Biografia de Lacerda joga luz sobre a elucidação do atentado da Rua Tonelero que resultou no suicídio de Getúlio Vargas


Um político brasileiro que começou no comunismo, mas acabou por se tornar um ferrenho anticomunista. Engrossou as fileiras dos ultraconservadores e defendeu tudo quanto foi tipo de golpe de estado. Assim foi Carlos Lacerda (1914 - 1977).
Também jornalista, escritor e empresário, ele foi vereador, deputado federal e governador do estado da Guanabara. Lacerda foi fundador e proprietário do jornal "Tribuna da Imprensa" e a ele foram atribuídas muitas fakes news lançadas contra seus adversários. Ele ainda criou a editora Nova Fronteira.
Principal adversário político do presidente Getúlio Vargas, Lacerda entrou para a História do país como sendo o grande pivô da crise política que resultou no suicídio de Vargas - uma trama relacionada com o chamado "Atentado da Rua Tonelero", via que fica no bairro carioca de Copacabana.
O atentado foi uma suposta tentativa de assassinato de Lacerda, tendo Vargas como mandante e Gregório Fortunato, chefe de segurança do presidente, como executor. As investigações nunca conseguiram provar o envolvimento de Vargas no atentado, mas ele levou a culpa e se matou.
A elucidação do tiroteio na rua Tonelero, em 1954, é uma das novidades históricas que apresenta o livro "Lacerda - Coração de Tempestade” (Companhia das Letras), do jornalista Mário Magalhães. E não é a única. Ao longo de 528 páginas desse primeiro volume da biografia do político carioca, pelos menos outros três fatos históricos foram revistos pelo autor.
"Lacerda" é a segunda biografia de político brasileiro escrita por Magalhães. A primeira, “Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo” (Companhia das Letras), foi lançada há 14 anos, tem 784 páginas e levou nove anos para ser realizada.
Entre uma obra e outra, ainda teve uma biografia pouco comum porque não foi de uma personalidade, mas de um ano: “Sobre Lutas e Lágrimas: uma biografia de 2018” (Editora Record).
Um dos jornalistas mais premiados do Brasil, Magalhães trabalhou nas principais redações do país, dentre elas, a Folha de S.Paulo, onde também atuou como ombudsman. Sua apuração para realização de "Lacerda" levou mais de dez anos.
Escrever sobre esse "personagem" era um projeto pessoal e antigo.
- É impossível contar honestamente a história do Brasil suprimindo Carlos Lacerda. Permite reconstituir sessenta anos de história do Brasil e do mundo, com um elenco fabuloso - afirmou Magalhães em entrevista para o ComuniC, feita por e-mail, entre um compromisso e outro relacionado com seu novo livro.
Lançado há menos de um mês, "Lacerda" já frequenta a lista dos livros de não ficção mais vendidos do país. O volume 1 abrange um período entre 1914 e 1955. Representa os
anos de formação de Lacerda, seu trabalho como jornalista e atuação política até a crise
de 1955, que ameaçou a eleição e a posse legítima do presidente Juscelino Kubitschek.
O livro captura não apenas as ambiguidades de Lacerda, mas as tensões que marcaram a história brasileira do século XX. "Coração de tempestade" foi uma expressão que Lacerda escreveu em um texto publicado em 1946 no jornal "Correio da Manhã":
“O povo tem um coração de tempestades. Na tormenta ele encontra a sua rota, enfrenta os grandes mares, suporta os ventos mais bravios.”
A continuação da biografia está prevista para ser lançada somente em 2028 e ainda não está escrita.
Confira a entrevista

