• Sônia Apolinário

As cervejarias e os bastidores da Oktoberfest revelados em série da Netflix

Existem cerca de cem cervejarias em Munique, na Alemanha. Porém, somente seis têm autorização para participar da Oktoberfest. Todas têm séculos de existência. Essas marcas são as que conseguem cumprir as complexas exigências criadas, também há séculos, pelos organizadores do festival. Um pouco de como tudo começou pode ser visto na série “Oktoberfest: cerveja e sangue”, disponível na Netflix.

São as seis marcas que abastecem as atuais 14 diferentes tendas onde se consome cerveja, na festa. Dessas seis, quatro marcas são controladas por grandes grupos cervejeiros e duas chegam com regularidade ao Brasil: Hofbräu e Paulaner. As outras quatro cervejarias de Munique autorizadas a participar da Oktoberfest são: Augustiner, Löwenbräu, Spaten e Hacker-Pschorr.

A Augustiner (foto) é uma das cervejarias mais antigas do mundo. Foi criada em 1328 em um mosteiro da ordem agostiniana. A marca só é encontrada em Munique e tem por tradição não fazer propaganda.

A Löwenbräu foi fundada em 1383. Já foi uma das maiores cervejarias de Munique, sendo responsável por produzir até 25% da cerveja consumida na cidade. Atualmente, é controlada pela Anheuser-Busch InBev, o conglomerado do qual a Ambev faz parte.

A Schottenhamel (Spaten) foi criada em 1397. Foi uma das primeiras cervejas alemãs a serem exportadas, principalmente, para os Estados Unidos. É na tenda desta marca que a Oktoberfest oficialmente começa quando, no primeiro dia do evento, às 12h, o prefeito de Munique abre o primeiro barril. Isso aconteceu pela primeira vez em 1950. Reza a lenda que não teve um motivo especial para o prefeito da época começar a festa por lá. Ele teria entrado na tenda em que estava mais perto, no horário em que deveria abrir o evento. A atual Schottenhamel é formada pela junção das marcas Spaten-Franziskaner-Bräu e também é controlada pela Anheuser-Busch InBev.

A Hacker-Pschorr foi fundada em 1417. Foi criada por Joseph Pschorr depois que se casou com a herdeira da cervejaria Hacker. Essa união fez com que a marca se tornasse uma das maiores de Munique. Atualmente, é controlada pelo Grupo Paulaner, do qual a Heineken faz parte.

A Hofbräu (foto à esquerda) é a cerveja da coroa bávara. Foi fundada em 1589 pelo Duque William V da Baviera que não queria mais comprar cerveja da baixa Saxônia, que considerava melhor do que as de Munique. Inicialmente, toda a produção era para consumo próprio do Duque. Somente em 1828, a HB passou a ser vendida para o público. A marca detém a segunda maior tenda da Oktoberfest (9.992 lugares sentados). A cervejaria pertence à prefeitura de Munique e tem filiais em várias cidades pelo mundo, inclusive no Brasil. Em 2015, foi aberta em Belo Horizonte (BH) a primeira filial da HB na América Latina.

A Paulaner (foto à direita) foi criada por uma ordem religiosa ligada a São Francisco de Paula, que produzia cerveja pelo menos desde 1634. O logotipo atual da marca mostra a imagem do santo. A cervejaria já passou por vários processos de fusão e aquisição. Teve vários donos que lhe renderam diferentes sobrenomes. Desde 1999 é a atual Paulaner GmbH & Co. KG. O Grupo Paulaner tem cervejarias em Rosenheim, Ratisbona e Miesbach. A Brau Holding International (BHI) mantem 50,1% do capital social da marca. O restante, 49,9%, é da holandesa Heineken. A Paulaner abastece a maior tenda da Oktoberfest, a Winzerer Fähndl, com 10.900 lugares para sentar.

As outras cervejarias de Munique aceitam numa boa ficarem de fora da Oktoberfest?

