Lama de Brumadinho chega a Paraopeba levada pelo rio que batiza a cidade

A lama formada por rejeitos de minério criada a partir do rompimento da barragem mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), está prevista para chegar, hoje,  ao município de Paraopeba, levada pelo rio que batiza a cidade. A expectativa tanto da prefeitura quanto dos moradores é ver como essa lama vai se “comportar” na sua passagem por lá.  Paraopeba é praticamente o final da linha do rio. Depois da cidade, o caminho da água vai encontrar pela frente duas usinas hidrelétricas. Para além delas, o que existe é o rio São Francisco, que tem no Paraopeba um dos seus principais afluentes. Por Whatsapp, Comunic conversou com o prefeito Juca Bahia; o secretário de Agricultura e Meio Ambiente Márcio Túlio e o técnico em projetos de engenharia Fernando Avelar que está prestes a perder sua chácara para a água contaminada. Paraopeba, o rio, é responsável pelo abastecimento da cidade – abastecimento há dias interrompido.

 

 

 

A bacia do rio Paraopeba cobre 13.643 km² e 35 municípios. Reúne, segundo o Censo de 2010, uma população urbana de cerca de 1,2  milhão de pessoas, mais 90 mil na área rural. A cidade de Paraopeba tem 600 km² e 26 mil habitantes. Gira uma economia de R$ 350 milhões por ano com atividades na indústria têxtil, mineração de ardósia, agricultura e pecuária, que contam com a “ajuda” do rio para serem realizadas.

 

“De imediato, tivemos que parar com a captação de água. Por enquanto, nosso abastecimento está vindo de um pequeno córrego e poços artesianos. Estamos no período das chuvas. Até maio não deveremos ter problemas de abastecimento. Depois, porém, vem o período da seca. Cortar o abastecimento foi medida emergencial. É provável que tenhamos que furar novos poços. Ainda estamos fazendo levantamentos. O mais importante é monitorar a água do rio”, afirma Bahia que se elegeu pelo PSDB e está em seu primeiro mandato.

 

O município de Paraopeba fica a 131,6 km de distância de Brumadinho. O prefeito conta que, quando começaram a circular informações sobre o rompimento da barragem,  no dia 25 de janeiro, foi quando vivenciou o “momento mais assustador” desse período. Isso porque havia muitas dúvidas e especulações de como a lama chegaria na cidade: como uma onda ou inundando suas margens. Agora, ele diz que seu sentimento é de impotência.

 

O rio Paraopeba tem 510 km. Sua nascente fica no município de Cristiano Otoni e a foz está na represa de Três Marias, em Felixlândia, distante 95,9 km do município de Paraopeba. Inaugurada em 1962, forma um reservatório de 21 bilhões de metros cúbicos de água. Operada pela Cemig, tem capacidade de geração de 396 Megawatt-hora.

 

 Três Marias                                                                Retiro Baixo     

                                                                                                                                                                      

 

Cinco quilômetros antes de  chegar até lá, as águas do rio passam por  uma primeira represa, Retiro Baixo, localizada entre os municípios  de  Curvelo e Pompeu, distante 73,5 km de Paraopeba.  Tendo  Furnas como sócia majoritária, foi construída em 2010. Tem capacidade de geração de 82 Megawatt-hora e 22, 58 km2 de área alagada.

 

No entorno da  Retiro Baixo existem cerca de 300 chácaras, cada uma com cerca de 500 m2, muitas delas pertencentes a moradores de Paraopeba  que buscam o local como área de lazer, principalmente para a prática da pesca. Tanto Retiro Baixo quanto Três Marias são complexos turísticos. Retiro Baixo, porém, deverá ser “sacrificada”. E a maneira como a lama vai passar por Paraopeba e chegar até lá é o principal motivo de preocupação.

 

 “Já começaram a esvaziar a represa. A ideia é conseguir parar a lama de Brumadinho ali para proteger o Rio São Francisco. Se isso vier mesmo a acontecer, o local vai acabar se tornando fantasma, uma vez que o lago será formado por  lama e água contaminadas. Não vai ser possível a captação, nem a navegação e os peixes vão morrer”, comenta o técnico em projetos de engenharia Fernando Avelar, morador de Paraopeba, que costuma se refugiar na sua chácara no lago do Retiro Baixo para pescar e cuidar da pequena produção de caju, limão e laranja.

 

Ele conta que, se o quadro de “represa fantasma” se tornar realidade vai processar a Vale, responsável pela barragem de Brumadinho. Aos 60 anos, diz que está em uma fase da vida onde "só quer sossego", porém, está disposto a “dar  trabalho” para os responsáveis pelo crime ambiental que está afetando praticamente todo o estado de Minas Gerais.

 

Fernando não estará sozinho nessa iniciativa. O prefeito de Paraopeba está convencido que “cabe pedir indenização junto à Vale” pelos danos ambientais que a mineradora está causando à região, além do transtorno à vida dos moradores e de quem lida com agricultura e pecuária, por conta da falta de abastecimento.

 

Bahia lembra também que o lazer da população será afetado. Apesar da fama de rio

traiçoeiro por conta das correntezas e bancos de areia, o Paraopeba é a “praia” dos moradores. Sobre o significado do nome, há controvérsias. Para uns, significa, em tupi, rio raso; para outros, rio do peixe chato. A cidade, por pouco, não teve uma ilustre moradora. A cantora Clara Nunes nasceu na vizinha Caetanópolis, que já pertenceu a Paraopeba – e a cidade de origem da cantora costuma render uma rixa entre as duas localidades.

 

De acordo com o secretário Márcio Túlio, a Vale não encaminhou para o município nenhum comunicado, até o momento.

 

“Se a mineradora tinha um plano emergencial, não funcionou. Jamais poderiam ter permitido que a lama corresse o risco de chegar a Três Marias. A empresa parece meio perdida. Nós na prefeitura estamos fazendo os levantamentos dos prejuízos. Há um amadorismo gigante por parte da Vale”, afirma.

 

Mineração é uma atividade que faz parte da economia da própria Paraopeba, mas lá o foco é produção de ardósia. O prefeito, mesmo,  é dono de uma empresa desse segmento. E é com o resíduo da ardósia que ele pretende impulsionar o agronegócio da cidade.

 

“O pó da ardósia é um ótimo fertilizante. Sua utilização vai permitir baratear a produção e eliminar grande parte do uso de produtos químicos. É bom para o meio ambiente, para a mineração que dará um destino para o seu resíduo e para o agronegócio”, comenta ele que vai aguardar a passagem da lama de Brumadinho para rever seus projetos para a cidade. “Ninguém confia mais nas barragens. As cidades com barragens vão viver um período com uma sensação muito grande de insegurança”.

 

 

 

 

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