Movimentação suspeita nas votações faz Pão de Açúcar mudar regra da 4ª edição do Festival de Microcervejarias

As regras da 4ª edição do Festival de Microcervejarias Pão de Açúcar mudaram em pleno “jogo”. Ao contrário do inicialmente anunciado, agora, somente as duas cervejas mais vendidas, até o próximo dia 30, passarão a fazer parte do sortimento regular do supermercado, durante todo o ano de 2020. Antes, a mais votada pelo público também teria seu lugar garantido nas gôndolas. O motivo da mudança: foi detectada uma movimentação suspeita nas votações.

 

O Festival foi lançado no último dia 3. Uma semana depois, a rede de supermercados cancelou a votação popular como quesito da competição. Antes de tomar essa providência, “zerou” por duas vezes votações suspeitas. O resultado final está previsto para ser divulgado até o dia 6 de novembro.

 

“Chegou a acontecer de cervejaria que estava com 500 votos aumentar sua votação uma média de 50 votos por minuto. Outra, em duas horas, passou para dezena de milhares de votos e, depois, a votação parou de crescer. Ficou bem evidente que havia um padrão anormal nessas votações”, conta Gustavo Barreira, CEO da Leuven, cervejaria de Piracicaba (SP) que tem 14,4 mil seguidores no Instagram.

 

A marca, em cinco dias de votação, alcançou 6 mil votos. Essa performance  pode ter causado estranhamento entre os concorrentes? Gustavo até admite que sim, mas ele tem uma explicação para o elevado engajamento da sua cervejaria na campanha: o fato da Leuven ter 700 sócios, provenientes de três rodadas de equity crowdfunding.

 

“Desde o primeiro dia, nossa comunidade se empenhou na votação. Todo o nosso engajamento está registrado nos nossos grupos. Quando vimos as movimentações estranhas orientamos os sócios que manteríamos nossa campanha sem apelação”, comenta.

 

No seu entendimento, a votação popular tem como objetivo “fazer uma badalação” para o Festival – badalação, esta, que o CEO da Leuven encara como algo positivo.

 

“O crescimento da cerveja artesanal, no Brasil, passa pelo grande varejo porque as pessoas se habituam a ver o produto. É diferente de ser um negócio nichado, escondido. Acho a iniciativa legal e até a edição anterior, foi tudo bem”, diz. “Gostam de criticar os grandes, mas na hora que a artesanal tem chance de fazer diferente, não faz”.

 

Na opinião de Bianca Buzin, diretora da Noi (28,7 mil seguidores no Instagram), a mudança da regra no meio do jogo vai prejudicar as marcas:

 

“Investimos recursos e tempo em uma campanha para ganharmos votos. Agora, teremos que redirecionar tudo para uma campanha de vendas. Ainda estamos definindo como vamos fazer. Com certeza, já fomos prejudicados. Vou continuar cobrando uma atitude dos organizadores”, afirma ela, uma das diretoras da marca de Niterói (RJ).

 

De acordo com Bianca Buzin, o festival representa a entrada da Noi em uma rede nacional de supermercados – até o momento, a marca está presente em estabelecimentos regionais.

 

“A gente se sente bobo por fazer as coisas direito, mas é assim que se constrói boa reputação”, afirma.

 

Junior Bottura, da Avós (SP - 18,3 mil seguidores no Instagram) também não se conforma de ter visto seu esforço em desenvolver e investir em uma campanha para conseguir votos ir pelo ralo. Ele conta o que aconteceu:

 

“Duas marcas bateram 60 mil e 30 mil votos e não paravam de crescer.  Esses votos foram zerados e, no dia seguinte, todos apareceram com 8,5 mil votos. Eu , na mesma hora, avisei que não correspondia à minha planilha, que eu tinha 2,9 

mil votos. Se foi uma marca que fez isso, é muito triste, mas não temos provas de nada e não dá para julgar. Prefiro acreditar que foi alguém de fora que quis zoar o festival”

 

Na principal ação para engajar o público, Junior acionou sua famosa avó Maria, em pessoa,

que gravou um vídeo pedindo votos para seu netinho. O dono da marca observa que, por mais que não tenha pago cachê para sua avó, pagou a conta da produção do vídeo, feito por uma equipe profissional. 

