• Sônia Apolinário

Um livro que é um programão de teatro

Dramaturgo, tradutor, escritor, roteirista e diretor. O carioca Flávio Marinho é quase sinônimo de teatro.

São 32 anos de carreira com uma intensa produção. Foi o trabalho como jornalista que o levou para os bastidores do palco. A paixão pelo teatro, porém, começou na infância. Criança, ele passou a colecionar os programas das peças que os pais assistiam. Há dez anos, se deu conta que tinha mais de 5 mil deles empilhados no apartamento onde mora, em Copacabana. Sabe o que ele fez? Um livro. Resultado: “Teatro é o Melhor Programa – um painel da cena carioca de 1973 a 2014” acabou de ser indicado para o prêmio da Associação dos Produtores de Teatro do Rio (APTR), na “categoria especial”.

Com quase 400 páginas, o livro, que levou dois anos para ser feito, apresenta as peças em ordem alfabética. Esse recurso, segundo Marinho, fez com que a obra resultasse em “um painel que o leitor vai montando ao longo do livro”. Por tabela, o trabalho conta um pouco da história da vida cultural carioca. E o saldo não é dos melhores. Marinho contabilizou que, em 1980, a cidade tinha 67 teatros. Vinte e cinco anos depois, 27 deles não existiam mais.

“O charme do Rio sempre foi ser um balneário com grande atividade cultural. Tínhamos os teatros, os cinemas de rua, as gravadoras de disco, as casas noturnas. No meu livro, a palavra que mais repito é `extinto`. Acredito que, por conta da violência urbana, o carioca se rendeu ao lazer doméstico. Só botequim vive lotado. Percebo que São Paulo tem um carinho todo especial pelos teatros. Agora mesmo, acabou de inaugurar o São Pedro”, comenta Marinho.

Em abril, quando a APTR anunciar os premiados, ele terá lançado mais um livro: “Flávio Marinho em Letra de Imprensa”. Nessa publicação, ele resgata seu trabalho de 14 anos como repórter de Cultura e crítico teatral, principalmente, em jornais como Tribuna da Imprensa, Última Hora (extintos) e O Globo. De quebra, vai contar um pouco da história do jornalismo do Rio de Janeiro e mostrar como o adolescente “perdido na faculdade de Direito” adentrou as redações dos maiores veículos de comunicação de uma época de eferverscência cultural da cidade.

A passagem de pedra a vidraça se deu a partir de 1985, com um convite para escrever o roteiro de um show. Dois anos depois, traduziu o musical “A Noviça Rebelde”, mega sucesso que acabou por ficar 12 anos em cartaz e o tornou o tradutor mais requisitado da cena carioca. Em 1998, escreveu seu primeiro musical, “Splish Splash”, protagonizado por Claudia Raia. Não parou mais.

Como dramaturgo, Marinho assinou cerca de 20 espetáculos de sucesso como “A Vingança do Espelho – a história de Zezé Macedo”, “Abalou Bangu” (1 e 2), “Cauby! Cauby" e “Estúpido Cupido”. Em todas as peças há sempre algum humor. Tem sempre também um pouquinho ou um poucão da história pessoal dele. "Além do arco-íris" (2010), por exemplo, tinha uma reflexão sobre a perda, que surgiu com o falecimento da mãe. Já “Academia do Coração” (2014) aborda o seu quase enfarto.

Um mês antes de sair o resultado da premiação da APTR , em março, ele estreia mais uma peça: o musical romântico “Um Amor de Vinil”, no Imperator, no Méier, Zona Norte do Rio. E até o final do ano, “Irmãozinho Querido” entra em cartaz. O musical será protagonizado por Françoise Forton e Mauricio Baduh. Conta a história de uma moça “maluquete”, dona de uma loja de vinis, que acaba se envolvendo com seu cliente mais frequente. Em cena, músicas dos anos 70 e 80.

