• Sônia Apolinário

Food Park Carioca e Il Piccolo Biergarten saem de cena no Rio de Janeiro

O mês de março chega com mais dois estabelecimentos tradicionais, no Rio de Janeiro, de portas fechadas em definitivo. São eles o Food Park Carioca e o Il Piccolo Biergarten. Ambos colocaram centenas de itens à venda.


O Food Park Carioca funcionou por cinco anos e quebrou vários paradigmas. O primeiro deles, foi levar público a uma “praça de alimentação” montada em um nada glamouroso estacionamento de um supermercado, na Tijuca. Quando foi criado, os food trucks ainda não eram tão populares na cidade. O local também foi pioneiro no lançamento de várias marcas de cervejas artesanais cariocas.


O local virou “point” e costumava atrair cerca de oito mil pessoas, por semana. Tudo corria bem até março de 2020, quando a pandemia do Coronavírus fechou todos os bares e estabelecimentos similares para evitar aglomerações.


Antes, porém, uma luz amarela já tinha sido acesa para Bruno Cypreste, o idealizador do FPC. O supermercado cujo estacionamento ocioso fora ocupado pelo empreendimento, mudou de bandeira e pediu a saída do Food Park Carioca. Em troca, ofereceu outro estacionamento do grupo, em Vila Isabel. Em agosto do ano passado, Bruno fez a mudança de local. Mas não foi a mesma coisa, até porque, a pandemia ainda estava (e está) no ar.


“O Food Park foi um divisor de águas para aquela região da Tijuca, que não tinha nada, apesar do alto potencial de consumo. Muitos estabelecimentos acabaram se instalando por perto. Toda uma área ganhou uma nova vida”, comenta Bruno que se inspirou em um empreendimento similar que conheceu em São Paulo, quando o seu então trabalho na área de petróleo o obrigava a constantes viagens do Rio de Janeiro para lá.


Quando decidiu ter o próprio negócio, ele levou quase um ano para tirar do papel o FPC. Não existia nem alvará previsto, na prefeitura, para o tipo de empreendimento que estava tentando montar.


Inicialmente, ele imaginou que atrairia e fidelizaria o público com a rotatividade dos trucks e a constante oferta de novos produtos. Qual foi sua surpresa quando, logo no início, as pessoas começaram a reclamar por não estarem encontrando as mesmas coisas da semana anterior.


Bruno admite que essa mudança de operação de rotativa para fixa quase quebrou o negócio, mas fez os ajustes com o “carro em movimento” mesmo. Ele estima que cerca de 200 food trucks e 400 bikes estacionaram ao longo dos cinco anos de funcionamento do FPC. Shows foram realizados dois mil. Várias marcas de cerveja artesanais se lançaram no local que recebeu o primeiro container da Bodebrown fora da “casa” da cervejaria, em Curitiba (PR).


Um segundo Food Park já tinha sido estruturado por Bruno, para funcionar na Ilha do Governador, quando chegou a pandemia. Em março do ano passado, o FPC, na Tijuca, operava com sua capacidade máxima de 25 operações fixas. Em agosto, em Vila Isabel, eram 18, que passou para 10 em fevereiro passado.


“Decidi fechar porque não há previsão de uma volta à vida normal, por conta da pandemia. Tínhamos uma despesa muito alta para pouco movimento. Já chorei muito, fiquei muito triste, mas não fechei por incompetência ou irresponsabilidade. Fica a lição que é possível empreender de forma correta, tratando fornecedores, colaboradores e público de forma respeitosa e transparente”, afirma Bruno que planeja abrir uma boutique de carnes.


Como saldo, ele colocou à venda 430 itens como coifa, motores, televisores, mesas, cadeiras, palco e grades. Quem quiser conhecer os produtos deve mandar uma mensagem para Bruno pelo direct do perfil do FPC no Instagram.


