Projeto social de Niterói 'espalha' ritmistas pelos blocos durante o Carnaval
- Sônia Apolinário
- há 3 horas
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Atualizado: há 2 horas

O amor de um adolescente pela música, mais precisamente, por percussão, está na origem de um projeto que já "formou" mais de 300 pessoas. Trata-se do Viva Batuque, que existe há oito anos, em Niterói.
Sem patrocínio ou verba pública, essa oficina gratuita de percussão foi criada por Lucas Ratto quando ele 22 anos. De favor, sua sede - onde acontecem as aulas - já ocupou diferentes locais, na cidade. Atualmente, encontra-se no espaço comunitário e cultural do Morro do Palácio, no Ingá. As aulas acontecem às terças e quintas, à noite.
O Viva Batuque recebe qualquer pessoa que sonhe aprender a tocar percussão. Não importa a idade. O número de alunos depende somente da quantidade de instrumentos - 90 atualmente, mas já foram apenas sete.
- Todo mundo consegue tocar. Basta ensaiar - afirmou Lucas, categoricamente.
As inscrições para as oficinas costumam ser abertas no segundo semestre. No início do ano seguinte, os ensaios se intensificam e culminam no Carnaval. Nessa época, a maior parte dos alunos (ou seja, quem quiser) ajuda a engrossar a bateria de vários blocos. Este ano, o Viva Batuque estará presente em 16 deles, entre Rio e Niterói.
Mas a emoção máxima para alunos e professores é o desfile no Sambódromo do Rio de Janeiro. O Viva Batuque ajuda a compor a bateria da escola de samba Embaixadores da Alegria, formada por pessoas com deficiência. A agremiação, tradicionalmente, abre o desfile das Campeãs do Carnaval do Rio que, este ano, será no próximo dia 21.

Além dos ritmistas do Viva Batuque, a bateria da Embaixadores da Alegria conta com integrantes de outro projeto social, a Fina Batucada, do Rio de Janeiro, que ajudou (e muito) na formação do próprio Lucas.
- Somos o único bloco de Niterói na abertura do desfile das Campeãs. É muito emocionante. Porque você se torna protagonista de um momento quando, a maioria ali, não é protagonista de nada. Todo mundo chora. É um momento de muita felicidade - comentou.
Com pais, tio-avô e avós envolvidos com música e manifestações artísticas como capoeira e o próprio Carnaval, nada mais "natural" que Lucas decidir, criança, que seria músico quando crescesse.
Aos 17 anos, ele já estava formado em percussão popular pela Escola de Música Villa-Lobos. Sua graduação em música se deu no Conservatório Brasileiro de Música - ambas instituições com sede no Rio de Janeiro.
- Em Niterói não tinha um projeto de percussão gratuita para crianças. Eu tocava na noite e já estava envolvido com projetos de Carnaval. Comprei sete instrumentos, que foi o que meu dinheiro deu e decidi que abriria uma oficina - contou Lucas que arrebanhou seus cinco irmãos mais novos para inaugurar seu projeto, até então, sem nome.
Os amigos dos irmãos chamaram amigos, que chamaram amigos e outros amigos e o número de interessados foi aumentando. E o de instrumentos também. Atualmente, Lucas não é mais o único professor.
Dois ex-alunos de primeira hora (Vitor, de 24 anos, e Luan, de 18) agora, também estão dando aulas. Segundo Lucas, o projeto sobrevive, atualmente, de participação em editais de cultura de Niterói.
- Minha vida é só música - disse Lucas que mora no Engenho do Mato.
Ele explicou que, geralmente, as pessoas buscam o projeto com o desejo de tocar no Carnaval. Mas têm os que só querem, mesmo, aprender a tocar algum instrumento.
É o próprio aluno que escolhe o instrumento que quer aprender a tocar. Às vezes, porém, Lucas dá seus "pitacos". Para um menino de quase dois metros de altura que pediu para tocar chocalho, ele aconselhou o surdo, um instrumento grande, que pesa cerca de 5 quilos.
- O chocalho fica na frente, ele iria encobrir toda a bateria. Além disso, ele teria mais facilidade para levar o surdo. Sugeri a troca e ele está adorando - contou.
Também acontece de rolar uma certa falta de afinidade com o instrumento desejado. Ir trocando de instrumento até dar "match" faz parte.
Atualmente, o projeto tem alunos dos 13 aos 60 e poucos anos. Em termos de gênero, "é bem misturado", segundo Lucas.
Este ano, as inscrições estão previstas para serem abertas em julho. O Viva Batuque costuma receber cerca de 150 inscrições, o que faz com que seja necessário abrir lista de espera. Moradores do Morro do Palácio têm prioridade.
Um dos planos de Lucas para este ano é levar o projeto também para São Gonçalo, aproveitando que a família de Luan mantém um pré-vestibular social no município. Mas, com o próprio Lucas diz, "é um passo de cada vez para poder dar conta de tudo".
- Quando se começa a tocar um instrumento, cada um tem o seu tempo. É preciso ir devagar. Não precisa que ninguém seja ritmista de um Salgueiro. É só tocar, ir aprendendo e ser feliz - disse Lucas.
Enfermeira ritmista
A enfermeira Joyce Muniz entrou para o Viva Batuque ano passado, para realizar um sonho antigo. Agora, se aprende e se diverte tocando em blocos de Carnaval.
Ela deu o seguinte depoimento para o ComuniC:
"Desde a infância sempre quis dançar, cantar, tocar algum instrumento, fazer teatro... a arte me encanta, mas nunca tive a oportunidade de estudar nada disso.

Quando completei 40 anos fiz uma grande reflexão da minha vida. Percebi que a vida havia passado rápido demais diante de mim e eu não havia aproveitado a jornada fazendo tudo que um dia eu desejei. Que apesar de ser mãe e profissional bem sucedida ainda havia a necessidade de me reencontrar em alguns aspectos e decidi resgatar sonhos que estavam guardados. Com isso resolvi curtir os carnavais e com as amizades vieram as possibilidades.
Conheci o projeto do Viva Batuque através da mãe do mestre Lucas Ratto, Cecília Guimarães, que ama carnaval. Ela é minha amiga e me resgatou para esse mundo. Daí foi questão de organização para que, ano passado, eu começasse a participar das aulas.
A escolha pela percussão veio naturalmente pelo amor ao carnaval. Todas as vezes que escutava o som de uma bateria de escola de samba eu sempre sentia uma energia que me contagiava.
Com o projeto estou realizando 4 sonhos:
- tocar um instrumento;
- viver intensamente o carnaval;
- desfilar na Sapucaí; e
- ter mais momentos de diversão com meu filho e com minha família (que hoje também fazem parte do projeto e tocamos juntos).
Essas são as delícias que estou vivendo por me permitir realizar sonhos."





























