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Líbano: guerra no país do Oriente Médio mexe com a vida de 8 milhões de pessoas no Brasil

  • Foto do escritor: Sônia Apolinário
    Sônia Apolinário
  • há 5 horas
  • 5 min de leitura

Beirute, capital do Líbano. Foto: reprodução
Beirute, capital do Líbano. Foto: reprodução

Com a escalada da guerra no Oriente Médio, a partir dos ataques dos Eua-Israel, ao Irã, em fevereiro passado, o Líbano se viu em cena, em área de guerra, mais uma vez.


O Brasil, apesar de fisicamente distante desse país da costa mediterrânica do Oriente Médio, está mais perto de lá do que se possa imaginar. Afinal, o Brasil tem uma comunidade libanesa maior do que a população do próprio Líbano. Sem contar que o Líbano é o país que abriga o maior número de brasileiros no Oriente Médio.


De acordo com a Associação Cultural Brasil-Líbano, a comunidade libanesa no Brasil (entre cidadãos e descendentes), gira em torno de 8 milhões de pessoas, sendo a população do Líbano estimada em cerca de 5 milhões de pessoas.


Faz parte desse grupo de 8 milhões uma mineira radicada no Rio de Janeiro. A jornalista e escritora Jacqueline Farid nasceu em Itabirito, cidade onde seus avós libaneses se estabeleceram, quando migraram para o Brasil, nos anos 30 - muitos anos depois que o primeiro navio lotado de libaneses partiu com destino ao porto de Santos (SP), em 1880.



O começo dessa onda imigratória se deu quatro anos após a visita do imperador brasileiro Dom Pedro 2º ao Líbano. Reza a lenda que ele teria feito uma grande (e deliberada) propaganda do Brasil para os libaneses.


No Brasil, esses imigrantes foram indiscriminadamente chamados de turcos. Isso porque, no século 19, libaneses eram cidadãos árabes do Império Turco-Otomano. A França "libertou" o Líbano dos Otomanos após a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). O Líbano só se libertou da França em 1943. De lá para cá, o país viveu em instabilidade política e financeira, sendo alvo de várias agressões externas e conflitos internos.


- Eu tenho uma prima no Líbano que chegou à conclusão que em 60% da sua vida, ela conviveu com guerras - contou Jacqueline.


Antes dos atuais conflitos, a "última" agressão foi em 2024, quando Israel invadiu o sul do Líbano com a desculpa de combater o Hezbollah - organização política e paramilitar fundado em 1982 por clérigos libaneses em resposta a anteriores invasões israelense do Líbano. O Líbano faz fronteira com Israel ao sul do país.


Jac visitou sua terra ancestral algumas vezes. A última foi em setembro do ano passado. Esteve em Beirute, a capital libanesa. E o que ela encontrou?


- A cidade estava solar, alegre, esperançosa, apesar dos drones de Israel que voavam baixo sobre nossas cabeças. A cidade estava de cabeça erguida, com uma vida cultural muito intensa, com muitas festas, teatros, cinemas e muitos turistas estrangeiros. Existe muita similaridade entre o libanês e o brasileiro quando se trata de festa - contou.


Naquela ocasião, ela visitou pela primeira vez a cidade litorânea de Tiro, ao sul do país, uma região onde o Islã é a religião predominante. Trata-se de uma das mais antigas cidades continuamente habitadas do mundo, tendo sido uma das primeiras metrópoles fenícias. E o que ela encontrou?



- Uma situação lamentável. É uma cidade pré-romana maravilhosa, uma praia querida do povo libanês, mas estava vazia.



Muito das suas impressões de viagem, Jac transformou em livros. Primeiro foi "O Árabe Invisível" (2022), depois "O Perfume do Nilo" (2025). São ficções amparadas nas suas vivências de viagem e familiares.


No primeiro, ela faz o leitor passear praticamente por todo o Líbano, com destaque para Bsharri (foto abaixo), cidade ao norte do país, área Cristã Maronita, que abriga a estação de esqui mais antiga do Líbano. Foi onde seu avô nasceu e também o célebre escritor Khalil Gibran (1883-1931). A cidade abriga os "Cedros de Deus", a árvore símbolo do país.




Houve época em que o Líbano era coberto por florestas de cedro. Atualmente, após séculos de exploração, a extensão destas florestas está muito reduzida. As árvores sobrevivem em áreas montanhosas como Bsharri. E onde elas ainda podem ser encontradas, são exuberantes.


- O livro mostra bem a diversidade libanesa, mas a partir do meu primeiro olhar sobre o país, um olhar até um pouco romântico. Não é desprovido de olhar jornalístico, mas não tem visão sociológica, mas pessoal, familiar - contou Jac.


"O Árabe Invisível" (Paginas Editora) conta a história de Soraia, que viaja ao Líbano numa jornada solitária em busca da ancestralidade. Ela não sabe que é acompanhada pelo avô Youssef, morto há décadas, que foi enviado pelo Outro Lado para salvá-la de um perigo que pode ser fatal na viagem. A aventura do avô e da neta se desloca por três países, onde vão se encantar com o Bósforo em Istambul, buscar um tesouro dourado em casas de pedra no Líbano e trilhar os caminhos dos nabateus em Petra. O desfecho que os espera é o inesperado.


Já "O Perfume do Nilo" (editora Caravana) leva o leitor ao encontro de cenários deslumbrantes no Egito, em Beirute, Damasco (capital da Síria) e Capadócia (Turquia).


No livro, é a Beirute solar e de vida cultural intensa que se faz presente. A história gira em torno de Adriana, uma brasileira que perdeu o olfato devido à Covid. Ela encontra um perfume singular nas margens do rio Nilo. Na tentativa de entender porque esse é o único cheiro que sente, ela cria uma conexão virtual com o enigmático sírio-libanês Antoine, criador do perfume.


Nesse momento, Jac está escrevendo outro livro. Quando estiver pronto, levará o leitor para Tunísia, Marrocos e Líbano, é claro, tendo Beirute e Tiro como cenários. Dessa vez, porém, as cidades libanesas tendem a ser descritas de um modo um pouco diferente. Após algumas leituras, Jac admitiu que sua "visão romântica" da capital libanesa mudou um pouco.


- Gosto de ser uma turista no Líbano. Beirute é uma maravilha de cidade, na beleza, na cultura, na culinária, na história e na bondade das pessoas. Mas, no novo livro, quero colocar uma nova visão, mais crua, expor um pouco mais as contradições que sempre deixei em segundo plano - afirmou a escritora, que segue:


- A reconstrução do Líbano depois da guerra civil foi financiada por financistas internacionais. O país tem grandes desigualdades sociais. O Líbano sempre foi chamado para a guerra, mas não é um país preparado para guerrear. Tem uma governança complexa. É um caldeirão. Complexidade é uma palavra importante para falar sobre o país. Mesmo com tudo isso, o libanês não perde a vontade de festejar. Como o brasileiro.


Se Jac tem uma ambição com seus livros, seria o de mostrar que o Oriente Médio vai além de guerras, homens-bomba e burcas - é um lugar culturalmente rico e bonito.


Na opinião da escritora, "a humanidade não vai se entender se só olhar para uma parte dela":


- O véu entre oriente e ocidente tem que ser retirado. É preciso lembrar que foram os fenícios que inventaram o alfabeto, a navegação, o comércio. Um eventual alívio que se sente por viver longe de uma guerra é uma cegueira. Porque uma guerra afeta toda a humanidade, que vai falindo no meio de tanto sangue de crianças.

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