Il Piccolo


Quem conheceu o Il Piccolo Biergarten, na Lapa, sabia que, de piccolo, o local nada tinha. O amplo espaço recebeu esse nome por ser a segunda loja de um bem-sucedido negócio, no Centro do Rio de Janeiro, o Il Piccolo Café e Sorveteria.

Essa história começa em 2008, quando uma alemã radicada no Rio de Janeiro, abriu uma pequena cafeteria na rua do Carmo. Ela tirou da gaveta receitas de família e passou a abastecer o local com tortas alemãs. O público gostou tanto que passou a pedir comida e bebida típicas da terra de Anne.


“Naquela época, o que tínhamos no mercado eram cervejas belgas e alemãs e passamos a vender na cafeteria, principalmente, as alemãs. Um pouco mais tarde, começamos a colocar também algumas marcas nacionais que começavam a surgir no sul do país”, conta Débora Cerqueira que começou como gerente na cafeteria e se tornou sócia do Piccolo da Lapa.


A segunda loja surgiu para que Anne finalmente atendesse os pedidos de servir comida alemã. Era para terem se instalado no bairro do Flamengo, mas só encontraram um local que atendia as expectativas na Lapa. E essa expectativa passava por uma área ao ar livre para que pudesse funcionar um biergarten.


O Piccolo da Lapa foi inaugurado em 2014, depois de um ano de obras. O local era um galpão onde funcionava uma oficina mecânica. O sucesso da nova casa foi proporcional à queda do movimento da primeira. As obras para a implantação do VLT transformaram o centro do Rio de Janeiro em um festival de tapumes e o público foi desaparecendo. Em 2016, Anne vendeu a loja na rua do Carmo e voltou para Alemanha. Ex-bancária, Débora, então, assumiu totalmente o Piccolo da Lapa.


O local se tornou uma referência em cerveja artesanal. O cardápio oferecia mais de 150 rótulos, sendo 20 alemãs que eram “sagradas”. As festas inspiradas na Oktoberfest lotavam o local e ainda tomavam a estreita Rua dos Inválidos.


O esvaziamento econômico do Rio de Janeiro começou a colocar água no chope do Piccolo. Empresas que funcionavam no entorno fecharam ou se mudaram. A Lapa, que experimentou bons anos de renascimento cultural, começava a decair. O movimento do “alemão da Lapa” começava a cair.


Débora duelou contra o pouco movimento durante todo o ano de 2019. Em março de 2020, fechou por “ordens” da pandemia. Meses depois, quando pode reabrir, ainda sem permissão de receber público, tentou adaptar o restaurante para o delivery, mas sua estrutura não acompanhou o tipo de operação. Resolveu fechar enquanto ainda podia honrar o pagamento dos funcionários.


Em fevereiro passado, ela desmontou o restaurante e levou tudo para um depósito. Mobiliário, ar condicionado, câmara fria são alguns dos itens colocados à venda. Quem quiser conhecer os produtos deve mandar uma mensagem para Débora pelo direct do perfil do Il Piccolo Biergarten no instagram.


“Aprendi sobre cerveja artesanal trabalhando. Em 2017, fiz o curso de beer sommelier. O Science of Beer escolheu o Piccolo para fazer seus cursos no Rio de Janeiro. E a cada edição, acabava sendo uma revisão para mim e para meus funcionários. Tudo era feito no restaurante com muito capricho e dedicação”, afirma.


Débora pensa em voltar “para o jogo”, mas só em 2022. Na sua opinião, 2021 será “outro ano perdido”. Uma coisa ela tem certeza, se vier, realmente, a ter outro estabelecimento: será fisicamente piccolo, de verdade.



Foi no Il Piccolo Biergarten a estreia do Talk Chopp com a Lupulinário, em 2018. A ideia do bate-papo cervejeiro ao vivo com os responsáveis pelas marcas artesanais do Rio de Janeiro e Niterói foi prontamente acolhida pela Débora.


Com a pandemia, o evento se tornou o Talk Chopp Live no Instagram






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