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Livro desvenda o universo do blend na cachaça

No mundo da cachaça, “blendé o nome que se dá ao ato de misturar duas ou mais bebidas envelhecidas em barris de diferentes madeiras ou com tempos de maturação diferentes, em busca de uma nova bebida com mais personalidade. No livro A arte do blend na cachaça: do canavial ao copo, tudo o que é preciso saber para chegar à fórmula da perfeição , o master-blender, consultor e sommelier de cachaças, Manoel Agostinho Lima Novo desvenda os segredos desse universo. Co-Fundador e atual presidente da Cúpula da Cachaça, ele, porém, não escreveu pensando apenas nos iniciados.

Com 188 páginas, o livro traça um breve histórico do percurso dos destilados em geral e da cachaça em particular, além de ensinar a fazer um blend.


“O blend dá personalidade para uma bebida porque cada produtor escolhe as proporções que vai usar, cria sua própria alquimia”, comenta Manoel que, há 11 anos, escreveu seu primeiro livro, “Viagem ao Mundo da Cachaça”.


Blend não é exclusividade da cachaça. Várias bebidas se utilizam desse recurso. A questão é que, no caso da “marvada”, o blend, no início, tinha como objetivo apenas o lado comercial, a chamada “cachaça batizada”. Agora, o blend busca valorizar a bebida e diferenciar os produtores. Não por acaso, isso ocorre em um momento que a própria cachaça começa a ser mais valorizada pelos consumidores.


Para fazer suas bebidas, o produtor tem à disposição 42 madeiras brasileiras diferentes, além do carvalho, que é importado. Mesclar essas opções é que são elas.


Manoel explica que, geralmente, os blends são feitos com diferentes bebidas de um mesmo alambique. Porém, existe um movimento de se fazer blends entre diferentes produtores.


Orgulho


O Brasil produz, atualmente, 1,3 bilhão de litros de cachaça, por ano. São Paulo responde por 40% desse total porque é no estado que se encontram as três empresas que fazem produção em larga escala.


Minas Gerais é o estado com mais alambiques – 20% de um total de 4 mil produtores registrados, que podem ser encontrados em todo o país. Minas Gerais produz a melhor cachaça do Brasil ? Isso segundo Manoel não passa de “folclore e bairrismo”:


“No século 16, com a exploração das pedras preciosas, os senhores dos engenhos mandaram seus escravos para Minas Gerais. Isso pulverizou o surgimento de pequenos alambiques pelo estado. Porém, tem cachaças de excelência sendo produzidas pelo país todo”, observa.


O terroir não conta? Segundo ele, no caso da cachaça, não:


“Trata-se de um destilado. Quando se destila uma bebida, o processo provoca uma padronização que faz com que as características da matéria-prima contribua pouco. O que vai diferenciar as bebidas é o processo adotado pelo produtor, o uso que faz das madeiras nesse processo e, depois, a blendagem. O terroir da cana de açúcar é um elemento pequeno nesse conjunto, ou seja, vai influir muito pouco, nisso tudo”.


Preconceito


Produzida por escravos, a cachaça passou a ser vista, no Brasil, como “bebida para pobre” e durante muitos anos foi deixada de lado. Ao mesmo tempo, o país abriu as portas para todo tipo de bebida importada, seja destilada ou fermentada.


Manoel explica que a valorização da cachaça deu um salto a partir de 2003, quando foi publicada a Instrução Normativa que regulamentou a produção da bebida. Essa medida fez os “produtores acordarem”. Começou uma nova fase de estudos e busca de melhoria na produção dos rótulos.


“Cachaça só pode ser produzida no Brasil. Em qualquer outro lugar, a bebida deve ser chamada como Aguardente de Cana. É um nome protegido. Nos Estados Unidos, chamavam de Brasilian Rum, até que foi feito um acordo, durante o governo Obama, para que nossa bebida fosse comercializada por lá com o nome correto que é Cachaça. O Brasil é um país preconceituoso e acabar com o preconceito contra a bebida é um trabalho árduo. Demorou muito até os brasileiros aprenderem a valorizar sua bebida. Atualmente, temos excelentes rótulos”, afirma Manoel.


Foi também para lutar contra esse preconceito que, há oito anos, 12 amantes da cachaça se reuniram. A ideia era debater e trocar informações sobre a bebida. Acabaram por criar a Cúpula da Cachaça, que, por sua vez, criou um ranking com os melhores rótulos para orientar o consumidor.


A competição acontece a cada dois anos e já está na sua quarta edição. A próxima começa em setembro de 2021. Nessa fase, qualquer pessoa pode votar no seu rótulo preferido. As 250 marcas mais votadas seguem para a segunda fase, quando são avaliadas por 50 especialistas. Eles indicarão os 50 rótulos que irão para a fase final, de degustação às cegas. A competição não recebe amostras para julgamento. Toda a bebida avaliada é adquirida nos mercados, pelos organizadores.


“É um processo rígido e cansativo”, comenta Manoel. “São analisados 13 quesitos”.


O quarto ranking, divulgado este ano, destacou os seguintes rótulos, que ficaram com o primeiro lugar, nas respectivas categorias:


Branca Inox: Tiê Prata (Aiuruoca/MG, 42%, preço médio: R$ 54,00, 670 ml)


Armazenada/Envelhecida: Leblon Signature Merlet (Patos de Minas/MG, 42%, maturação em barris novos de Carvalho por 02 a 03 anos, preço médio: R$ 74,00, 375 ml)


Premium/Extra Premium: Companheira Extra Premium (Jandaia do Sul/PR, 40%, maturação de 08 anos em barril de Carvalho Americano, preço médio: R$ 330,00, 700 ml)



Conheça todos os premiados do IV Ranking Cúpula da Cachaça


O livro "A arte do blend na cachaça: do canavial ao copo, tudo o que é preciso saber para chegar à fórmula da perfeição" pode ser adquirido por intermédio do e-mail cesar.oliveira@globo.com


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