• Sônia Apolinário

Filme 'Doutor Gama' conta a história pouco conhecida de um herói nacional

Considerado herói nacional por seu ativismo abolicionista no século 19, o advogado Luiz Gama tem sua história contada no filme “Doutor Gama”, que estreia nos cinemas na quinta-feira, 5 de agosto. O cineasta Heitor Dhalia é um dos produtores do longa.


Filho de uma africana livre (Isabél Zuaa), Gama, aos 10 anos, foi vendido por seu pai, um descendente de portugueses, para mercadores de pessoas escravizadas como pagamento de uma dívida de jogo. A criança foi mandada para São Paulo. Mesmo como escravo, se alfabetizou, estudou e conquistou sua própria liberdade, se tornando um dos mais respeitados advogados de sua época. Três atores interpretam diferentes fases da vida do advogado abolicionista: Pedro Guilherme, Angelo Fernandes e César Mello. No elenco também estão Zezé Motta, e Romeu Evaristo. O roteiro é de Luiz Antônio.

Na opinião de César Mello, que interpreta Gama na fase adulta, seria impossível fazer seu personagem sem explorar sua contribuição intelectual, “que simboliza a junção de muitos homens negros brasileiros”:

“De cara, não dá para descrevê-lo com um único adjetivo. Luiz Gama é um advogado, mas também é jornalista e poeta - eu sou formado em Letras e nunca ouvi falar do poeta Luiz Gama, na minha universidade, o que também é um problema. Ele é o primeiro poeta a escrever sobre a mulher preta. Ele, como poeta, tem uma importância, que também foi apagada. Quando se entende este homem, que está na tela do cinema, entende que ele capitaliza para si essa imagem múltipla do homem negro”.

O diretor Jeferson De comentou sobre a importância de levar a história de Luiz Gama para o conhecimento de um maior número de pessoas:

“Pensei comigo, essa é uma história que eu gostaria de contar, deste homem que tinha uma trajetória pessoal muito parecida com a de um herói. Então, desde 2014 estamos trabalhando neste projeto, na intenção de apresentá-lo no cinema. No início me veio à mente: ‘mas ninguém tinha feito um filme sobre ele?’. Tem diversos filmes sobre Tiradentes e nenhum sobre Gama. Assim, o longa surge desta vontade de conectar as pessoas em uma ponte com a pesquisa histórica de sua vida. Esta não é uma obra definitiva sobre Gama, sua história pode ser, e espero que seja, desdobrada em muitas outras obras”.

Ao relembrar uma de suas cenas, no filme, Angelo Fernandes (no set, com Teka Romualdo, que interpreta Ana) comentou sobre o peso da escravidão:

Pedro Guilherme



“Quando estava fazendo a cena do sapato, o Jeferson me dizia para não sair orgulhoso, porque a escravidão acabou. Afinal, Gama sai sem nada, sem saber o que fazer. É um momento de coragem que ele enfrenta. Como se começa a vida a partir daquele ponto? Após a cena, eu comecei a chorar. Eu sabia o motivo, mas não o porquê de chorar. E isso se deu porque as coisas que aconteceram no passado reverberam até hoje, quando se tem um Evaldo metralhado na Zona Norte do Rio de Janeiro, quando se tem um João Pedro que é fuzilado em São Gonçalo, dentro de sua casa. Então isso nos atinge até hoje. Quando eu vejo uma criança em situação de miséria, pedindo comida. Foi isso o que pensei naquela cena, o que fazer com essa liberdade? Foi uma das cenas mais difíceis para mim”.

Mariana Nunes, que interpreta Claudina, esposa de Luiz Gama, comentou que, pela primeira vez, sua personagem não foi uma mulher escravizada, em uma obra de época:

“O filme traz a história de escravidão e liberdade, mas com personagens múltiplos que carregam sua própria subjetividade. A história do Gama é contada de forma muito pulsante e cada personagem tem sua nuance, sua personalidade e importância. O que precisamos é que haja mais mistura nas equipes do audiovisual. Falamos muito sobre diversidade e as pessoas confundem diversidade com cota. Elas não pensam em lugares de direção, de chefia, para além da diversidade, na inclusão. É necessário trazer o diverso e proporcionar condições para que ele seja pleno neste local. Com igual poder de fala. E com essa falta, o personagem negro acaba sempre sendo aquele que fica a serviço do protagonista branco, fica sem profundidade e subjetividades. Para que isso mude, é importante pessoas negras pensando e que haja diálogo entre pessoas brancas e negras”, diz.

O filme se passa em São Paulo, mas foi realizado em Paraty (RJ), onde a capital paulista foi recriada.


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