• Sônia Apolinário

No sul do país, duas mulheres estão à frente da Insurreição

A cerveja artesanal passou de hobby para profissão para muitas pessoas. Poucas, porém, se arriscam a construir a própria fábrica. Menos ainda, a lançar uma nova marca no mercado em plena pandemia, já obrigando a uma redefinição do modelo de negócio. Resumidamente, essa é a história da cervejaria Insurreição, que tem como protagonistas a professora Márcia Barros de Candio e a advogada Thaís Funck de Oliveira; e a cidade gaúcha de São Francisco de Paula como cenário.


Foram dois anos dedicados à construção da fábrica e legalização da cervejaria. O MAPA saiu no final de 2019 e a Insurreição começou a “mostrar a cara”. Logo, porém, o Coronvírus bateu à porta. Se alguns planos mudaram, outros foram seguidos à risca e o resultado é um portfólio, em 2021, com seis rótulos: Helles, APA, Red Ale, Porter, Blond Ale com gengibre e English IPA com capim limão.


A principal responsável pelas receitas e por produzir a cerveja é Thaís. Porém, na verdade, as duas fazem tudo, no negócio. E pensar que foi um presente de aniversário o estopim de um movimento que resultou na criação da marca.


Para celebrar o primeiro ano do casamento, Márcia presenteou Thaís com um belo equipamento com capacidade de produção de 30 litros de cerveja caseira. Isso aconteceu há sete anos, quando moravam em Porto Alegre, a capital gaúcha, cidade natal de ambas.

Naquela época, as duas acompanhavam de perto a movimentação cervejeira que começava a explodir, na cidade. A produção caseira era para ser apenas um hobby para consumo doméstico.


“A cerveja artesanal me encantou pela possibilidade de sabores. Tem de tudo quanto é tipo para todos os gostos. Quando ganhei o equipamento, corri para a internet e fomos aprender a fazer a bebida em blogs cervejeiros. A primeira cerveja que fizemos, em 2015, foi uma Red Ale. Usamos uma receita já pronta e ficou muito boa. Isso nos deixou animadas. Mas foi sorte de principiante porque a segunda não ficou boa. Fizemos uma APA e contaminou. Entendi que era preciso aprimorar o processo”, conta Thaís.


Ela foi “acertando a mão” e, aos poucos, a produção começou a fazer sucesso entre os amigos. Tanto que as duas passaram a ser escaladas para levar a cerveja para os churrascos e, quando se deram conta, já estavam produzindo 60 litros “direto”.


Márcia arrisca que um dos motivos de sucesso da cerveja, desde aquela época, é a água que usavam. A família de Thaís é de São Francisco de Paula, que fica distante cerca de 40 Km de Canela e Gramado, e tem fama na região justamente pela qualidade de sua água. Como iam na cidade rotineiramente, carregavam água de lá para Porto Alegre para produzir cerveja.



O desencanto com as respectivas profissões fez com que elas olhassem para a produção caseira com outros olhos. Sonhos começaram a ser criados quando o padrasto de Thaís fez uma oferta que chamou as duas à realidade. Ele estava construindo um prédio em São Francisco de Paula e avisou que cederia uma sala para elas, caso quisessem construir uma pequena cervejaria.


Elas se mudaram. Thaís (à esquerda, na foto) largou o Direito para fazer um curso técnico de Química e, depois, se formou em beer sommelièr e mestre em estilos; as duas cursaram produção e tecnologia cervejeira avançada; Thaís se aprimorou em microbiologia e Márcia (à direita) foi estudar gestão de negócios. Para montar a fábrica, acharam por bem contratar um consultor.


Instalada em um espaço de 50 metros quadrados, a cervejaria tem capacidade de produção de 2,2 mil litros por mês. As donas moram no andar de cima da fábrica.


“O sucesso da nossa cerveja caseira nos animou, mas o espaço no prédio foi o que viabilizou o negócio”, comenta Márcia que não largou o magistério.


Por que escolheram o nome Insurreição para a marca ?

MBC: "Somos duas mulheres lésbicas que estavam tentando entrar em um mercado predominantemente masculino. Precisávamos de um nome forte para não sermos atropeladas. Chegamos em Insurreição e achamos que é bem apropriado, inclusive diante do panorama político atual”.


Tiveram alguma dificuldade inicial para comercializar as cervejas por serem produzidas por mulheres ?

TFO: “Toda marca nova as pessoas experimentam um pouco ressabiadas. Mas nossa principal dificuldade inicial foi com fornecedores de insumos. Eles tentavam nos dar volta, empurrar coisas diferentes do que pedíamos porque achavam que sabiam mais sobre produção de cerveja do que nós. Em relação aos pontos de venda, quando contávamos sobre a fábrica, se mostravam receptivos. Depois, se mostraram fechados, não porque somos mulheres, mas porque formam grupinhos. Isso nos deixou bem frustradas”.

Inicialmente, a ideia era comercializar Insurreição em chope, com venda para bares e pubs. Com a pandemia, se voltaram para o envase, colocaram as garrafas no carro e foram fazer entregas na rota São Francisco de Paula – Porto Alegre.


Elas tinham planos de participar de muitos eventos para divulgar a marca, mas isso não pode acontecer. O boca a boca, porém, se encarregou de despertar a curiosidade das pessoas em relação às cervejas. Atualmente, a English IPA com capim limão é o carro-chefe de vendas. E a Blond Ale com gengibre caiu nas graças das mulheres.


Então, fazer cerveja é fácil?

TFO: Fazer cerveja em casa não é difícil. Passar as receitas caseiras para a fábrica é bem complicado. O mais difícil é a repetitividade, é conseguir fazer a mesma receita sempre igual. Porque, se um rótulo é de linha, tem que entregar sempre a mesma cerveja. É nessa hora que se mostra a qualidade de uma marca”.


Enquanto ampliam o raio de venda, na região onde vivem, elas estruturam um novo projeto: produzir uma cerveja 100% nacional, a partir de insumos de pequenos produtores que cubram toda a cadeia produtiva da bebida.


“A pandemia mostrou que fugir do macro e impulsionar os negócios locais é o caminho. Acreditamos nessa ideia e queremos ir mais fundo nisso”, afirma Márcia.







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