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Uma cerveja de lavanda de Cunha

Foto do escritor: Sônia Apolinário
Sônia Apolinário
há 11 minutos
5 min de leitura

Fotos: Divulgação
Fotos: Divulgação


Localizado no alto Vale do Paraíba, o município paulista de Cunha tem como principal atração turística um lavandário. Criado em 2013 sob inspiração de modelos europeus, o espaço tem mais de 40 mil pés de lavandas plantadas em uma área de montanha com vista panorâmica para a Serra do Mar.


Uma beleza perfumada deslumbrante.


Graças a um sistema de podas rotativas, os campos permanecem floridos em todas as estações e não apenas na primavera. Ou seja, é possível visitá-lo o ano todo.



Lavandário de Cunha. Foto: Sônia Apolinário
Lavandário de Cunha. Foto: Sônia Apolinário

Não por acaso, a lavanda é quase onipresente na cidade - seja estampada nos mais diversos tipos de souvenirs ou como ingrediente de vários produtos tanto gastronômicos como cosméticos.


Outra característica de Cunha é o seu turismo rural que "esconde" queijarias, olivais, vinhedos, restaurantes, pousadas e cervejarias um tanto distantes do centrinho da cidade.


Visitei Cunha em setembro e "esbarrei" com o rótulo Lavanda Blond Ale, da cervejaria Pedra do Lobo. O que descobri depois é que a garrafa é uma espécie de síntese do que Cunha pode oferecer a quem a visita.


Pedra do Lobo


A cerveja (cigana) faz parte do projeto de turismo rural do Sítio Pedra do Lobo que engloba cavalgadas, hospedagem, horta e vivências.


A Lavanda Blond (4,8% de teor alcoólico e 18 de grau de amargor) é o terceiro rótulo criado por Felipe Berger Carmona, de caráter mais sazonal, feita com lavandas que ele mesmo planta na sua propriedade. Como as "irmãs" Amber Ale e Stout, é produzida em uma cervejaria de Taubaté (SP).


Para chegar no rótulo, é preciso voltar no tempo uns cinco anos e meio - época em que Felipe comprou um sítio de 42 hectares, a 27 Km do centro de Cunha, colocando um ponto final na vida de viajante que levava até então.


Natural de Araraquara (SP), após se formar em música, ele pegou uma bicicleta e saiu por aí. Foram sete anos viajando pelo Brasil e alguns outros países como Argentina, Chile e até Portugal.


- Eu chegava em um lugar e tocava violão clássico para me sustentar. Onde eu gostava ficava uma temporada. Eu achava que nunca iria conseguir levar uma vida normal. Quando a pandemia do Coronavírus estourou, eu estava em Paraty e passei por Cunha. Fiquei encantado com as montanhas. Meu pai vivia em um sítio em São José do Rio Preto. Vendemos tudo lá e compramos aqui. Larguei a estrada e cá estou. Para eu parar, tinha que ser em um lugar lindo, com movimento artístico, como é Cunha que tem muita cerâmica e festivais - contou Felipe.


Enquanto aprendia a empreender em um sítio no meio do mato, recebeu a visita de um amigo cervejeiro caseiro. Foi ele que o ensinou a produzir a bebida, no seu próprio equipamento. E foi justamente uma Blond Ale a primeira que fizeram juntos. O restante da história é parecida com a de vários caseiros: diante do sucesso das cervejas junto a vizinhos e amigos, Felipe decidiu ciganar.



Atualmente, a degustação dos seus rótulos, no alto da montanha, nos arredores da propriedade, é o ponto alto das cavalgadas que organiza. A principal delas é a da Lua Cheia (a próxima será dia 26 de outubro).


- Voltamos para o sítio guiados pela luz da lua, entre estrelas e vagalumes. É um espetáculo - disse Felipe.


Resenha


Foto: Sônia Apolinário
Foto: Sônia Apolinário

A Lavanda Blond Ale é feita com a flor da lavanda adicionada no final da fervura, como Felipe explicou. A receita também inclui dry hopping de lúpúlos com toques florais. Mas ninguém deve se preocupar porque a cerveja não fica com gosto de sabonete.


A que eu experimentei tinha um aroma floral bem acentuado; na boca, amargor, picância e bastante adstringência com floral no retrogosto. Corpo médio-baixo e refrescante. Não tive percepção de ésteres frutados, típico de uma American e não Belgian Blond Ale.


- Cerveja feita com lavanda tem muito potencial turístico. Daria para produzir o rótulo o ano inteiro, mas é uma cerveja leve, mais com cara de primavera-verão - comentou Felipe.


Os lobos


Logo que chegou no sítio, Felipe percebeu que viviam no local pelo menos dois lobos-guarás que ele identificou por conta do característico latido do animal (lobo-guará não uiva). Depois viu alguns vestígios deles, mas não, Felipe nunca os viu.


- O lobo-guará é um bicho tímido, gosta de andar à noite, escondido. É grandão, mas dificilmente ataca. Eu adoraria encontrar com eles. Como no sítio tem umas pedras enormes, batizei o lugar como Pedra do Lobo - contou.


Para "substituir" os guarás, Felipe, de 43 anos, arrumou um "lobinho", um husky siberiano "carinhoso e companheiro". Ele e outros dois cachorros fazem parte da família composta ainda pela sua companheira Rossio e seu pai Wagner, um experiente criador de cavalos (o sítio tem 13) e gado.



E a música?


- Não tenho feito apresentações. Música exige muita dedicação. Faz parte do projeto colocar o repertório antigo em dia e promover concerto de violão entre as oliveiras - contou.


Detalhe, em Cunha tem um olival onde as plantas vivem sob o som de música clássica. Mas isso é tema para outra matéria.


Sobre Cunha





A distância entre Cunha e a cidade do Rio de Janeiro é de aproximadamente 310 km. O município é o primeiro de São Paulo depois de Paraty, distante cerca de 46 km.


Para chegar em Cunha, a melhor opção é seguir pela Via Dutra (BR-116) e acessar a cidade via Guaratinguetá, de onde parte a Rodovia Paulo Virgínio (SP-171).


Além da lavanda, a cidade se destaca por ter um forte polo de cerâmica artística; também é conhecida como a Capital do Pinhão; é um dos maiores produtores de leite de São Paulo (por isso sua força na queijaria). A cidade também tem o título de Capital Nacional do Fusca devido à grande concentração do clássico carro da Volkswagen.


Sobre o Lavandário


A lavanda se tornou a principal atração de Cunha porque o cultivo em larga escala encontrou no alto da serra um clima ameno, solo adequado e noites frias muito parecidos com os da região da Provença, na França.


O Lavandário fica na Rodovia SP-171 (Guaratinguetá-Paraty) – km 54,7, distante 10 km do portal de Cunha. Está localizado a cerca de 1.200 metros de altitude na Serra da Mantiqueira em uma área de 10 hectares.


Funciona de sexta a domingo e feriados. O ingresso por pessoa é de R$ 25,00. O bistrô local oferece um cardápio que tem na lavada um dos seus ingredientes. Vale para sorvete, bolo de chocolate, café e chá, entre outros itens.


A produção é orgânica. No Lavandário funciona uma destilaria onde são feitos óleos essenciais da flor.


Sítio Pedra do Lobo






Divisa entre os municípios de Cunha e Lagoinha. Contato: 12. 99173-7463



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