• Sônia Apolinário

Ambev é premiada por projeto que resultou nas suas cervejas com mandioca

Os rótulos regionais da Ambev, produzidos com mandioca, renderam para o grupo cervejeiro um prêmio de inovação, na categoria América Latina, concedido por uma publicação norte-americana. Uma das justificativas para a premiação é o fato do modelo de negócio desenvolvido para a criação das cervejas impactar diretamente dez mil pessoas, em sua maioria, produtores rurais locais. A Ambev dividiu o prêmio com a Questtonó Manyone, que desenvolveu esse modelo de negócio que resultou nos rótulos Nossa, de Pernambuco; Magnífica, do Maranhão; e Legítima, do Ceará. A iniciativa já foi replicada em mais dois rótulos: Esmera, de Goiás e Berrió, do Piauí, sendo que neste último, o caju substituiu a mandioca como ingrediente local utilizado na receita.



O prêmio que as empresas conquistaram foi o World Changing Ideas 2021 da norte-americana Fast Company, maior mídia atualmente com foco em inovação. O projeto vencedor foi batizado como “Roots”, (“Raízes”, em inglês). A Questtonó Manyone é uma consultoria de estratégia e design, que utiliza cultura e comportamento do usuário, além de tecnologia, para a construção de marcas ou implementar experiências de consumo. Está presente em nove países e o escritório brasileiro fica em São Paulo.


Basicamente, a ideia é utilizar um produto típico de um local para a criação de uma cerveja regional de baixo custo, a ser comercializada somente na região. O fornecimento regular desse produto para a cervejaria garante o sustento de famílias de agricultores. A cerveja se torna, assim, mais do que um simples produto, um motivo de orgulho local.


“Como poderíamos traduzir esses ingredientes, e todas essas famílias que fazem parte dessa cadeia de valor, para criar um símbolo cultural do qual todas as pessoas possam se orgulhar?” foi a pergunta que deu origem ao projeto, de acordo com Leo Massarelli, fundador da Questtonó, em entrevista à Fast Company.


A mandioca foi o primeiro produto que atraiu as atenções para o desenvolvimento do projeto. Não por acaso. O Brasil participa com cerca de 10% da produção mundial dessa raiz, sendo o segundo maior produtor do mundo. No país, é cultivada em praticamente todos os estados. Além disso, representa um dos principais alimentos energéticos para mais de 700 milhões de pessoas, principalmente nos países em desenvolvimento.


O primeiro rótulo do projeto foi criado em 2018. A Nossa, em Pernambuco, foi feita com mandioca cultivada por produtores do entorno da cidade de Araripina. Voltada para o público de baixa renda, custava, à época, 40% mais barata que as marcas concorrentes. O baixo preço foi justificado pela cervejaria pelo fato de toda a cadeia de produção do rótulo estar em Pernambuco, estado onde a comercialização está limitada.


Três meses depois, a Ambev lançou a Magnífica, feita a partir da mandioca plantada e colhida na região de Tabuleiro de São Bernardo, no interior do Maranhão.


Em 2019, foi a vez da Legítima chegar ao mercado do Ceará, feita a partir da mandioca produzida por agricultores da Chapada do Araripe. Ano passado, a Esmera foi lançada em Goiás, feita com mandioca cultivada em oito municípios do nordeste do estado.


Dois meses antes, porém, a Ambev apresentou sua primeira cerveja, dentro do projeto, com um novo ingrediente, no caso, caju. Trata-se da Berrió, do Piauí. O gerente de marcas regionais da Ambev, Leandro Thot, informou, em entrevistas durante o lançamento do rótulo, que a Berrió demandara mais de dois anos de pesquisa.


Na entrevista para a Fast Company, Leo Massarelli explicou que as cervejas são feitas com a fécula da mandioca misturada ao malte de cevada. De acordo com a reportagem, em quatro meses, a Nossa já tinha conquistado 22,7% de participação no mercado de cervejas de baixo preço em sua região; enquanto a Magnífica teve uma margem 68% maior que a média da categoria.


De acordo com a revista, ano passado, a AmBev também usou um subproduto do processo, o amido de mandioca, para fazer novos produtos para doar às comunidades “em um momento de necessidade”, provocado pela pandemia do Coronavírus.


O amido da Magnífica foi utilizado para a fabricação de farinha e sabão de mandioca, do qual 100 mil unidades foram doadas, em parceria com um fabricante de sabonetes local, o Sabão Garoto. A fécula da Legítima e da Nossa foi utilizada na fabricação de 20 toneladas de tapioca, doados para 20 mil famílias das regiões onde a cerveja é comercializada.


Até o momento, de acordo com a Questtonó, um total de 10 mil moradores estão envolvidos no projeto, entre agricultores que vendem suas safras para a AmBev e suas famílias, além de pessoas que trabalham no transporte dos ingredientes.


“Não há absolutamente nenhuma razão para que este modelo de negócio replicável não possa ser reproduzido em mercados totalmente diferentes”, afirmou para a Fast Company Hannah June Lueptow, chefe de pesquisa, design e estratégia da Questtonó.


Confira a íntegra da entrevista, aqui

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