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Garrett Oliver: 'A maioria dos países fazem as mesmas Hazy Ipas; isso é muito chato'

Foto do escritor: Sônia Apolinário
Sônia Apolinário
há 4 minutos
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Garrett Oliver no Booze Bar, na Lapa. Fotos: Sônia Apolinário
Garrett Oliver no Booze Bar, na Lapa. Fotos: Sônia Apolinário


Sorvete de dendê, paçoca e caipirinhas feitas com diferentes frutas sempre com cachaça. Esses foram alguns dos sabores do Brasil que Garrett Oliver experimentou durante sua recente passagem pelo Rio de Janeiro.


O mestre-cervejeiro da Brooklyn Brewery, de Nova York (EUA), ícone internacional da cerveja artesanal, passou três dias na cidade. Ele seria uma das atrações do Mondial de la Bière cuja edição de 2026 foi cancelada. Ainda assim, chegou a cumprir uma agenda oficial relacionada com o festival cervejeiro, mas acabou por participar de dois encontros "extras" com entusiastas da cerveja artesanal.


Lupulinário participou de um deles, o último, realizado no Booze Bar, na Lapa, na sexta-feira, 30 de outubro. Na véspera, ele esteve no Delirium Café, em Ipanema. Nos dois casos, ele conversou com quem se chegou, autografou livros, tap handles e copos. No seu copo, caipirinha.


No evento "oficial", no Brewteco de Botafogo, no dia 28, ele conduziu uma degustação de rótulos da Brooklyn. Dentre eles um colaborativo entre a marca norte-americana e as brasileiras (do Rio de Janeiro) Three Monkeys e Brewteco, o Tropicália - feito justamente para homenagear a vinda de Garrett Oliver ao Rio.


Trata-se de uma Sour que leva as brasileiríssimas frutas cajá e caju, além de adição do carioquíssimo caldo de cana. As frutas têm como função trazer acidez tropical para a cerveja; enquanto o caldo de cana se encarregou de dar corpo e "força" à bebida.


O veterano mestre-cervejeiro provou e aprovou o rótulo colaborativo:


- Fico feliz que o Brasil faz cerveja diferente. A colab usou ingredientes que não são encontrados nos Estados Unidos, por exemplo. Isso é especial. A maioria dos países fazem as mesmas Hazy Ipas. Isso é muito chato - disse ele em entrevista exclusiva para Lupulinário (que também teve seu livro "A Mesa do Mestre-Cervejeiro" devidamente autografado).


Fundada em 1988, a Brooklyn ocupa a 8ª posição no ranking das maiores cervejarias independente dos Estados Unidos. Chegou ao Brasil em 2010 e, desde 2018, é produzida no país por intermédio da Cervejaria Maniacs, de Curitiba (PR), também responsável pela distribuição da marca estadunidense no Brasil.


Garrett Oliver se tornou também referência em harmonização de cerveja com alimentos após a publicação do livro "A Mesa do Mestre-Cervejeiro", a "bíblia" do assunto. Ele também é autor do "Guia Oxford da Cerveja". E disse não ter planos para novos livros, pelo menos por enquanto.


Aos 64 anos, Oliver já esteve no Brasil umas dez vezes. Mas há uns seis anos não visitava o país. Agora, para ajudá-lo nas suas buscas por novos sabores, seus anfitriões o levaram na Feira de São Cristóvão, principal reduto da cultura nordestina no Rio, onde comprou azeite de dendê, rapadura e cachaça.


Aqui, vale um parênteses. O mestre-cervejeiro só gosta de cachaça prata, ou seja, não envelhecida, que não passa por madeiras. Se encantou, particularmente, com a Rainha, uma das aguardentes artesanais mais tradicionais do Brasil. É produzida desde 1877 no Engenho Goiamunduba, na cidade de Bananeiras (PB).


- Eu adoro caipirinha, mas só com cachaça. Meu pai me ensinou a fazer caipirinha - contou ele orgulhoso.


E foi com uma caipirinha de caju que ele harmonizou uma sobremesa composta por sorvete de dendê e bolo de coco com calda de milho, que experimentou no restaurante Dois de Fevereiro, comandado pelo chef João Diamante, no Largo da Prainha, na Gamboa.


- Se eu tivesse que harmonizar essa sobremesa com uma cerveja, escolheria uma Stout - afirmou.


Na sua bagagem de volta para os Estados Unidos, Oliver ainda incluiu um pacote de 1 quilo de farinha de mandioca. O presente lhe foi dado pelo sommelier José Padilha, não sem antes explicar o motivo: ingrediente básico para se fazer a brasileiríssima farofa. Sim, Padilha passou uma receita para Oliver.



Foi entre goles de caipirinha que ele conversou com Lupulinário sobre cerveja artesanal


Nos Estados Unidos, entre 2024 e 2025, cerca de mil cervejarias artesanais fecharam, contra cerca de 300 abertas, no período. O Brasil também vem registrando queda no número de cervejarias. O movimento craft está morrendo?

Garrett Oliver: Não. Ao longo de 36 anos nesse mercado, já vi 2, 3 ciclos de quedas. São ondas. Teve em 1997 (excesso de oferta), 2008 (turbulência financeira global) e agora é mais uma onda.


Qual a característica da crise atual da cerveja artesanal?

GO: A diferença agora é uma mudança de hábito alimentar por conta das canetas emagrecedoras. As pessoas reduziram o consumo de álcool. E não estou falando dos jovens porque não é verdade que os jovens não estão bebendo álcool. Eles estão bebendo outras coisas, que não cerveja.


Por que o jovem de hoje não está bebendo tanta cerveja?

GO: O craft perdeu o interesse desse público por não apresentar nada novo; não conseguiram se comunicar com essa nova geração. O cervejeiro está mais velho e não conhece o atual consumidor mais jovem. Em 20 anos, as coisas mudaram, mas as cervejarias não estão fazendo algo diferente para atrair os mais novos.


Como avalia a cerveja artesanal brasileira?

GO: Vejo mais qualidade, agora, nas cervejas brasileiras, do que há dez anos. São boas produções com ingredientes locais. A colab da Brooklyn com Three Monkeys e Brewteco é um exemplo disso: uma cerveja feita com caldo de cana, caju e cajá. São ingredientes que não são encontrados nos Estados Unidos, por exemplo. Isso é ótimo. Até porque, a maioria dos países fazem as mesmas Hazy Ipas e isso é muito chato. Fico feliz que o Brasil faz cerveja diferente. Espero voltar ano que vem para fazer outras colabs.

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