31 de março: exposição, debate e lançamento de livro não deixarão o aniversário do golpe de 64 passar em branco
- Sônia Apolinário
- há 6 minutos
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Há 62 anos, em um dia 31 de março, iniciou-se no Brasil um golpe militar, consolidado na madrugada de 1º de abril, que derrubou o presidente João Goulart. Foi o começo de um período de 21 anos em que o país viveu sob regime ditatorial, com militares no comando da República.
Nesta terça-feira (31), três eventos não deixarão a data passar em branco: a abertura de uma exposição, em Niterói; um debate sobre uma obra referência, mas pouco lembrada, de um cientista político brasileiro; e o lançamento de um livro sobre sobre discursos antidemocráticos do passado e do presente, seguido de um bate-papo - esses dois últimos, no Rio.
Confira
Subterrâneos a céu aberto
A redemocratização do Brasil completa 41 anos. Nesse período, o mais grave ataque às instituições democráticas aconteceu há apenas três anos. É sobre esse episódio que trata a exposição “Subterrâneos a céu aberto” que será aberta ao público às 18h, no Centro de Artes Universidade Federal Fluminense (UFF), em Icaraí.
A mostra propõe uma reflexão sobre o episódio do dia 8 de janeiro de 2023, em que os prédios dos Três Poderes em Brasília foram invadidos e a ordem democrática, ameaçada. O material expositivo foi criado a partir de um acervo inédito de imagens produzidas nas mídias digitais pelos próprios participantes dos atos.
Enquanto os prédios que representam os pilares da democracia do país eram vandalizados, os acontecimentos foram transmitidos em tempo real na internet. Com poucos registros profissionais, o país acompanhou a destruição dos prédios dos Três Poderes por meio de vídeos e fotografias compartilhados pelos próprios envolvidos.
Posteriormente, muitos desses conteúdos foram apagados, numa tentativa de evitar responsabilizações e reescrever os fatos. Na contramão desse processo, a exposição resulta de uma pesquisa dedicada ao arquivamento de imagens e vídeos que circularam nas mídias digitais entre novembro de 2022 e fevereiro de 2023.
- Essa mostra traz à tona uma pesquisa atual sobre o apagamento digital e a fragilidade da memória em tempos de plataformas digitais. Ao articular dados, arte e tecnologia, nossa universidade se consolida como um espaço ativo de reflexão, onde a justiça de transição e a cidadania são debatidas para garantir que o passado não seja silenciado, mas sim compreendido para protegermos o futuro - afirmou o reitor da UFF, Antonio Claudio da Nóbrega,
Ele observou que ideias autoritárias, discursos antidemocráticos e práticas de violência política, "que por décadas circularam em camadas subterrâneas da sociedade brasileira", vieram à tona sem disfarces, com o episódio do 8 de janeiro.
O curador da mostra é o professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio e Pesquisador Associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais da UFF (INCT/DSI), Marcelo Alves.
Segundo ele, “Subterrâneos a céu aberto" traduz para uma linguagem de expressão artística um trabalho de pesquisa de preservação de vídeos e imagens das plataformas digitais "que foram utilizados para mobilizar os atos em favor de uma tentativa de intervenção militar".
A exposição é estruturada em quatro ambientes distintos, que se articulam com três obras de artistas convidados, integradas ao espaço de forma a ampliar as possibilidades de leitura e vivência da mostra. Os quatro ambientes — labirinto, mosaico, acampamentos e caverna — compõem um conjunto aberto, no qual o visitante é convidado a circular livremente, construindo seu próprio trajeto e estabelecendo relações entre os ambientes, as obras e os temas propostos.
As obras dos artistas convidados funcionam como um segundo eixo narrativo – zonas de respiro poético que tensionam e expandem os sentidos propostos pela pesquisa exposta. Todas elas trazem em si elementos da bandeira nacional – símbolo apropriado pela extrema direita e muito presente entre os golpistas nas ações do dia 8 de janeiro de 2023.