Por que Lacerda depois de Marighella?
Mário Magalhães: Porque é impossível contar honestamente a história do Brasil suprimindo Carlos Lacerda. Ou descrevendo-o e olhando-o unilateralmente. Ou reduzindo-o a uma caricatura. Porque sua vida, como a de Carlos Marighella, foi trepidante, um antídoto contra o sono do leitor. Permite reconstituir sessenta anos de história do Brasil e do mundo, com um elenco fabuloso.
Qual foi seu ponto de partida?
MM: Ter acesso em 2015 ao total de 1.475 documentos, originalmente secretos, de órgãos do governo dos Estados Unidos. Especialmente, da CIA (Central Intelligence Agency), do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa. Somam dezenas de milhares de páginas.
Sua apuração levou mais de dez anos. Qual o maior desafio?
MM: Libertar Carlos Lacerda das camisas de força históricas em que até hoje insistem em aprisioná-lo. Ele foi ambíguo, contraditório, não só uma coisa ou outra. Não sou seu advogado nem, contra ele, promotor. Também não o julgo. Ofereço escrupulosamente informações para que leitoras e leitores formem juízo autônomo.
O que o fez decidir que a apuração tinha terminado?
MM: A apuração nunca termina. Mas chega uma hora em que é preciso entender que o fundamental já foi investigado.
Quando começou a escrever?
MM: Um ano e meio antes de pôr o ponto final. A investigação tomou muito mais tempo, mas escrever é o mais difícil para mim. Apurações monumentais são um trunfo, para contar só o filé-mignon: as informações mais relevantes e interessantes. Mas são armadilha: narrador que quer contar "tudo" às vezes produz uma prosa relatorial, enfadonha como uma ata de diretoria de associação comercial.
Alguma coisa no processo da realização do livro sobre Marighella sinalizou para que fizesse igual ou diferente na hora de escrever a biografia do Lacerda?
MM: Sim: repórter deve sempre exercitar a virtude do ceticismo, duvidar de tudo. Na biografia "Marighella", eu supus que já conhecia as circunstâncias da morte do personagem-título. Equivoquei-me, como me dei conta ao descobrir que ele estava desarmado ao ser fuzilado. Para reconstituir o atentado da rua Tonelero, na biografia "Lacerda", parti do zero, duvidando tanto das versões oficiais quanto das teorias da conspiração. Resultou num dos melhores momentos do livro, creio.
Você está lançando o primeiro volume de dois. Esse primeiro volume vai até quando, na vida de Lacerda?
MM: Vai do nascimento de Lacerda, em 1914, até a sua partida para o autoexílio, em novembro de 1955.
O segundo volume já está escrito?
MM: Não.
Tem previsão de lançamento?
MM: 2028.
Na sua apuração, descobriu dados que permitam que a história do Brasil seja revista? Se sim, quais?
MM: Sim. Quatro exemplos: 1. os segredos da "expulsão" de Lacerda do Partido Comunista (PCB) em 1939; 2) a elucidação do tiroteio na rua Tonelero em 1954; 3) o passado do redator da Carta-Testamento do presidente Getúlio Vargas; 4. a extensão da pregação golpista de Lacerda em 1955.
Antes de começar a trabalhar no livro você era do time de fã ou hater de Lacerda?
MM: Sou repórter e narrador. Não sou fã nem hater. Carlos Lacerda já tem muitos apologistas e detratores. Meu desafio foi outro: contar sua história. O que pensar dele cabe a cada leitor.
Após a conclusão do trabalho seu posicionamento sobre Lacerda mudou? Se sim, em quê?
MM: Não tenho posicionamento. Não escrevi o livro para fazer a cabeça de ninguém. Não trato Carlos Lacerda como herói ou vilão da história.
Você ainda tem um bom tempo pela frente para se dedicar a esse "personagem", uma vez que um segundo volume ainda será lançado. Mas já decidiu qual o próximo Carlos que será seu biografado?
MM: Um sobrinho gaiato, cearense, já perguntou se será o Carlos Magno... (748 d.C - 814 d.C, Imperador dos Romanos, primeiro imperador reconhecido a governar a Europa Ocidental). A verdade é que chega de biografias. Para fazer como eu faço, elas exigem trabalho insano. Biografia é coisa de maluco.
































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