Memes saem do mundo digital e viram objeto de exposição no Rio


Uma reflexão sobre a memeficação - fenômeno que ultrapassa o universo digital e atravessa diferentes dimensões da vida contemporânea, da política à cultura, da comunicação às relações sociais. Esse é o objetivo da exposição “MEME: no Br@sil da memeficação” que será inaugurada no sábado (7), no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro.
A mostra reúne mais de 800 criações de 200 produtores de conteúdo e artistas para investigar o meme como linguagem e como ferramenta de crítica social e política.
A mostra ocupa a rotunda e o primeiro andar do CCBB RJ e reúne vídeos, neons, esculturas, roupas, quadrinhos, pinturas, objetos, backlights, instalações audiovisuais e experiências interativas.
Logo na entrada, na rotunda, onças de diferentes materiais retomam o meme “alisa meu pelo” e recebem o público numa instalação tátil. Esse meme tem um sentido atrevido, digamos assim, de solicitação de carinho. O pedido de alisar o pelo tem uma conotação sexual e é usado como gíria tanto por homens quanto por mulheres.
De acordo com a curadora Clarissa Diniz, a memeficação diz respeito à maneira como imagens, frases, gestos e acontecimentos são constantemente apropriados, reproduzidos, transformados e colocados em circulação, adquirindo novos sentidos a cada contexto.
- Embora tenha ganhado força com a internet e as redes sociais, essa lógica não é inteiramente nova: operações como a repetição, a paródia, a sátira e o deslocamento de significados fazem parte da história da cultura há muito tempo - explica ela que acrescenta:
- Os memes são ferramentas políticas e afetivas. É por meio deles que o Brasil elabora e expressa, em tempo real, suas diferenças sociais, raciais, de gênero e estéticas. A exposição parte do humor para provocar uma pergunta: como estamos refazendo o país por meio das suas imagens mais debochadas?
Na opinião do também curador Ismael Monticelli, “é impossível compreender o Brasil de hoje sem entender seus memes”. Ele foi o criador do perfil do Instagram @newmemeseum que, entre 2020 e 2025, chegou a reunir quase meio milhão de seguidores. Acabou porque a Meta, dona do Instagram, derrubou o perfil.
A exposição não representa a estreia dos memes no ambiente dos museus. Desde 2017 existe o #MUSEUdeMEMES, projeto digital (web museu) da Universidade Federal Fluminense (UFF) que já realizou uma exposição física, no Museu da República, também no Rio de Janeiro, em 2019.
Na prática, o #MUSEUdeMEMES é um site que conta com cerca de 300 coleções e mais de mil pesquisas catalogadas, além de artigos produzidos pelos integrantes do projeto. O trabalho é coordenado pelo professor Doutor Viktor Chagas que também colaborou na realização da exposição “MEME: no Br@sil da memeficação”.
Percurso da mostra
A exposição se organiza em cinco núcleos temáticos: Ao pé da letra, A hora dos amadores, Da versão à inversão, O eu proliferado e Combater ficção com ficção. Conta ainda com o prólogo tátil Alisa meu pelo e o epílogo Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?.
Prólogo - Alisa meu pelo | Rotunda. O meme surgiu em 2017 com a onça-pintada da nota de R$ 50 e viralizou ao transformar o bicho, símbolo de força, numa figura carente e próxima. Na exposição, onças em diferentes materiais convidam o público ao toque e à interação. As onças foram criadas pelos artistas José Francisco Afrânio, Jorge Gomes e Vinicius Vaitsmann.

Núcleo 1 - Ao pé da letra | 1º andar. O primeiro núcleo trata dos jogos de palavras e dos descompassos entre texto e imagem que fazem os memes provocar riso e estranhamento. Entram aqui as dublagens cômicas e línguas digitais como o tiopês e o pajubá. Entre os nomes presentes estão Greengo Dictionary, Melted Vídeos, Nelson Leirner, Panos Subversivos, Rafael Portugal e Ruth Lemos, a nutricionista do célebre "sanduíche-íche".
Núcleo 2 - A hora dos amadores | 1º andar. Inspirado na capa da revista Time de 2006, que elegeu “você” como personalidade do ano, o núcleo aborda a visibilidade que a internet deu às pessoas comuns. Num país desigual como o Brasil, o meme virou tecnologia social de protagonismo para vozes antes apagadas. Estão aqui Alessandra Araújo, a dupla Valdisnei (Lourival Cuquinha e Daniela Brilhante), Malfeitona, O Brasil Que Deu Certo e Raphael Vicente.
Núcleo 3 - Da versão à inversão | 1º andar. A imitação aparece como gesto crítico, capaz de transformar a cópia em paródia. Vai de pequenas alterações, como trocar uma palavra, a inversões radicais, com mulheres imitando homens e humanos dublando animais. Como no Carnaval, o riso vem da inversão. Participam A Vida de Tina, Alexandre Mury, Festa da Firma, John Drops, Juvi Chagas, Lara Santana, Porta dos Fundos, Renata Felinto e Victor Arruda, entre outros.
Núcleo 4 - O eu proliferado | 1º andar. O núcleo olha para a vida privada transformada em espetáculo e para a autoperformance nas redes, que ajuda a afirmar identidades historicamente apagadas e, ao mesmo tempo, faz da autoestima uma mercadoria. Estão aqui Coach de Fracassos, Frases Pra Você, Galinhas Inseguras, Gretta Sarfaty, Lenora de Barros, Panmela Castro, Regina Vater e Valeska Soares, entre outros.
Núcleo 5 - Combater ficção com ficção | 1º andar. O núcleo mais político da mostra examina o papel dos memes na polarização. Eles servem à resistência e também à desinformação, e a curadoria propõe pensar os usos éticos do riso. Reúne Augusto de Campos, Claudio Tozzi, História no Paint, Marcelo Tas, O Pasquim, Paulo Gustavo, Porta dos Fundos, Regina Silveira e Sensacionalista, entre outros.
Epílogo - Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam? | 1º andar. Feito com a equipe do #MUSEUdeMEMES da UFF, o epílogo reúne dez entrevistas em vídeo com criadores brasileiros, entre eles Gregório Duvivier, Malfeitona e Marcelo Zorzanelli, um dos criadores do Sensacionalista, que tentam responder o que é, afinal, um meme.
Serviço
Exposição "MEME: no Br@sil da memeficação"
Local: CCBBRJ - Rua Primeiro de Março, 66, Centro do Rio
Período: 7/11/2026 (a partir de 12h) a 1/2/2027
Funcionamento: Quarta a segunda, das 9h às 20h (fechado às terças-feiras)
Entrada franca com retirada antecipada de ingresso na bilheteria do CCBB ou no site da instituição.
































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