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Laboratório de Audiovisual da UFF restaura filmes de Guilherme de Almeida Prado, cria documentários e organiza congresso inédito na América Latina

  • Foto do escritor: Sônia Apolinário
    Sônia Apolinário
  • 27 de mar.
  • 5 min de leitura

"Varal", de Guilherme Almeida Prado, foi um dos filmes restaurados pelo Lupa
"Varal", de Guilherme Almeida Prado, foi um dos filmes restaurados pelo Lupa


Filmes do cineasta Guilherme de Almeida Prado; um registro da visita de Fidel Castro ao Rio de Janeiro; imagens do governador Amaral Peixoto "em ação" e um filme sobre o célebre comício na Central do Brasil, no Rio, em 1964.


Essas são algumas das preciosidades que fazem parte do acervo de dois mil rolos de filmes do Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (Lupa-UFF). Todo o material está disponível para consulta, de forma gratuita, no site da instituição.



Os filmes ficaram disponíveis porque foram devidamente restaurados e digitalizados pela equipe do laboratório - formada por três técnicos e seis alunos bolsistas, sob a coordenação do professor de História do Cinema Brasileiro da UFF, Rafael de Luna Freire.


Ele informou que o acervo é formado, basicamente, de curtas-metragens, propagandas, animações e registros amadores dos anos 20 e 30. São produções feitas em película de 16 mm ou Super 8:


- Não trabalhamos com longas profissionais porque esse material é o foco das cinematecas. Investimos no que costumava ficar de lado, que são os registros amadores. Por intermédio deles, conseguimos recuperar um pouco da imagem coletiva estado do Rio e mesmo de Niterói. Imagens do Rio existem muitas, já de Niterói e do interior do estado são poucas - explicou Freire.


Criado em 2017 e vinculado ao Departamento de Cinema e Vídeo da UFF, o Lupa funciona dentro das instalações do Instituto de Arte e Comunicação Social. Seu principal objetivo é atuar como um arquivo dedicado à preservação da produção e a cultura audiovisual amadora do estado do Rio de Janeiro.


É ao Lupa que famílias recorrem quando encontram filmes amadores esquecidos em algum canto da casa de um parente. Assim, o acervo vai sendo adquirido.


- Quem tiver filme antigo em casa, traz para a gente avaliar, antes de descartar. Às vezes, é um material muito valioso, em termos de memória, que pode não estar em boas condições. Mas a gente restaura. É importante não jogar fora - afirmou Freire.


Guilherme de Almeida Prado


A mais recente aquisição do Lupa é um conjunto de quatro filmes do cineasta paulista Guilherme de Almeida Prado. O projeto apresenta as primeiras experiências com cinema, realizadas ainda nos anos 1970, pelo cineasta paulista, atualmente com 71 anos, que veio a dirigir mais de uma dezena de longas-metragens. Segundo Freire, essa iniciativa só foi possível por ter o próprio Guilherme preservado os rolos de filmes Super 8 em sua coleção pessoal. O material chegou ao laboratório pelas mãos do pesquisador Fábio Vellozo.


Assim, ficaram disponíveis no site do laboratório quatro filmes, que ainda ganharam uma série de textos inéditos que contextualizam a produção do cineasta. São eles: "Monótonus" (1972-1973), "Sistema de lazer" (1974), "Varal" (1974) e "São Paulo pode parar?" (1974).


Em breve, mais duas obras estarão disponíveis: "Mentes em fuga para um paraíso" (1973) e "Exercício de espera" (1976) - que também passaram por um processo de restauração digital, mas só poderão ser acessadas no site após exibição em festivais. Os últimos foram resgatados de danos físicos, encolhimento e descoramento.


- A recuperação dos negativos permite que o público assista a estas obras raras, muitas delas cópias únicas, com uma qualidade fiel à sua concepção original, revelando as primeiras experimentações estéticas do diretor - afirmou Freire.


Novas obras de velhos materiais



Luís Carlos Prestes e sua filha Anita. Foto: frame do documentário "Um breve respiro democrático"
Luís Carlos Prestes e sua filha Anita. Foto: frame do documentário "Um breve respiro democrático"

Além do restauro, faz parte do trabalho do laboratório "garimpar" o material de forma a criar uma "nova obra". Por exemplo, a equipe concluiu, no final de 2024, o documentário "Um breve respiro democrático".


