Emicida na FLIN: “Quem lê não cai em qualquer xaveco”
- Sônia Apolinário

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Origem, identidade, racismo e, claro, livros foram assuntos abordados pelo rapper Emicida, na sua participação na Festa Literária Internacional de Niterói, no domingo (16), no Reserva Cultural. A mesa “De onde cê vem?”, mediada pela jornalista Luciana Barreto, foi uma das mais concorridas, nesse último dia do evento.
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Os trabalhos mais recentes de Emicida foram ganchos para diferentes momentos do bate-papo. Na música, girou em torno do álbum “Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores”, lançado no final do ano passado. Nesse trabalho, uma homenagem aos Racionais MC’s, Emicida apresenta raps de rimas bem afiadas.
— Tantas coisas que eu copiei dos Racionais que agradeço eles nunca terem me processado — afirmou o rapper, provocando risos na plateia.
Emicida contou que a música do grupo, criado em 1988, provocou nele uma “identificação profunda”:
— O som deles se transformou em espelho. Parecia que tinham vivido a minha vida. Vou usar o ápice do meu dom para dizer obrigado para os Racionais.
Dentre os trabalhos recentes de Emicida estão os livros “Conta comigo” e “Volta por cima”. São voltados para o público infantojuvenil e foram escritos pela economista francesa-estadunidense Esther Duflo, ganhadora do Nobel de Economia. Coube ao rapper e escritor fazer comentários para a edição brasileira das obras.
O primeiro fala sobre pobreza sem simplificar demais e com a preocupação de não reforçar estereótipos. O segundo é sobre empreendedorismo juvenil. E não vai parar por aí. Segundo Emicida, trata-se de uma “série longa” e outros temas a serem abordados são, por exemplo, etarismo e protagonismo feminino.
— É uma semente poderosa. É para que os professores se apropriem desses livros e os levem para as salas de aula. O trabalho da Esther é genial e ajuda a entender os mecanismos da desigualdade social, que é o freio do Brasil — afirmou.
A mediadora perguntou qual livro Emicida considera fundamental para os mais jovens e ele cravou “Instruções ao cozinheiro”.
— O autor (Bernie Glassman) fala sobre como construir uma vida com propósito. É um livro de cabeceira da minha vida porque sempre volto para ele. Diz, por exemplo, que nossa vida é uma grande oferenda que a gente tem que preparar e oferecer para quem a gente ama.
Já seu livro favorito é “Na senzala, uma flor”, de Robert Slenes, que discute a família escrava à luz da cultura africana.— Um dos livros que mudou a minha vida – disse Emicida.
E o que está lendo no momento?
— Uma coisa cabeçuda. O livro se chama “Sobre a Criatividade”, de David Bohm, que é um físico quântico e filósofo. É difícil, mas é gostoso quando entendo – brincou.
Reflexões
Sobre repertório para as criações:
— Achava que literatura era só no livro. Minha casa tinha poucos livros, mas tinha literatura, a literatura oral, a que está nas músicas, no jeito de falar. Rimar era uma brincadeira comum na minha infância.
Imaginário infantil:
– Existe uma fronteira a ser protegida que é a do imaginário infantil porque o sonho mora lá. A homegeneidade é destrutiva. O “sonho certo” que está sendo “vendido” é o da América do Norte. Vamos ter que construir mecanismos para sonhar com liberdade. E eu pergunto: qual a pergunta que uma IA não consegue responder por você? A pergunta é: qual seu sonho? Porque o sonho joga para o futuro e a IA se baseia no passado para responder.
Ser inspiração:
– Me sinto inspirado porque não termina em mim. É como uma corrida de bastão.
Racismo
– O poder de distração do racismo pode nos colocar em situação de reação ao invés de ação. Uma pessoa me empurrou para essa jornada de escritor, foi Elisa Lucinda. Ela me disse que a gente precisava parar de chegar atrasado na vida das pessoas, que o racismo estava chegando primeiro. Então, escrevi os livros que não tive oportunidade de ler quando era criança. O Brasil é grande demais para perder para o racismo.
Cultura
– O Brasil tem outro pré-sal que é a Cultura. O que a Cultura negra oferece para o Brasil é o diferencial do país para além das nossas fronteiras.
Livros
– Peguei o livro certo, nas situações certas e os livros salvaram a minha vida. Porque quem lê, não cai em qualquer xaveco, tá ligado?
Matéria publicada originalmente no site A Seguir Niterói
































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