 

A questão preço é o que faz com que acredite que a Avós terá dificuldade para vencer no quesito vendas. Ele sabe que tem rótulos mais baratos do que os seus, por serem de cervejarias que produzem em escala maior. Mesmo assim, acha positiva sua participação no festival:

 

“Tirando essa questão da votação, todo o resto foi bem explicado e está sendo bem executado.  O problema não tira o mérito do evento. Como solução, cheguei a sugerir que a votação popular passasse a ser feita de maneira presencial, entre os clientes da rede. É uma lição que fica para todos nós”, diz ele.

 

Alexandre Willerding, gerente comercial da cervejaria Bierbaum, de Treze Tílias (SC), conta ter sido informado pelo Pão de Açúcar que o cancelamento da votação popular aconteceu porque o “sistema que fazia a contagem foi corrompido por uma ação externa”:

 

“Achei que tivesse sido ação de algum hacker”, comenta.

 

Ele afirma não se sentir prejudicado com a mudança das regras. Conta ter feito, até agora, ações online e físicas para divulgar a marca, mas passará a focar na venda. Uma das ações foi promover sete sorteios de kits da cervejaria. Para concorrer, é preciso votar na marca. A Bierbaum  tem 28,7 mil seguidores no Instagram. 

 

 

 

 

“Para nós, já valeu a experiência, independente do resultado, porque estamos recebendo um ótimo retorno das pessoas. Quem só conseguia comprar nossa cerveja pela internet está conseguindo comprar perto de casa. Somos pequenos diante do Pão de Açúcar e, até agora, só vejo a participação no festival de forma positiva”.

 

 

 

 

 

 

Para Gilberto Tarantino, a mudança das regras não afetará a participação da sua cervejaria no festival. Segundo ele, desde o início, seu foco foi promover degustações nas unidades da rede:

 

"Não depositamos muita energia para pedir votos. Vi que outras marcas fizeram campanhas, até bem divertidas. Temos conhecimento que existem programas que compram CPF para impulsionar isso. Não tenho tempo e nem faz parte do nosso perfil usar esses recursos. Acho que, como existem empresas que vendem esses programas, fica até mais equilibrado não ter o voto popular. Para a gente, não teve crise”, afirma o responsável pela cervejaria Tarantino, marca paulista com 15,5 mil seguidores no Instagram.

 

Segundo ele, o festival representa uma exposição nacional para a Tarantino, mais conhecida em São Paulo, onde a cerveja é produzida e comercializada.

 

“Nunca tivemos a pretensão de ganhar esse tipo de disputa. Não temos a pretensão de continuar no Pão de Açúcar porque ainda somos muito pequenos. Ainda estamos aprendendo a lidar com as grandes redes. Tem custos que a gente desconhecia e, portanto, não estavam na planilha. Ficamos contentes, lisonjeados, de termos sidos convidados e a experiência é válida, mas não é o objetivo do ano”, afirma Gilberto Tarantino.

 

 

Fernanda Lazzari, da Morada Etílica (Curitiba, PR), admite ter ficado aborrecida com os acontecimentos, mesmo acreditando não ter sido prejudicada:

 

“A mudança da regra foi necessária, diante do que aconteceu. Sou uma marca cigana, pequena. Certamente não estaria entre as três mais votadas do público. Porém, não dá para ficar satisfeita vendo uso de métodos desonestos que claramente não fazem sentido”, diz ela que é a responsável pela marca que tem 12,5 mil seguidores no Instagram.