- Todo esse trabalho de documentação tem um foco na pesquisa acadêmica, com a composição de redes que possibilitem a outros pesquisadores se debruçarem sobre esse material posteriormente; além disso, a exposição constrói uma experiência estética em torno da exploração da percepção de mundo das pessoas envolvidas nos atos de destruição, de cunho antidemocrático - afirmou Marcelo Alves.
Serviço
Subterrâneos a céu aberto
Visitação: Segunda a sexta, das 10h às 21h; sábados e domingos, das 13h às 21h. Até 10 de maio.
Local: Galeria de Arte UFF Leuna Guimarães dos Santos no Centro de Artes UFF - Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói
Entrada franca
Manobras de retorno

Discursos antidemocráticos do passado e do presente são o foco do livro "Manobras de retorno" que o professor de Literatura Brasileira Dau Bastos lança às 19h, na Livraria Blooks, em Botafogo.
No livro, Dau constrói cinco narrativas atravessadas pela densidade histórica e por doses de adrenalina, compondo um arco temporal que percorre cerca de meio século da vida política e cultural brasileira. O autor apresenta personagens colocados diante de riscos pessoais profundos enquanto tentam sobreviver e resistir às transformações decisivas do país nas últimas décadas.
Ao propor um exercício de memória, o autor problematiza "a naturalização da submissão da vontade humana pela força e reafirma a literatura como espaço de indagação".
Para aprofundar as questões abordadas pelo livro será realizado um bate-papo que vai reunir os membros da Academia Brasileira de Letras Edgard Telles Ribeiro e Godofredo de Oliveira Neto, autores de romances ambientados durante o regime militar.
Serviço
Manobras de retorno
Data: 31 de março, às 19h
Local: Livraria Blooks - Praia de Botafogo, 316, Botafogo, Rio de Janeiro
Entrada franca
Subdesenvolvimento e revolução

Um clássico do pensamento brasileiro praticamente esquecido será debatido na livraria Leonardo da Vinci, no Centro. Trata-se da obra "Subdesenvolvimento e Revolução", que reúne ensaios de Ruy Mauro Marini.
De acordo com Daniel Louzada, livreiro responsável pela Da Vinci e mediador do evento, trata-se de uma obra indispensáveis para compreender o desenvolvimento capitalista no Brasil, suas contradições e antagonismos.
O livro também representa um divisor de águas no marxismo brasileiro e latino-americano na interpretação da ditadura em nosso país e na devastadora critica que Ruy Mauro Marini realizou ao reformismo da esquerda na segunda metade do século passado.
Os limites e impasses inerentes à industrialização na periferia capitalista e o subimperialismo brasileiro são expostos no livro com rigor teórico. A apurada análise das classes sociais e o caráter de classe do Estado no Brasil, sua articulação com o imperialismo e os limites da chamada burguesia nacional no capitalismo dependente são temas examinados e igualmente decisivos para superar o horizonte liberal dominante nas ciências sociais e na esquerda brasileira neste inicio de século.
Considerada uma obra clássica do marxismo brasileiro e latino-americano, "Subdesenvolvimento e revolução" representa a maturidade teórica e o compromisso político de um intelectual que consagrou sua vida e obra a revolução brasileira e latino-americana.
O cientista social mineiro Ruy Mauro de Araújo Marini (1932-1997) é conhecido internacionalmente como um dos elaboradores da Teoria da Dependência. Embora extremamente conhecido nos países latino-americanos de língua espanhola, sua obra é pouco conhecida no Brasil.
O debate faz parte da programação da série "Pensadores do Brasil" do Clube do Livro da Da Vinci. É aberto ao público em geral, mas é preciso inscrição prévia.
Serviço
"Subdesenvolvimento e revolução", de Ruy Mauro Marini - debate
Data: 31 de março, às 18h.
Local: livraria Leonardo da Vinci - Av. Rio Branco, 185, subsolo - 1, Centro, Rio de Janeiro

