O filme, com cinco minutos de duração, apresenta imagens inéditas, feitas pela câmera 16mm do fotógrafo Esdras Baptista da bancada comunista da Assembleia Nacional Constituinte, em 1946, incluindo registros raros do senador Luís Carlos Prestes e a única filmagem conhecida do então deputado do PCB, Carlos Marighella. O documentário também se encontra percorrendo o circuito de festivais.


Também a partir do material do Esdras Batista, a equipe do Lupa criou "Um filme para sentir a utopia". A obra, de 20 minutos, mostra a mobilização dos intelectuais de esquerda do país, dias antes do golpe de 64. O filme ficou pronto recentemente e começou a ser inscrito em festivais.


- Os historiadores acham que vídeos não têm informações, que informações só podem ser extraídas em documentos - observou o professor.


Túnel sob a Baía de Guanabara


Por falar em Esdras Batista - fotógrafo que trabalhou, por exemplo, no jornal oficial do Partido Comunista do Brasil (PCB), o "Classe Operária" - é do seu acervo a entrevista do então primeiro-ministro de Cuba, Fidel Castro. Foi feita em 1959, quando da sua visita ao Rio de Janeiro. Da mesma forma o comício da Central do Brasil, que aconteceu em 13 de março de 1964, no Rio, onde o presidente João Goulart anunciou as reformas de base, dias antes do golpe militar.


Ao todo, a sua coleção reúne, além de coberturas jornalísticas, shows, manifestações políticas e imagens de políticos históricos do Brasil, feitas entre as décadas de 1940 e 1980, pelo cinegrafista alagoano. Alagoano, Esdras Baptista mudou-se, ainda criança, para o Rio de Janeiro, onde viveu até sua morte, em 1988.


Sabe a velha ideia de um túnel submarino ligando Rio a Niterói? Pois faz parte do material recuperado do fotógrafo um cinejornal da Herbert Richers, de 1956, que registrou a cerimônia de início dos estudos para a construção do tal túnel submarino.



O governador Miguel Couto lança ao mar ata que determinou o início dos estudos para a construção de túnel sob a Baía de Guanabara. Foto: frame do telejornal "Iniciado os estudos do túnel Rio-Niterói"
O governador Miguel Couto lança ao mar ata que determinou o início dos estudos para a construção de túnel sob a Baía de Guanabara. Foto: frame do telejornal "Iniciado os estudos do túnel Rio-Niterói"

Com 13 minutos de duração, mostra, entre outras coisas, o momento em que o então governador do Rio de Janeiro, Miguel Couto – sucessor de Amaral Peixoto, no cargo – lança, no meio da Baía de Guanabara, a ata que acabara de assinar, determinando o início dos estudos para a realização das obras. O documento foi assinado, também, pelo então prefeito do Distrito Federal, Negrão de Lima, presente à cerimônia.


Congresso


Muito do que é feito pelo Lupa será apresentado no Congresso sobre Cinema Silencioso, que será realizado no Theatro Municipal de Niterói, de 10 a 13 de junho. O evento, tradicional no exterior, está sendo organizado pelo laboratório e, segundo Freire, será a primeira vez que irá acontecer na América Latina. A abertura do congresso será no Cine Arte UFF, quando serão exibido cinco filmes do laboratório.


Apesar do tipo de trabalho (caro) realizado pelo Lupa, a instituição não tem orçamento próprio. A cada ano, bolsas precisam ser renovadas juntos às instituições de fomento. Freire contou que, às vezes, o Lupa faz alguns "jobs" para angariar recursos.


Fundação Casa de Rui Barbosa


O mais recente deles, que ocupa a equipe, no momento, é o restauro de 30 rolos de películas cinematográficas em formatos 8mm, Super 8 e 16mm, do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa (Rio). Os filmes foram produzidos por importantes nomes da literatura e do jornalismo brasileiros.


A recuperação do material vai trazer à luz imagens inéditas dos acervos pessoais de Rubem Braga, Tite de Lemos, Leon Eliachar, Ary Quintela, Bráulio Pedroso, Plínio Doyle e Raimundo Santa Helena, ampliando o acesso público a registros que ajudam a contar a história cultural do Brasil a partir de olhares íntimos e pouco conhecidos. O projeto foi iniciado em dezembro de 2025, com prazo de encerramento em fins de 2026.



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