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Exposição no Rio tem a alimentação como guia para conduzir o público por milhares de anos da civilização chinesa

  • Foto do escritor: Sônia Apolinário
    Sônia Apolinário
  • 23 de jun.
  • 6 min de leitura

Representação de um zun, recipiente para armazenar e servir vinho, escavado de uma tumba dos períodos Wei-Jin (séculos III-V d.C.), em Jiayuguan, província de Gansu
Representação de um zun, recipiente para armazenar e servir vinho, escavado de uma tumba dos períodos Wei-Jin (séculos III-V d.C.), em Jiayuguan, província de Gansu

"Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga" é a exposição que será aberta ao público, no próximo sábado (27), no Museu Histórico Nacional, no Rio. A entrada é gratuita.


Como parte da programação do Ano Cultural Brasil-China, a mostra convida o visitante a percorrer milhares de anos da civilização chinesa a partir de uma de suas expressões mais fundamentais: a comida. Para isso, expõe 120 objetos oriundos do Museu Nacional da China, em Pequim. O mesmo museu, neste momento, apresenta uma exposição com obras do artista plástico brasileiro Candido Portinari.


Dez mil anos


No Rio, a exposição cobre um período de aproximadamente dez mil anos, que vai da pré-história agrícola chinesa ao ano de 1911, quando se encerra a dinastia Qing e, com ela, a China imperial. É esse o recorte: a China antiga, anterior à república e às transformações do século XX.


A observar a diversidade de materiais dos 120 objetos: cerâmica, bronze, porcelana, ouro, prata, jade, pedras preciosas, laca e madeira. De acordo com os organizadores, dentre as peças de maior interesse histórico estão vasos rituais em bronze das dinastias Shang, Zhou Ocidental e do período das Primaveras e Outonos, alguns com mais de três mil anos.



Objetos de cerâmica


Nesses objetos está inscrita a gramática do poder ritual chinês: o ding para cozinhar e oferecer alimentos, o you e o gu para armazenar e servir vinho, o gui e o xu como recipientes de comida para cerimônias. Exibir determinado número de ding e gui à mesa era protocolo: os utensílios diziam, antes de qualquer palavra, a posição social de quem estava sentado ali.


As porcelanas da dinastia Qing (1644-1911) formam outro grupo de destaque. Peças de famille rose com acabamentos extremamente delicados, tigelas pintadas à mão com motivos de pêssego, morcego e lótus, conjuntos de chá em esmalte sobre jade e as xícaras de barro zisha, feitas na cidade de Yixing, revelam o quanto a cultura do chá gerou um universo estético autônomo, com objetos desenvolvidos especificamente para cada etapa do preparo e do consumo.



Objetos de jade e bronze


Há também peças em ouro das dinastias Liao e Yuan que raramente saem de Pequim: uma tigela dourada com motivo de três gansos selvagens e flores, uma jarra de pescoço longo com padrão de flores entrelaçadas e um prato em forma de begônia. As peças em jade, material de profundo significado cultural na China e associado a virtudes como pureza, nobreza e longevidade, comparecem em utensílios de uso prático e em objetos claramente cerimoniais.


Entre as peças em prata estão um suporte de chá em prata dourada com motivo de pétalas de lótus, datado da dinastia Tang, e uma jarra em prata dourada com relevos de pássaros, animais e flores, também Tang. Dois conjuntos de lacas pintadas e um serviço de porcelana de doze peças com flores e borboletas completam o universo de objetos de mesa e banquete que a mostra apresenta.


- Cada peça do acervo é um fragmento de como os chineses pensavam o mundo, organizavam o poder, cultivavam o prazer e negociavam com o sagrado. Representa, também, a possibilidade de construir pontes culturais capazes de ampliar horizontes e estimular novas formas de compreensão do mundo contemporâneo. Que esta mostra seja, para o público brasileiro, uma experiência de descoberta, encontro e reflexão - afirmou o diretor do MHN, Cícero de Almeida.


Cinco núcleos



Doces encontrados em escavação de uma tumba da dinastia Tang | 618-907 d.C.
Doces encontrados em escavação de uma tumba da dinastia Tang | 618-907 d.C.

A exposição teve seu percurso organizado em torno de cinco núcleos temáticos.


O primeiro tem como tema "Uma alimentação variada como base da nutrição". Tem como ponto de partida uma "afirmação arqueológica": a China figura entre os berços do cultivo do arroz e do milheto, e é também uma das regiões mais antigas do mundo na domesticação de animais como o porco e a galinha.


Por volta de quatro mil anos atrás, chegaram ao território chinês, vindos da Ásia Ocidental, o carneiro, o gado bovino, o cavalo e o trigo, ampliando progressivamente a diversidade alimentar de uma civilização que já era rica antes mesmo desses contatos.


