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Luis Miranda dá vida à Madame Sheila para mostrar, no palco, como os ricos estão se comportando dura

Uma dondoca brasileira se vê confinada em sua mansão, em Paris, por conta da quarentena de combate ao coronavírus. Com ela, apenas seus empregados – pessoas cujas existências ela nunca havia percebido. Esse é o ponto de partida de “Madame Sheila”, um espetáculo concebido como uma peça de teatro digital. No palco, Luis Miranda; na direção, Monique Gardenberg. A estreia será na quinta-feira, dia 1 de outubro, às 21h, online, pelo site do Teatro Unimed.

A apresentação gratuita terá oito minutos de duração. A encenação foi gravada e será exibida uma vez por semana (sempre às quintas-feiras, às 21h), durante oito semanas. Todos os atos têm oito minutos de duração. O encerramento será no dia 19 de novembro.

Madame Sheila é uma personagem criada pelo próprio Luis Miranda que o ator já levou aos palcos em peças como “Terça Insana” e “5X Comédia”. Agora, ela ganha uma peça toda dela, em um texto “divertidamente desconcertante”, segundo a diretora.

Ela e Luis participaram de uma entrevista coletiva, realizada via plataforma Zoom, na última terça-feira, dia 29 de setembro.

O ator explicou que, inicialmente, havia criado uma peça baseada na personagem, prevista para estrear em setembro. Com o fechamento dos teatros, por conta da quarentena, o projeto foi adaptado para um formato digital, a convite do Teatro Unimed. Ele define o texto como de “humor ácido”.

“É o olhar da classe burguesa para a situação atual em que vivemos para jogar luz nessa mesma classe. A pandemia mostrou que os mais atingidos são os que não têm plano de saúde e não podem ficar em casa porque precisam servir os burgueses. Essas pessoas formam uma classe invisível, que a sociedade faz de conta que não vê”, explica Luis (foto).

Não, nomes não serão citados, mas todos identificarão as situações noticiadas pela mídia, que serão levadas ao palco, a partir dos comentários da madame. Ela, por sinal, adora uma fofoca, faz questão de dizer que foi amiga íntima de Lady Di e se gaba de ter sido namorada de George Clooney.

Toda a encenação foi gravada no Teatro Unimed, em São Paulo. Monique conta que usou quatro câmeras que mudam de posicionamento, na segunda tomada. Por que oito atos de oito minutos?

“Primeiro, porque demora muito para editar cada pedacinho. Depois, eu queria a atenção do público. Em oito minutos, é mais fácil a pessoa estar atenta, gerar interesse. Com poucos equipamentos, duplico os pontos de vista. Ao editar os oito atos, penetro na intimidade de Madame Sheila, além de poder tirar proveito do cenário (o closet da madame, criado por Daniela Thomas ), do figurino, da luz. Tudo isso enriquece a visão do público”, explica Monique.

A diretora observa que fez questão de não “invadir o palco”. Ou seja, o ponto de vista é de quem está na plateia. Monique se permitiu, porém, um spoiler: no final do último ato, a luz se acende e o espectador verá a equipe sentada na plateia, todos usando máscara, aplaudindo Luis, no palco.

Peças online são o futuro do teatro? Nem ela nem o ator acreditam nisso.

“Esse formato não é o que a gente deseja para o teatro. Queremos as pessoas no teatro. Nesse momento, o formato é um ato de resistência, de marcar território. Nesse momento, o desejo é dizer que estamos vivos. Depois, a gente se reencontra, no nosso ambiente”, afirma o ator.

“O mais bonito do teatro é o encontro do público e como isso influencia na dinâmica do palco. Por exemplo, nós ficamos em dúvida se deveríamos colocar gargalhadas, como nos seriados humorísticos. Achamos melhor não colocar. O que estamos fazendo é uma forma nova. Vamos ver como as pessoas vão reagir. As lives que surgiram nesse momento de pandemia foram importantes e devem ficar por um tempo. Mas, no teatro, no futuro, vamos ter algo específico. Talvez, invadir o palco”, afirma Monique.

Ganhador do prêmio Shell pela sua atuação na peça “O Mistério de Irma Vap”, Luis estava em plena temporada, no auge do sucesso do espetáculo, quando tudo parou em função da quarentena. Ele conta que foi para a sua casa, em Salvador (BA) e se recolheu. Admite que ficou assustado e passou a observar mais. Cuidou de plantas, do cachorro, da casa, dele mesmo. Muito de suas “observações de comportamentos” foram parar no palco, levados por Madame Sheila.

“Vi o pobre que pode sair para o trabalho, mas não pode ter direito ao lazer. Vi um governo confuso, uma sociedade dividida e 140 mil mortes que todos lavam as mãos. Daí nasceu a acidez da Sheila. Entendo que eu também sou um privilegiado. Eu tinha uma casa, eu consegui pagar minhas contas, não passei fome. Mas teve gente que morreu envenenada por ter comido uma comida que lhe foi doada por pessoas maldosas”, afirma Luis que, em paralelo à “Madame Sheila”, ensaia um retorno de “Irma Vap”, adaptada aos tempos de quarentena, ou seja, a ser realizada em um Drive In (Espaço das Américas, em São Paulo), nos próximos dias 9 e 10 de outubro.

Por falar em pagar contas, muitos trabalhadores que integram a cadeia produtiva da cultura não tiveram a mesma possibilidade. “Madame Sheila” se inseriu na campanha que a Associação dos Produtores de Teatro (APTR) organiza para arrecadação de recursos em apoio à alimentação dos que trabalham no segmento. Assim, durante a exibição de cada ato, será possível fazer doações.

Será que as pessoas se tornarão mais solidárias, terão mais empatia uns com os outros, como “efeito” da pandemia ?

“Não sou pessimista. Acredito que há a possibilidade de transformação do indivíduo. Porém, o que vejo, atualmente, é a pessoa agir a partir do que é melhor para si, nunca por uma preocupação com o outro. Os protegidos querem mais é que o serviçal volte a trabalhar. Essas pessoas não têm jeito, estão contaminadas com o dinheiro que ganharam. Até o momento, a sociedade não caminhou. Só está triste porque as lojas estão fechadas e o jatinho não pode circular livremente. Até o momento, a pandemia não transformou as pessoas. A peça tem um recado realista, que oferece como possibilidade de reflexão”, afirma Luis (na foto, como Madame Sheila).

Madame Sheila - Ficha Técnica

Ator e Autor: Luis Miranda

Direção: Monique Gardenberg

Cenografia: Daniela Thomas

Figurino: Jorge Farjalla

Visagismo: Eliseu Cabral

Iluminação: Beto Bruel

Fotografia: Glauco Firpo

Som: Jorge Rezende

Edição: Ana Paula Carvalho

Direção de Produção: Clarice Philigret

Identidade Visual: Tommy Kenny

Produção: Adriana Vieira e Giovanna Parra

Realização: Dueto Produções

Madame Sheila - Serviço

Espetáculo: Madame Sheila

Local: Teatro Unimed em Casa (online)

Estreia: quinta-feira, 1º de outubro de 2020, às 21h

Horários: às quintas-feiras, sempre às 21h. A cada semana, um ato de até oito minutos de duração. Os oito atos da peça poderão ser vistos no site do Teatro Unimed até o dia 26 de novembro de 2020.

Classificação: Livre

Ingressos: gratuito

Fotos: Fernando Sant'Ana - divulgação

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