“A nova geração de autores escreve muito, mas eles fazem peças de 50 minutos que jogam ideias para a plateia. Os textos não têm carpintaria. Na verdade, não têm história, as pessoas ficam falando para o público. Os stand ups atuais têm um humor agressivo, coisa que eu não sei nem quero fazer. Meu humor é irônico ou amoroso. Hoje está muito difícil produzir uma peça de teatro. A gente não sabe mais o que o público quer. Aquela produção média, que ficava um ou dois anos em cartaz, não existe mais. O público das temporadas acaba muito rápido. Eu vejo de tudo e percebo que, no teatro experimental, o público jovem está presente”, afirma Marinho.

Também em março, mais precisamente no dia 31, ele estreia na Sala Cecília Meireles, na Lapa, Centro do Rio, um show em que assina roteiro e direção. No palco, Olívia e Francis Hime cantam e tocam somente músicas de Vinícius de Moraes.

No segundo semestre, o próprio Marinho sobe ao palco, ao lado do músico Zé Renato e da atriz e cantora Soraya Ravenle. Há três anos, eles apresentam a palestra-show “História do Teatro Musical Brasileiro”.

“Um belo dia, Zé me convidou para fazer o roteiro desse espetáculo e eu topei na hora. Quando fui entregar o texto, ele me avisou que eu seria o narrador que ficaria no palco alinhavando as músicas. Levei um susto e fiquei em pânico. Sempre atuei nos bastidores. Porém, sempre fiz também ensaios abertos, perto da data das estreias. E nessas ocasiões, eu iniciava a noite conversando com o público e o pessoal se acabava de rir das bobagens que eu falava. Nunca levei isso a sério porque era algo improvisado. Até que vários atores começaram a falar que eu era um ótimo comediante. Por isso, inclusive, o Zé Renato inventou que eu ficaria no palco. Acho que de tanto dirigir, desenvolvi um timing de comédia como ator. Porém, eu mesmo não tinha percebido isso”, conta Marinho.

Ele pediu para não espalhar uma novidade. Porém, sou "obrigada" a contar que, em 2018, o dramaturgo vai assumir de vez seu lado ator e subirá no palco para estrear um show solo onde contará histórias engraçadas do teatro. São histórias que presenciou e que coleciona por todos esses anos. É claro que o texto já começou a ser escrito.

“Descobri que levo jeito para a coisa. O palco me acolheu”, afirma.

Ficar envolvido com vários projetos ao mesmo tempo é uma característica de Marinho, não é de hoje. Em paralelo ao seu trabalho no teatro, há projetos para a televisão. Há nove anos, ele integra o núcleo de roteiristas encabeçado pelo também ator e diretor Miguel Falabella, na Rede Globo. Novelas como “Negócio da China” e “Aquele Beijo” e séries como “Pé na Cova” e “Sexo e as Negas” levam sua assinatura.

No momento, tem uma série em que é co-autor, prontinha, com seus 12 episódios gravados, à espera de ir ao ar. “Brasil a bordo” deveria ter estreado no final do ano passado, mas saiu da grade da Globo por conta do acidente aéreo que matou o time e dirigentes do Chapecoense, além de jornalistas. A série, na definição de Marinho, é um “besteirol”. Todas as histórias são ambientadas dentro de um avião. No elenco, Miguel Falabella, Marcos Caruso, Arlete Salles e Stella Miranda. Continua, segundo ele, sem data para ir ao ar.

Arrematando esse jeito tudo-ao-mesmo-tempo-agora de ser, Marinho trabalha no roteiro de um filme também com Miguel Falabella. Sobre esse projeto, ainda não dá para adiantar nada, mesmo.

“A falta de formação de plateia, de educação está matando o teatro, pelo menos, no Rio. Nós continuamos a escrever, produzir, dirigir, atuar por amor. Porém, mais do que nunca, estrear uma peça é dar um salto no escuro”, afirma Marinho, dramaturgo, tradutor, escritor, roteirista, diretor e, em breve, ator.

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