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Alma da rua



Tive o privilégio de conhecer e fazer dupla com Rogério Reis na minha primeira pauta de Cidade para a revista Domingo, do antológico Jornal do Brasil, na década de 1980. Por mais de uma semana, subi e desci com ele as ladeiras do bucólico bairro de Santa Teresa, encravado na zona central carioca. Descobri ali um companheiro inteligente, perspicaz e com um olho de lince para qualquer fragmento veloz da cena urbana que encontrasse pelo caminho. Fomos ainda parceiros em inúmeras matérias até nossos caminhos profissionais se apartarem. Nada que me impedisse de acompanhar à distância o sucesso de Rogério e suas imagens belas, poéticas ou por vezes cruas, mas sempre surpreendentes.


O recém-lançado "A Olho Nu", livro em preto e branco, editado pelos irmãos Kiko e João Farkas, desvenda em 160 páginas as quatro décadas de uma trajetória ímpar de captador de instantes únicos a que Rogério Reis se dedicou com tanto esmero. O Rio de Janeiro, onde nasceu e vive, foi a moldura escolhida para suas imagens, que ele próprio define como fotografia de rua, gênero muito popular no século 20, mas relegado a um segundo plano com o advento das fotos digitais.



A obra traz preciosidades históricas como as fotos de foliões tiradas para o Projeto Na Lona, a das freiras na Praia do Leblon e ainda o retrato do poeta Carlos Drummond de Andrade por ocasião do aniversário de 80 anos, que inspirou a famosa escultura na orla de Copacabana, uma das mais visitadas da cidade. Mas não deixa de fora o jornalismo factual com a imagem dos surfistas ferroviários do subúrbio de Japeri, que obteve vários prêmios internacionais, ou a dos policiais no interior de um veículo blindado, apelidado pelos cariocas de Caveirão, retrato da insidiosa violência cotidiana.


"A Olho Nu" é um livro para se folhear sem qualquer pressa, um pouco a cada dia, para mergulhar na alma carioca. E também para ser oferecido como um presente singular. Um mimo que, a propósito, ainda é solidário nesses penosos tempos de acentuadas desigualdades sociais. Rogério Reis, que sempre foi um sujeito do bem, destina toda a venda dos exemplares a um projeto social.


Essa resenha foi publicada originalmente em AimeeLouchard.com


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