Game criado por terreiro de candomblé conta história dos orixás

Quatro aplicativos para celular, atualmente em desenvolvimento, estão previstos para serem lançados no final do ano. Seriam mais jogos para celulares se não fossem algumas particularidades. Primeiro, sua lógica não é vencer. O objetivo dos jogos é contar a história dos seus heróis, no caso, Orixás. Os aplicativos fazem parte de um projeto maior desenvolvido pelo Terreiro Ilê Axé de Oxum Karê, do Centro Cultural Coco de Umbigada de Olinda, Pernambuco. À frente da casa e do projeto, Mãe Beth de Oxum.

 

Esse projeto é o “Contos de Ifá”,  um game educacional tendo por base a religião de matriz africana. Ifá é um oráculo de origem iorubá composto por versos que contam a história dos Orixás, representações da natureza no panteão africano. O projeto prevê o desenvolvimento de 256 fases, número equivalente ao conjunto de versos que compõem o Ifá. Esse jogo começou a ser criado há sete anos.

 

 

“Andamos bem devagar. Temos muitas ideias e tem muita coisa por vir. O jogo tem seguido o tempo do Orixá que é quando ele quer. Nós temos uma ânsia, uma urgência, mas a natureza funciona devagar. E devagar se vai ao longe”, diz Ricardo Ruiz, sacerdote do terreiro e um dos desenvolvedores do projeto.

 

Tudo começou com a observação das crianças, muitas, que faziam (e ainda fazem) parte da rotina do terreiro. Todas atracadas com seus tablets, vivendo aventuras de jogos violentos. Ruiz conta que Mãe Beth, de 51 anos, pensou que poderia existir um jogo não violento, que despertasse o interesse das crianças ao mesmo tempo em que as deixassem mais próximas das tradições de sua própria cultura, em especial as religiões de matrizes africanas.

 

Já Ruiz, sócio de uma empresa de tecnologia, percebeu nessa ideia uma possibilidade para abrir portas profissionais para jovens da periferia de Recife, cidade que abriga, desde 2000, o Porto Digital. Trata-se do polo de tecnologia de Pernambuco e um dos principais parques tecnológicos do Brasil, que abriga, atualmente, 267 empresas que empregam cerca de 9 mil pessoas.

 

Ruiz conta que o terreiro todo foi convocado para tocar o projeto, de forma colaborativa, cada um contribuindo com sua expertise. O primeiro passo foi o desenvolvimento da plataforma. Depois, a criação e desenvolvimento dos roteiros dos jogos. Parcerias começaram a ser estabelecidas e foram criadas oficinas no terreiro, que fica no bairro de Guadalupe. Os aplicativos para celular estão sendo desenvolvidos em uma dessas oficinas, por 25 jovens, orientados por cinco educadores, tendo Ruiz como coordenador. Há dois anos, o terreiro, que é de Candomblé Nagô e Jurema, ganhou o prêmio de tecnologia social concedido pelo Banco do Brasil. Lá, desde 2008, funciona a Rádio Livre, com programação colaborativa, voltada para a “música e cultura pretas”, como fala Ruiz.

 

 

 

 

Até o momento, sete orixás já têm seus jogos. A ordem de criação seguiu “a tradição”, como ele observa. Ou seja, o primeiro foi Exu, orixá da Comunicação, da palavra, da ação, cujo mês de celebração é justamente agosto. É o mensageiro entre o mundo Divino e Humano. Em seguida vierem Ogum (senhor do ferro, da tecnologia), Odé (caçador, alimentação), Obaluaiê (doenças), Ossain (curas), Ibeji (crianças) e Oxumaré (riqueza). Os aplicativos em desenvolvimento são Oxum (amor), Iemanjá (mãe),  Iansã  (os mortos) e Xangô (justiça). Todos os jogos estão em português e iorubá.

 

 

 

 

“O game é uma brincadeira que ajuda a quebrar preconceitos e expande a nossa voz. Por outro lado, ter mais negros na produção de tecnologia, dar mais oportunidades para os jovens periféricos enriquece essa produção. Ainda temos muita coisa para fazer. Estamos esperando o tempo apontar novos caminhos”, afirma Ruiz que deu essa entrevista via WhatsApp. “O oráculo é o conhecimento acumulado dos nossos antepassados. Quem veio antes da gente sabe mais do que a gente. A nossa Terra é formada por calcário, que é formado por conchas. As conchas sabem de muitas coisas”.

 

Para conhecer os Contos de Ifá e jogar, clique aqui

 

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