“Não é bem ‘aceitar numa boa’. Tem uma lei complexa com inúmeros requisitos para participar como cervejaria. Por exemplo, a fábrica não só deve estar localizada no município de Munique como a cerveja deve ser produzida com água de Munique. Por isso, cervejarias clássicas como Ayinger e Schneider não podem participar porque suas fábricas estão em municípios vizinhos. Recentemente, a Giesinger inaugurou uma fábrica enorme em Munique e dizem rumores que nos próximos anos irão aplicar para participar”, explica Victor Kling, jornalista e cervejeiro brasileiro, responsável pelo site Lado Bier, que mora em Munique. "Quase todas as cervejarias produzem a Festbier e oferecem nos seus bares, na época da Oktoberfest, mas não rola muito evento paralelo ao festival".

Sangue e Cerveja

A série "Oktoberfest" foi lançada pela Netflix este ano, quando o evento não pode acontecer por conta da pandemia do coronavírus. A trama mostra como Munique reage quando algum cervejeiro de fora da cidade quer participar da tradicional festa. Em seis episódios, foi produzida pela ARD, uma associação de emissoras de radiodifusão pública da Alemanha. Nas peças de divulgação da série consta a informação que se trata de uma ficção baseada em fatos reais.

O subtítulo, “Cerveja e Sangue”, dá o tom de como era a “livre concorrência” no meio cervejeiro, na Munique de 1900. A história gira em torno de um produtor de Nuremberg (Curt Prank, interpretado pelo ator alemão Misel Maticevic) que não só quer participar como mudar a Oktoberfest.

A série mostra como o evento era controlado pelas principais cervejarias da cidade. A cenografia reproduz com detalhes as pequenas tendas, onde a festa acontecia. A trama informa que, para participar do festival, era preciso adquirir um lote do terreno do parque, em um leilão. Só existiam seis lotes. O forasteiro chega na cidade com o plano de construir uma tenda gigantesca, o ‘Palácio da Cerveja”, com capacidade para seis mil pessoas.

O quanto de fatos reais mostra a série? O site alemão Oktoberfest Guide se propôs a responder a essa pergunta em um artigo.

“O enredo principal é baseado em alguns eventos históricos. Mesmo que nunca tenha existido um anfitrião da Oktoberfest com o nome de Curt Prank, a literatura da Oktoberfest nos fala sobre Georg Lang”, informa o texto que, sobre ele, diz:

“Lang foi um empresário que ganhou alguma fama em Nuremberg (Francônia). Ele sabia que era impossível para um não local de Munique (Baviera) montar uma barraca na Oktoberfest (...) Ele pagou cinco produtores locais para servirem como seus agentes secretos e licitar por cinco lotes adjacentes. Além disso, ele milagrosamente transformou as autoridades municipais de Munique em seu fã-clube. Apenas um único magistrado votou contra a licença de Lang para a Oktoberfest de 1898.”

Na vida real e na ficção, Lang não só montou sua enorme tenda, como mudou a festa. Ele contratou uma orquestra formada por 30 homens que se vestiam com trajes alpinos para tocar na tenda. O público que estava lá dentro não pagava nada a mais por isso. Para Lang, quanto mais animadas as pessoas estivessem, mais consumiriam, no Palácio da Cerveja.

Dentre os personagens da série também estão um Schottenhamel (interpretado por Christian Lex) e a família Hoflinger cuja cervejaria era a fornecedora oficial da corte bávara, criada a partir de um casamento em que a mulher era a herdeira da marca.

No Brasil

Desde 2006, a importadora Bier & Wein traz Hofbräu para o Brasil. Não é a única marca alemã com a qual a empresa trabalha. Porém, o fato de ser uma das participantes da Oktoberfest faz com que a festa se torne um ponto forte do marketing da cerveja, por aqui.

“Todos os anos, produzimos material para decorar os pontos de venda. Este ano, porém, não fizemos isso e trouxemos menos quantidade de cerveja. Fazemos um planejamento com muita antecedência e, este ano, ninguém sabia como estaria o mundo, no dia seguinte. Fomos conservadores nas compras”, explica Roberta Bocco, gerente de marketing da importadora.

Dessa vez, veio para o Brasil menos chope e mais garrafas de HB. Segundo Roberta, tudo foi vendido.

