Quebra-pedra: planta dará origem ao primeiro fitoterápico industrializado a ser utilizado em larga escala pelo SUS
- Sônia Apolinário
- há 34 minutos
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Os saberes de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares sobre plantas medicinais serão transformados em fitoterápicos.
Até o meio de 2026, o Brasil terá o primeiro fitoterápico industrializado desenvolvido a partir da planta Phyllanthus niruri — a popular quebra-pedra, tradicionalmente usada para auxiliar no tratamento de distúrbios urinários. Será o primeiro fitoterápico industrializado a ser desenvolvido e distribuído pelo SUS, no país, em larga escala.
O passo é pioneiro por colocar o conhecimento tradicional associado no centro da inovação, respeitando a legislação de acesso ao conhecimento tradicional associado.
Para viabilizar o produto e sua submissão regulatória na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), três parceiros se somaram. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) firmou acordo com a Fiocruz, por meio do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), para o desenvolvimento do fitoterápico a ser disponibilizado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Em complemento, foi assinado um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Instituto e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O ACT tem o objetivo de promover ações de estímulo à pesquisa e ao desenvolvimento de novos fitoterápicos, derivados da biodiversidade brasileira, para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Responsável pelos estudos com a planta, a pesquisadora de Farmanguinhos/Fiocruz, Maria Behrens, afirma que o produto será inovador e que não há no mercado um medicamento que atue nas diferentes etapas da litíase urinária (vulgo pedra nos rins), quando se formam cálculos no trato urinário.
- Nosso propósito é que a população se beneficie do fitoterápico na forma de um produto farmacêutico que, por ter processo padronizado e garantia de qualidade, pode evitar os riscos de preparações caseiras sem controle (como a troca de espécies, adulterações, baixo teor de ativos), que podem levar à ineficácia ou efeitos indesejados - explica a pesquisadora.
O desenvolvimento do fitoterápico vai representar um investimento de R$ 2,4 milhões que engloba desde a adequação de maquinário à compra de equipamentos e insumos, além de contratação de serviços e realização de visitas técnicas e estudos laboratoriais. O recurso é proveniente do Projeto Fitoterápicos, implementado pelo PNUD com financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e coordenação técnica do MMA.
- Esperamos impulsionar toda a cadeia produtiva, desde a produção sustentável de matéria-prima, do insumo farmacêutico ativo e do produto, atendendo às diretrizes da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos - informou a pesquisadora Maria Behrens.
Ao que a secretária nacional de Bioeconomia do MMA, Carina Pimenta, complementa:
- Quando o conhecimento tradicional associado é tratado como tecnologia e seu acesso se dá com consentimento prévio e informado e repartição de benefícios, a inovação ganha propósito. Com a parceria com a APOINME, reconhecendo detentores desse saber, viabilizaremos o primeiro fitoterápico de um laboratório público de acordo com as normas da Anvisa para ser disponibilizado no SUS, abrindo caminho para novos medicamentos que unam ciência, território e saúde pública.
Tradição do SUS
A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos foi aprovada por meio do Decreto Nº 5.813, de 22 de junho de 2006. O texto estabelece diretrizes e linhas prioritárias para o desenvolvimento de ações pelos diversos parceiros em torno de objetivos comuns voltados à garantia do acesso seguro e uso das plantas.
No âmbito das Plantas Medicinais e Fitoterápicos no SUS, em 2009 foi elaborada a Relação de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (ReniSUS). Nela, constam 71 espécies com potencial terapêutico.
O SUS já oferta à população, com recursos da União, Distrito Federal, Estados e Municípios, doze medicamentos fitoterápicos que constam da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename). Além desses, os municípios podem adquirir com recursos próprios outros fitoterápicos e outras plantas medicinais, mas que precisam ser prescritos por profissionais de saúde.
Os fitoterápicos que constam na Rename são:
Alcachofra (Cynara scolymus L.)
Aroeira (Schinus terebinthifolia Raddi)
Babosa (Aloe vera (L.) Burm. f.)
Cáscara-sagrada (Rhamnus purshiana)
Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek)
Guaco (Mikania glomerata Spreng)
Garra-do-diabo (Harpagophytum procumbens (Burch.) DC ex Meisn)
Hortelã (Mentha x piperita L.)
Isoflavona de soja (Glycine max (L.) Merr.)
Plantago (Plantago ovata Forssk.)
Salgueiro (Salix alba L.)
Unha-de-gato (Uncaria tomentosa (Willd. ex Schult.) DC.
Embora o SUS já ofereça outros fitoterápicos e reconheça o uso de plantas medicinais, o medicamento à base de quebra-pedra representa um avanço inédito na industrialização e padronização de um fitoterápico específico para a rede pública. Isso porque a "quebra-pedra" será o primeiro fitoterápico industrializado a ser desenvolvido e distribuído pelo SUS em larga escala.
Tradição popular
A quebra-pedra recebe esse nome popular por dois motivos principais: a crença de que ela "quebra" ou dissolve as pedras nos rins e o fato de que, em algumas variedades, ela costuma crescer em meio a pedras e muros.
Na verdade, a ação da planta está mais relacionada com a prevenção da doença. Isso porque ela ajuda a aumentar o citrato na urina, que previne a formação de cristais, e pode facilitar a passagem de pedras pequenas.
A planta também tem ação diurética:aumenta o fluxo urinário, auxiliando na eliminação de ácido úrico e toxinas.
Além dos problemas renais, a sabedoria popular afirma que a quebra-pedra também pode ser usada para:
Proteger o fígado e tratar afecções hepáticas.
Melhorar a prisão de ventre.
Apresentar propriedades diuréticas e anti-inflamatórias.
Auxiliar em casos de diabetes, ajudando a regular os níveis de glicose no sangue.
Seu uso é mais difundido por intermédio de chás.
Como fazer:
Ferva água e adicione a planta picada.
Deixe em infusão (abafado) por cerca de 10 minutos.
Coe e beba morno. Evite açúcar, se possível.
Geralmente, 1 xícara, 3 vezes ao dia, por até 3 semanas.
Uso Limitado: Não deve ser usado por mais de duas semanas seguidas para evitar perda de minerais e possíveis intoxicações.
Contraindicações: Evitar na gravidez e lactação (mulheres grávidas) e em crianças pequenas (pode afetar o crescimento e o leite materno).
Com Portal Fiocruz

