Os textos de parede desse núcleo evocam o "Clássico Interno do Imperador Amarelo", obra de referência da medicina e do pensamento chinês antigo, para sintetizar essa filosofia alimentar: “Os cinco grãos nutrem, os cinco animais enriquecem, os cinco frutos auxiliam e os cinco vegetais complementam”. Uma dieta fundada na variedade, mas também numa ideia de equilíbrio que atravessa toda a cultura chinesa clássica.


O núcleo seguinte, "Alimentos cozidos e bebidas quentes", lida com uma das mais antigas fronteiras simbólicas da humanidade: a que separa o cru do cozido. Para os antigos chineses, o domínio do fogo era uma questão técnica, mas, sobretudo, um marco civilizatório. As dezenas de técnicas culinárias desenvolvidas ao longo dos milênios, vapor, fervura, salteado, fritura, assado, cura, fermentação, constituíram um repertório sem paralelo. Dois métodos são considerados invenções propriamente chinesas: o cozimento no vapor e o salteado no wok.


Esse núcleo também dedica espaço às bebidas quentes. O vinho aparece aquecido, prática que tem uma razão técnica: o calor elimina o metanol, tornando a bebida mais segura. E o chá comparece em toda a sua complexidade. Há um vídeo sobre o método do chá batido, uma das formas mais antigas de preparo, que pouco tem a ver com a infusão em saquinho que o Ocidente popularizou. Objetos das dinastias Tang e Song e trechos de poemas de Bai Juyi, um dos maiores poetas da literatura chinesa, aparecem ao longo deste núcleo.


No terceiro, "Reverenciar o Céu e cumprir os ritos", a alimentação ganha dimensão política e espiritual. Na China antiga, os ritos tinham sua origem na comida e na bebida. As peças em bronze apresentam uma gramática do poder: a quantidade e o tipo de recipientes que um senhor feudal exibia em seus banquetes determinavam sua posição na hierarquia social.


O tripé ding, presente em exemplares de diferentes períodos, talvez seja o símbolo mais eloquente dessa transformação: de vasilha de cozinha a emblema do poder real. Os sinos de bronze que acompanhavam os banquetes da nobreza, o jogo de arremessar flechas em vasos que animava as reuniões letradas, as pinturas murais com cenas de banquetes da dinastia Han – tudo mostra como comer, na China antiga, era um ato profundamente político


O quarto núcleo, "Deleitar os olhos, apaziguar o espírito", apresenta outra dimensão dessa cultura: a recusa em separar funcionalidade e beleza. Os artesãos e artistas chineses produziram utensílios de mesa que eram, ao mesmo tempo, ferramentas cotidianas e obras de arte.


O percurso reúne cerâmicas pintadas do Neolítico, bronzes da Antiguidade, porcelanas imperiais de refinamento extremo, objetos em ouro e prata da dinastia Liao e peças em jade de diferentes períodos. A curadoria parte do entendimento de que a experiência de comer é também sensorial e estética, e que a beleza dos recipientes intensifica o prazer da comida.


O núcleo, "Beleza compartilhada em harmonia", fecha o percurso com a dimensão do intercâmbio. A cultura alimentar chinesa nunca foi fechada sobre si mesma. As nozes e a pimenta-do-reino chegaram pela Rota da Seda. A batata e o pimentão vieram das Américas. O arroz, o chá e o tofu migraram para o mundo. A porcelana chinesa influenciou as artes decorativas europeias e, ao mesmo tempo, a China incorporou objetos de ouro, prata e vidro de fabricação europeia.


É neste núcleo que aparece o capítulo sobre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro: a gravura dos agricultores chineses trazidos por Dom João VI, plantando as primeiras mudas de chá no Brasil, é um dos momentos mais próximos do público carioca, uma espécie de “carinho” curatorial incorporado ao percurso.


A exposição tem curadoria do próprio Museu Nacional da China. A instituição, fundada em 1912, tem sua sede na Praça Tiananmen, em Pequim e está entre os museus mais visitados do mundo. Com um acervo de mais de 1,4 milhão de peças, guarda a principal coleção de artefatos relacionados à história e à arte chinesas.


O Museu Histórico Nacional foi inaugurado em 1922. Ao longo de 104 anos de existência, formou um dos maiores e mais importantes acervos sob a guarda de um museu histórico no país, com mais de 300 mil itens.


Serviço

"Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga"

Local: Museu Histórico Nacional - Praça Marechal Âncora, s/nº, Centro

Período: 27 de junho a 11 de outubro

Horário de visitação: Quarta a domingo, das 10h às 17h (último acesso às 17h e encerramento às 18h)

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