A história da Oktoberfest começa quando os cidadãos de Munique foram convidados a celebrar, no dia 17 de outubro de 1810, o casamento do princípe Ludwig, da Baviera, com a princesa Teresa, da Saxônia. O noivo era neto do Duque da Baviera, o criador da Hofbräu.

“Decidimos trabalhar com a HB porque essa marca é ícone, está na origem da Oktoberfest. Para o casamento do príncipe Ludwing, foi pedida para a HB fazer uma cerveja especial, mais lupulada. Além disso, a HB tem a maior choperia do mundo, que fica em Munique e atrai 1 milhão de visitantes, por ano. Lá são vendidos 5 mil litros de chope por dia”, comenta Roberta.

A Oktoberfestbier da HB é uma Märzen com 6,3% de teor alcoólico. O catálogo da Bier & Wein conta com mais três rótulos da HB: Original (Helles), Weissbier (trigo) e Dunkel (a primeira cerveja fabricada pela marca).

Segundo Roberta, o relacionamento com essa cervejaria secular é “muito bom”:

“Eles gostam do Brasil porque é um mercado bom para eles. Na Europa, já é uma marca conhecida enquanto que, aqui, está havendo um descobrimento. Assim, o mercado brasileiro, a cada ano, surpreende os alemães”.

Já a Paulaner é importada pela Casa Flora há 11 anos. Durante um bom tempo, a empresa

também trouxe para o Brasil a Hacker-Pschorr. Em 2018, porém, essa compra foi interrompida.

“A Hacker-Pschorr não era pasteurizada e a cerveja sofria muito, na viagem. Por uma questão de estratégia comercial, ficou decidido focar o trabalho na Paulaner”, explica André Guaxupé, gerente da Paulaner no Brasil e gerente de produtos da Casa Flora.

Segundo ele, o início da importação da marca foi uma “oportunidade de negócio” aproveitada pela Casa Flora. A Oktoberfest também é gancho de marketing para a exploração da Paulaner no Brasil. É atribuída à marca a produção, na década de 1970, da primeira Oktoberfestbier com as características da cerveja servida atualmente na festa: de cor dourada e leve, com maior drinkability.

No Brasil, a Casa Flora promove desde 2015, uma Oktoberfest regada a Paulaner, em São Paulo. Este ano, porém, a festa também foi cancelada. Na verdade, nem a tradicional Oktoberfestbier da marca chegou até o Brasil.

“Na Alemanha, a fábrica ficou um tempo parada e a produção toda atrasou. Essa é uma cerveja sazonal. Normalmente, começa a ser produzida em junho e nós recebemos em setembro, mas, este ano, só chegaria no Brasil em novembro e não faria mais sentido. Nós só podemos fazer festa com o nome de Oktoberfest se tiver a Oktoberfestbier. E no evento também é obrigatório servir a bebida em caneca de um litro. É assim que fazem em Munique e isso é cultural, eles não abrem mão”, comenta André.

Assim, por aqui, chegou apenas um kit composto por uma lata de 1 litro de Oktoberfestbier (Mäarzen, 6% ABV) e a caneca. O catálogo da Casa Flora tem outros cinco rótulos da Paulaner: Weissbier, inclusive na versão sem álcool, Helles, Dunkel e a Salvator, que é uma Doppelbock. Para compensar a falta da festa, a marca criou uma plataforma no seu site para levar a Oktoberfest para a casa das pessoas. Isso porque foi detectada uma retomada do consumo, em julho, acarretada por novos hábitos de consumo.

Segundo André, o fechamento de bares e restaurantes, por conta da pandemia do coronavírus, acarretou uma queda de 30% no faturamento da marca, no Brasil. Mesmo assim, os números do primeiro semestre registraram um crescimento de 12%, em relação ao mesmo período, no ano passado.

No ranking mundial, o Brasil ocupa o 15 lugar no consumo de Paulaner, sendo o primeiro lugar na América Latina. O fato de uma fatia da cervejaria pertencer à Heineken, segundo André, não afeta seu trabalho por aqui.

“A Heineken atua mais na distribuição, na Europa. Nosso relacionamento é direto com a Paulaner, em Munique. Eles estão satisfeitos com o mercado brasileiro, mas sempre querem mais”, afirma André.

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