Fernanda Torres faz o público rir no encerramento da FLIN
- Sônia Apolinário

- há 1 dia
- 4 min de leitura

Com um sonoro “Eu te amo”, lançado da plateia, que se sobressaiu às calorosas palmas, a atriz e escritora Fernanda Torres adentrou ao palco da Sala Nelson Pereira dos Santos para protagonizar a última atração da Festa Literária Internacional de Niterói (Flin), no domingo (16), no Reserva Cultural.
— Adoro essa cidade, disse ela em referência a Niterói — A cidade é linda, a vista também é linda (risos). Eu costumava frequentar Piratininga com meus filhos pequenos.
Ao longo de uma hora, Fernanda fez a plateia rir em vários momentos. A primeira parte da apresentação ficou por conta da leitura de um trecho do seu livro “A glória e seu cortejo de horrores” (Companhia das Letras, 2017).
Como a história que contaria gira em torno de uma encenação de “Rei Lear”, Fernanda perguntou se todos conheciam a peça de William Shakespeare. Diante das poucas mãos levantadas, ela fez um breve resumo: narra a queda de um monarca idoso da Bretanha que decide dividir seu reino entre as três filhas — Goneril, Regan e Cordélia. Cego pela vaidade, ele bane a filha sincera, Cordélia, e é traído pelas outras duas, mergulhando na loucura em meio ao caos e à desolação.
Quando ia começar a leitura, eis que toca um celular na plateia.
– Já atendeu? – perguntou a atriz. Ouviu silêncio como resposta.
“A glória e seu cortejo de horrores” é o segundo livro escrito por Fernanda. Acompanha as desventuras de Mario Cardoso, um ator de meia idade, dos dias de sucesso como astro de telenovela até a total derrocada quando decide encenar uma versão de Rei Lear. A peça é um fracasso.
Ao final da leitura, Fernanda revelou que o livro é baseado em fatos reais: uma encenação de Rei Lear feita em 1983, no Rio, que celebrou os 60 anos do ator Sérgio Britto, que interpretou o protagonista. No elenco também estavam Ney Latorraca, José Mayer, Paulo Goulart e uma Fernanda Torres que, aos 18 anos, interpretou a Cordélia.
No livro, a atriz que interpreta Cordélia tem vários ataques de riso, o que atrapalha bastante a encenação.
– Eu entrava no início e depois no final. Na época, era casada com o Pedro Bial. Eu ia em casa, jantava com ele e voltava. E a peça ainda estava rolando, duas horas depois. Todo dia eu ria. Teve uma vez que já entrei rindo. A Cordélia morre e eu ria da morta. Fiquei pensando que, um dia, iria escrever sobre aquela peça porque foi inacreditável o que eu vivi alí – contou ela para, em seguida, perguntar para a plateia se tinha entendido a história do livro.
Perguntas
Terminada a leitura, havia chegado a hora de rolar um bate-papo com o público. Mas não foi bem isso o que aconteceu. A atriz sacou umas folhas de papel onde ela leu perguntas supostamente feitas pelo público.
Sobre poesia
– Sou fraca de poesia, não leio muito. Mas adoro Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.
O que está lendo
Sobre Orfismo, uma série sobre a história do Império Romano e “A Descoberta da Mente: As Origens Gregas do Pensamento Europeu”, de Bruno Snell, que meu filho me deu.
Bloqueio criativo
– Na época em que fazia “Tapas e Beijos”, eu estava muito cansada. Todo dia, quando chegava em casa, eu escrevia para relaxar. Quando acabou a série, achei que seria ótimo ter tempo só para escrever. Vi que só fazer isso, reto, é difícil. É bom alternar escrever com ser atriz. Acho que é porque eu encho o saco rápido das coisas, então, é bom ter duas coisas.
Crônica
– Crônica é uma doença. Escrevi por dez anos para a Folha de S.Paulo. Mas você entrega e já está devendo a próxima. E fica olhando tudo, tudo pode virar crônica. De uns tempos para cá, as pessoas começaram a xingar, ameaçar. E eu fiquei com medo de escrever. Me aliviei quando acabou (o contrato). Por enquanto, não estou sentindo falta de nada.
Livro para entender o Brasil
– Se for para citar só um, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Machado de Assis). É um livro básico para entender o Brasil. Tem também “Beijo no Asfalto” (Nelson Rodrigues) e “Os Sertões” (Euclides da Cunha), “Viva o Povo Brasileiro” (João Ubaldo Ribeiro) e Jorge Amado.
O que você diria para uma mulher de 50 anos que está com a escrita aprisionada?– Libera aí, filha!
Preferências
– Literatura do século 19: Flaubert, Machado de Assis, Eça de Queiroz, como eu amo! Para um ator, essa literatura é incrível.
Para ler pelo menos uma vez na vida
– “Ilíada”. É incrível, mas dá trabalho. Li na pandemia (do Coronavírus).
Livro que gostaria de ter escrito
– Brás Cubas.
Tá chato, gente? – perguntou Fernanda um pouco antes de informar o fim da atração. E receber aplausos, muitos aplausos, inclusive do prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.
Matéria publicada originalmente no site A Seguir Niterói
































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