• Sônia Apolinário

Lançada em plena pandemia, Severina chega ao segundo rótulo

Era uma vez, Severo da Silva. Ele acordou atordoado, sentindo cheiro de fumaça. Não entendeu nada quando uma loira lhe disse que estava tudo bem, que ele poderia se acalmar. Entendeu menos ainda quando descobriu que ambos estavam na Coluna Lupulinário. Resolveu ler o post. Descobriu, então, que seu apelido é Severino e que é o mascote da cervejaria Severina. Essa cigana carioca chegou ao mercado em plena pandemia, no final do ano passado e, agora, lançou seu segundo rótulo: Loira Belga. Por lá, tudo é contado em forma de história em quadrinhos.

Existem vários começos possíveis nessa história. Para um deles, é preciso voltar no tempo até 2011, quando João Paulo Mello, aos 19 anos, entrou para a faculdade de Engenharia Química, da UFRJ. Naquela época, ele acreditava que seu futuro profissional estaria liga ao petróleo. Na sala de aula, porém, foi descobrindo o caminho da cerveja. No ano seguinte, fez o curso de produção caseira do Leonardo Botto e, desde então, se tornou um “paneleiro”.


No meio da graduação, uma oportunidade de intercâmbio o levou para a cidade de Haarlem, na Holanda, onde fez estágio na cervejaria Jopen. A história avança até 2017, quando, formado, João colocou o diploma debaixo do braço e foi em busca de emprego. Demorou um ano até conseguir uma colocação na Allegra, cervejaria em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro.


A notícia que um brewpub estava sendo construído em Botafogo, na zona sul carioca, o levou até o Narreal. Seu trabalho de conclusão de graduação tinha sido exatamente sobre brewpubs, então, melhor emprego, impossível. Tudo estava ótimo na vida de João até ele entrar para a estatística de desemprego provocado pela pandemia.


“Eu estava desempregado e não tive dúvida quando decidi lançar minha marca no mercado. Pensei: ‘estamos em uma pandemia, tem como piorar a situação? Eu não tinha para onde ir. Ou era isso, ou era nada”, conta João.


Outro começo possível para essa história tem como cenário a cervejaria Allegra. É lá que João produz a Severina. Quem diria, agora ele frequenta seu antigo local de trabalho no papel de cliente. Usar o Narreal para “ciganar” nem chegou a ser cogitado pelo simples fato de, por ser um brewpub, o local não tem linha de envase.

Assim, o então ex-patrão, Ricardo Schwarz, orientou seu ex-auxiliar de produção para aprimorar a receita do rótulo de estreia da nova marca cigana do Rio de Janeiro. João conta que não teve dúvidas em lançar, primeiro, a Fumaça Preta, uma Porter defumada. Na sua opinião, é uma das suas melhores receitas, da época de paneleiro. Além disso, estrategicamente falando, ele partiu do princípio que um estilo diferente ajudaria a chamar a atenção do público para uma nova marca de cerveja.



A aceitação do rótulo mostrou que João havia escolhido o caminho certo. Ele tem planos para fazer outras cervejas defumadas, mas optou para segundo rótulo, a Belgin Blond Ale Loira Belga, recém-lançado. Com 8,5% de teor alcoólico, não segue exatamente as regras do estilo: ganhou um pequeno amargor extra (38 IBU) graças a um dry hopping.


“Depois de uma cerveja escura, era vez de uma clara. Buscamos um estilo que nos ajudasse a fugir da batalha das IPAs”, explica João.


Para vender, segundo ele, não existe segredo: é colocar o barril “nas costas” e bater na porta dos bares para apresentar a nova marca.


Até aqui, Severino leu tudo com atenção e se pergunta quando ele finalmente fará parte da história. Na verdade, ele bem que poderia ser um daqueles começos possíveis. A nova marca foi batizada Severina por conta do clássico “Morte e Vida Severina”, o poema regionalista publicado por João Cabral de Melo Neto em 1955. A obra narra o sofrimento do migrante Severino, em busca de uma vida melhor “na capital”. Severina é, segundo João, uma homenagem ao Nordeste do país. E Severino, um alter ego do cervejeiro, que narra suas aventuras no seu novo momento profissional.


Fazer ilustrações foi uma atividade que João sempre manteve. Na época em que buscou emprego no segmento de artesanais, foi a ilustração que o ajudou a pagar contas. Quando decidiu que teria sua própria marca, Severino ficou pronto antes mesmo da primeira Fumaça Preta. Agora, o cervejeiro cria rótulos também para cervejarias “concorrentes”, por conta da agência em que trabalha como colaborador.


Graças ao amigo e sócio Filipe Bailune, que mora em São Paulo, capital, é possível encontrar Severina por lá, além das cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Como a maioria dos ciganos, João faz praticamente tudo sozinho na empresa:


“A aceitação da marca está boa e estamos criando o nosso espaço. Eu realmente não fiquei com medo de arriscar. E voltar na Allegra como cliente foi muito engraçado. Eu tenho muito respeito pelas pessoas de lá. Está tudo indo bem. Quem diria, a pandemia acabou se tornando uma oportunidade de negócio”.



Conheça a história da Loira Belga
























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