual capacidade de tanque é de 108 mil litros. Desse total, 40% é para atender ciganos.

 

A Mistura Clássica ocupa quatro galpões na Marina Verolme. Recentemente, a cervejaria investiu em quatro tanques de 4 mil litros, três de 2 mil litros, uma Hop Gun (equipamento para dry hopping) e uma centrífuga que, na avaliação de Baruffaldi, será um “divisor de águas” para a qualidade dos produtos porque “poucas cervejarias no Brasil" trabalham com esse equipamento.

 

Nas novas instalações, a cervejaria mudou um pouco sua estratégia. Além de produzir cervejas de ciganos, convidou alguns para se tornarem sócios. A primeira experiência, no início do ano passado, com a Beertoon, não deu certo e o acordo foi desfeito. Eles “atacaram” outra vez e, no final de 2016, fecharam com a OverHop  e, recentemente, com a Suburbana. Dessa forma, as novas sócias puderam dar adeus à vida cigana.

 

“A Beerton foi a nossa primeira proposta de sociedade. Não tínhamos experiência com esse tipo de negócio. Com a OverHop queríamos acertar tudo que erramos na outra negociação. Tudo foi feito com muita cautela. Queríamos que ambas as partes saíssem ganhando. Os garotos da OverHop estavam despontando e queríamos muito atingir o nicho de mercado dos Hop Heads, com uma identificação com os produtores caseiros da nova geração. Já tem alguns meses que fechamos o negócio e tem dado super certo”, explica Baruffaldi, originalmente, um dos três sócios fundadores da OverHop e responsável pelas suas receitas.

 

A parceria com a Suburbana, aliás, levou para a Mistura Clássica uma medalha de bronze conquistada no último Concurso Brasileiro de Cervejas pela no Cerol Fininho (Session IPA). A própria Mistura garantiu duas medalhas de bronze: uma para a Panhead (American Style Stout) e outra para a Mistura Clássica número 20 (Smoke beer).

 

Na opinião de Baruffaldi, o atual bom momento pelo qual passa a produção das cervejas artesanais no Rio de Janeiro é um sinal de que o “setor acordou”. Isso, segundo ele, também é reflexo do fato de que muitos municípios iniciaram campanhas de incentivo às micro cervejarias. Além disso, observa, o cenário ganhou notoriedade “pela grande quantidade de cervejeiros caseiros que decidiu se aventurar como cervejarias ciganas”, o que “acabou criando uma grande demanda por cervejaria que pudesse produzi-los”. Assim, a “terceirização das fábricas” para os pequenos cervejeiros se torna, na sua avaliação, uma estratégia “perfeita” por permitir uma “imensa troca de conhecimento” .

 

Apesar desse bom momento, Baruffaldi alerta que nem tudo são flores. Ele observa que, com o crescimento de oferta de produtos de ótima qualidade no mercado, “a tendência é que aconteça uma reduzida nos preços, o que pode acarretar o fechamento de alguns projetos ciganos”. Além disso, ele percebe que “tem muita gente se aventurando sem ter um plano de negócios”, o que pode ser “perigoso” para o empreendedor.

 

Este ano, a Mistura Clássica fica com um olho em casa e outro fora. Em junho, a cervejaria participa do Mondial de La Bière do Canadá com a OverHop. O objetivo, conta Baruffaldi, é testar o posicionamento da marca no exterior. Em casa, o desafio é fazer a fábrica trabalhar na sua capacidade máxima:

 

“Nosso grande desafio é colocar todos os novos equipamentos para funcionar bem sem quebrar a regularidade das receitas e sem cair a qualidade, sendo que sobreviver a essa grande crise econômica que o país vive é o principal desafio para todos. De qualquer maneira, sabemos que estamos contribuindo para o crescimento do setor”.

 

 

 

 

 

 

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