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Valter Hugo Mãe: “A utopia é feminina”

  • Foto do escritor: Sônia Apolinário
    Sônia Apolinário
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 4 horas


Foto: Sônia Apolinário
Foto: Sônia Apolinário


Com tiradas bem-humoradas e aparentando estar se sentindo bem à vontade, um dos principais nomes da literatura portuguesa contemporânea, Valter Hugo Mãe participou da mesa de encerramento do segundo dia da Festa Literária Internacional de Niterói (Flin), na noite de sexta-feira (14), no Reserva Cultural.


Ao entrar no palco, teve uma recepção digna de pop star por parte da plateia que lotou a Sala Nelson Pereira dos Santos – foram palmas efusivas, com direito a gritinhos.


O escritor não se fez de rogado e partiu para a “sedução”:


– Estamos na cidade mais bonita do país – disse ele, que, é claro, recebeu de volta mais palmas e gritinhos do público.


A mediadora Érika Neves aproveitou o gancho para checar se era verdadeira a informação que Niterói foi a primeira cidade que o escritor visitou, no Brasil.


Sim, verdade. A primeira vez que esteve na cidade foi há 25 anos, quando tinha 30 anos de idade. Seu “pouso” foi em casa de conhecidos, na Ilha da Conceição.


– Passei um mês comendo feijão. Esse tempo em que estive lá foi impactante. Parece que fui fazer a minha infância. Lembro desse período com muito carinho. Voltei no ano seguinte e, depois, fiquei uma semana em Ipanema (zona sul do Rio), um lugar muito chique. Tenho carinho e saudade desse tempo. Sinto falta de estar largado, no Brasil, andando perdido pelas ruas, de comer pudin de leite. Mas estou sempre com muitos compromissos. Nunca vi uma pessoa encalhada com tantos compromissos – disse ele, arrancando risos da plateia.


Muitos dos compromissos atuais estão relacionados com seu livro recém-lançado no Brasil, “O Século dos Imbecis” (editora Biblioteca Azul). Trata-se de uma fábula satírica e reflexiva que usa o realismo mágico e o humor ácido para diagnosticar a superficialidade, a desinformação e a glorificação da ignorância na sociedade contemporânea.


O livro, que Valter levou 20 anos para escrever, é sucesso de vendas, no Brasil. A história se passa em uma vila situada abaixo de um palacete na montanha, chamada Malandrinha. No local vive Agilulfo, o Marquês da Malandrinha. O Marquês tem uma peculiaridade: quanto mais sobe a montanha, mais lúcido e brilhante fica; porém, quanto mais desce em direção ao nível do mar e à vila, mais emburrece. A comunidade ao redor gira em torno desse personagem.


A alegoria seria uma crítica às elites? – perguntou Érika.


– Agilulfo é uma espécie de unidade de medida para ponderar em que nível da montanha cada pessoa (leitor) está. Se é uma crítica, é para nos autocriticarmos – respondeu o escritor.


No livro, os homens têm nomes, as mulheres não. Elas são identificadas pelos seus afazeres. Estaria Valter rebaixando as mulheres? Muito pelo contrário. Ele explicou:


– Vivemos um fim das utopias e de um certo poder masculino. Os homens no poder estão jogando o tabuleiro no chão, estão destruindo o jogo, para convencer o lado vencedor que não há um vencedor. Os homens têm nome, têm a linhagem e nada fazem. Quem realiza são as mulheres. Significa que o futuro está nas mãos das mulheres. A utopia é feminina.


Brasil


Perguntado sobre suas preferências quando o assunto é literatura brasileira, Valter rasgou elogios para três autores: Machado de Assis, Antônio Bispo dos Santos – popularmente conhecido como Nêgo Bispo – e Tamara Klink.


Machado de Assis (1839-1908)– Tem uma briga entre Eça de Queiroz e Machado de Assis. Eça é datado, não poderia ser de hoje; Machado poderia ser de agora. ele não envelhece, ele rejuvenesce. Machado não tem muita explicação, não ficou agarrado a uma época. Acho que ele tinha uma mãe ou pai de santo, alguém jogando búzios ajudando nas visões dele. Ele não é conhecido como o bruxo do Cosme Velho?


Nêgo Bispo (1959-2023)

– Ele copiou tudo o que eu queria escrever (risos). Seus livros são dos mais potentes. Ele está certo quando diz que precisamos educar a língua para que a língua saiba o que nós somos. A língua tem que se sujeitar à nossa dignidade.


Tamara Klink– Raramente vi uma mulher tão jovem tão inteligente. O que ela vive é único. Ela é uma das heroínas mais incríveis do Brasil. Comprem o livro dela, mesmo que ela não queira.


Sobre política brasileira, Valter afirmou que não está otimista, que o Brasil “tem optado mal” e que o político brasileiro “tem tendência a ser preso”.


– E não há gente nova. Parece que ninguém entra. É sempre o pai, o filho, o neto. Isso é monarquia – afirmou – Não há mais pessoas? Gente mais articulada, que tenha lido um livro?


O escritor informou que já está escrevendo um novo livro. Na verdade, é a retomada de uma história que começou a escrever em 2013. É sobre imigração.


Nesse momento, ao falar sobre as questões relacionadas com imigração que Valter assumiu seu momento mais contundente no evento.


– A Europa está nojenta com os ataques aos imigrantes. É grotesco. Eu entendo o desafio. No caso de Portugal, um país velho, está sendo transformado, ganhando um movimento espantoso justamente por conta dessa gente que chegou no país, principalmente, brasileiros. Atualmente, cerca de 10% da população de portugal é de brasileiros. Eles estão movimentando a economia, gerando empregos. É importante dignificar a figura do imigrante. É importante convencer a Europa que ela não está sendo invadida – defendeu Valter, nascido em Angola (África), filho de pais portugueses.


Matéria publicada originalmente no site A Seguir Niterói

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