 

Fernanda conta que, desde o início, seu objetivo foi promover  as características da sua cerveja. Assim, ela não pensa em alterar sua estratégia para o restante da disputa.

 

 

 

 

 

Na carioca Jeffrey, a estratégia para participar do festival também foi vendas, desde o início, segundo Gilson Val, um dos sócios da marca, que tem 19,7 mil seguidores no Instagram . Tanto é assim que usaram o festival para lançar dois rótulos. Além disso, conta, produziram os outros o mais próximo possível da data de entrega das bebidas para garantir produto o mais fresco possível, no mercado, durante a competição.

 

Ele conta ter ficado surpreso ao ser informado da mudança das regras, mas que não sabe  “exatamente o que houve”:

 

“Para nós, é mais importante levar a cerveja para um público que não alcançávamos. Temos uma demanda reprimida a nível nacional e o festival foi uma grande oportunidade. Estávamos bem na votação e é claro que gostávamos disso, mas não era o nosso foco”, diz ele.

 

Gilson Val afirma quer ver sua Jeffrey ficar "mais do que um ano" nas prateleiras do Pão de Açúcar. O Festival, para ele, é a primeira aproximação do rótulo com locais, no país, aonde não chegava.

 

“Focamos em fazer um bom trabalho. Fizemos a cerveja para o festival com o preço mais acessível possível. Quero começar a construir uma maior aproximação com o público e o festival nos dá a oportunidade de irmos mais longe”, observa.

 

 

A cervejaria Orchid (SP – 486 seguidores no Instagram) é uma marca da Distribuidora Dádiva.

Luiza Tolosa (Dádiva), acredita que a nova cervejaria não foi prejudicada com a mudança das regras: 

 

"Infelizmente, pelos problemas que aconteceram, acho que foi a melhor opção. Claro que isso impacta em ações e investimentos já definidos. Mas tendo em vista o ocorrido, acreditamos que tenha sido a melhor decisão", comenta.

 

 

 

 

 

 

Pensamento semelhante tem André Franken, Socio-fundador  da Unicorn (SP - 2.440 seguidores no Instagram):

 

“Acreditamos que a postura (da rede) é boa, já que uma ação fora do padrão foi detectada. E a escolha pelo ranking de vendas talvez seja a melhor medida do quanto o público gosta ou não de uma marca.“

 

 

 

 

 

 

Pão de Açúcar

 

Procurada pela Lupulinário, a rede de supermercado, por intermédio da sua assessoria de imprensa enviou, por e-mail, o seguinte informe para a coluna:

 

“Como informado desde o lançamento do 4º Festival de Microcervejarias, usaremos como critério de escolha a cerveja mais vendida na rede Pão de Açúcar (lojas físicas e e-commerce) no período da ação (03/10 a 30/10/2019). Optamos por não usar mais o critério de votação pelo site como fator de decisão, o que já foi conversado com todas as microcervejarias participantes. No lugar, a 2ª cerveja mais vendida, também será comercializada em toda a rede no período de 1 ano”.

 

Também participa da  4ª edição do Festival de Microcervejarias Pão de Açúcar a Doktor Brau (MG - 20,5 mil seguidores no Instagram).  A coluna entrou em contato com a marca, mas não obteve retorno.

 

Na terceira edição, as vencedoras foram Prime Bier (SP - mais vendida, atualmente com 19,9 mil seguidores no Instagram ) e Three Monkeys (RJ - mais votada pelo site, atualmente com 36,6 mil seguidores).  Até o cancelamento da votação popular da 4ª edição, os mais votados eram Leuven, Noi e Avós, nesta ordem.

 

A rede de supermercados conta com a curadoria da sommelière de cerveja Kathia Zanatta para auxiliar na seleção dos produtos a serem comercializados. Na apresentação do 4º Festival, consta a informação que as marcas selecionadas para o evento “já conquistaram diversos prêmios e apresentam uma grande variedade de opções da bebida”.

 

 

 

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