Pensamento de Lélia Gonzalez guia a Festa Literária Internacional de Niterói
- Sônia Apolinário

- há 2 dias
- 4 min de leitura

Valter Hugo Mãe, Emicida, Conceição Evaristo e Ondjaki são alguns dos escritores confirmados para participar da Festa Literária Internacional de Niterói (Flin). O evento será realizado de 13 a 16 de agosto, no Reserva Cultural, em São Domingos, com entrada franca.
A homenageada desta edição é a antropóloga, filósofa e ativista mineira Lélia Gonzalez (1935-1994) que inspirou o tema da Festa: Territórios das Palavras.
A ideia é que o evento seja um espaço de circulação de ideias, encontros e reflexão sobre os diferentes territórios da palavra, reunindo autores nacionais e internacionais, artistas, intelectuais, estudantes, professores, pequenas editoras e novos leitores em torno de uma programação plural e acessível. A Festa se propõe a promover um diálogo entre literatura, música, teatro, audiovisual, jornalismo, cultura popular e produção acadêmica.
Como explicou Micaela Costa, presidenta da Fundação de Arte de Niterói (FAN), a escolha de Lélia Gonzalez orienta toda a construção da programação.
- Referência incontornável do pensamento brasileiro, a intelectual desenvolveu conceitos como amefricanidade e pretuguês, fundamentais para compreender as contribuições das matrizes africanas e indígenas na formação da identidade brasileira e latino-americana. Seu legado inspira mesas que atravessam literatura, relações raciais, feminismos, memória, educação, oralidade, diversidade, políticas culturais e formação de leitores - afirmou.
E acrescenta:
- Territórios das Palavras nasce da compreensão de que toda narrativa parte de um lugar, de uma experiência e de uma história. Queremos que a festa seja um espaço na qual diferentes vozes se encontrem, sejam ouvidas e ampliem nosso olhar sobre o país e sobre nós mesmos.
Na programação
De acordo com os organizadores, a edição de 2026 da Festa contará com as seguintes presenças: Emicida, Ana Maria Gonçalves, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Conceição Evaristo, Lilia Schwarcz, Ana Maria Machado, Rosiska Darcy, Ruy Castro, Cidinha da Silva, Luiz Antonio Simas, Tatiana Salem Levy, Mariana Salomão Carrara. Os convidados internacionais são os angolanos Ondjaki e Valter Hugo Mãe, cujo mais recente livro, "O século dos imbecis", foi o vice-campeão de vendas na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026.
Na Flin, a literatura vai dialogar com outras linguagens artísticas. A música está representada por Teresa Cristina, MC Marechal, Tati Quebra Barraco e Michael Sullivan.
O teatro, a televisão e o cinema também integram a programação, com participações dos atores Paulo Betti, Fabiana Karla e Dadá Coelho, além da diretora de cinema e TV Rosane Svartman, aproximando diferentes formas de criação e narrativa.
A programação também traz intelectuais, pesquisadores e comunicadores que fortalecem o diálogo entre literatura e sociedade. Participam da edição Jessé Souza, sociólogo e um dos principais intérpretes das desigualdades brasileiras; Ynaê Lopes dos Santos, historiadora especializada em escravidão e relações raciais; as jornalistas Ana Paula Araújo, Carol Raimundi e Luciana Barreto; o jornalista Mario Magalhães; Giovanna Heliodoro, pesquisadora e influenciadora que debate gênero, raça e direitos humanos; Geni Núñez, ativista indígena guarani; Laura Pires, escritora e professora, com foco em relações interpessoais, comunicação e saúde social, e Midiã Noelle, jornalista e pesquisadora, que atua na interseção entre comunicação e justiça racial.
Sobre Lélia Gonzalez
Lélia Gonzalez (Belo Horizonte, 1 de fevereiro de 1935 — Rio de Janeiro, 10 de julho de 1994) é uma referência nos estudos e debates de gênero, raça e classe no Brasil, América Latina e pelo mundo, sendo considerada uma das principais autoras do feminismo negro no país.
Foi pioneira em tudo que fez: ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Olodum.
Lélia era a décima-sétima filha de 18 irmãos, entre eles Jaime de Almeida, que jogou pelo Flamengo. A oportunidade que o irmão recebeu para entrar para o clube foi o que permitiu que a família de Lélia se mudasse para o Rio de Janeiro em 1942, em busca de melhores condições de vida. O ex-jogador e ex-treinador do Flamengo, Jayme de Almeida Filho, é sobrinho de Lélia.
A estreia de Lélia Gonzalez no mercado editorial foi na década de 1960 com a tradução de textos filosóficos como o Volume II da coletânea "Compêndio moderno de Filosofia".
Seu primeiro livro autoral foi "Lugar de Negro", publicado em 1982, em parceria com Carlos Hasenbalg. A obra apresenta um panorama histórico do modelo econômico de 1964, com a inserção da população negra neste cenário e o resgate histórico dos movimentos sociais negros. Em 1987, no livro "Festas Populares", Lélia registrou a diversidade das manifestações culturais brasileiras.
Lélia foi casada com Luiz Carlos Gonzalez. A família do marido, de origem espanhola, não aceitou o casamento. Ele rompeu com a família e se matou um ano após o matrimônio. Ela manteve o sobrenome do marido como uma forma de homenageá-lo. Lélia morreu aos 59 anos, em sua residência no bairro carioca de Santa Teresa , vítima de um infarto decorrente de problemas cardiovasculares.
ABL
Este ano, a Festa Literária Internacional de Niterói inaugura sua articulação com duas instituições essenciais às letras. A Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Biblioteca Nacional apoiam a realização do festival e participam da programação, com a presença de 14 acadêmicos da ABL, distribuídos em diferentes mesas ao longo dos quatro dias, além de um encontro especial dedicado à Academia. Antônio Carlos Secchin, Antônio Torres, Geraldo Carneiro, Godofredo de Oliveira Neto, João Almino, Paulo Henriques Britto e Ricardo Cavaliere são esperados na FLIN.
A curadoria foi feita de forma coletiva por Vilma Piedade, Elisa Ventura, MC Marechal, Edu Krieger, Carla Portilho, Jordão Pablo de Pão e Jackson Jacques, coordenador-geral da FLIN.
O Reserva Cultural de Niterói fica na Av. Visconde do Rio Branco 880, em São Domingos.
A programação completa com os respectivos horários ainda não foi divulgada pelos organizadores
































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