• Sônia Apolinário

Baseado em fatos reais, série ficcional 'Colônia' leva para a TV o 'holocausto brasileiro'

Um local onde a sociedade “deposita” pessoas indesejáveis. E elas evaporam. Um local com capacidade para 200 pessoas, mas que amontoou 5 mil e, em 100 anos, matou 60 mil. Esse local chama-se Hospital Colônia de Barbacena (MG). Sua existência é real, sua macabra história é real e inspiraram a série ficcional “Colônia” que estreia sexta-feira (25 de junho), às 21h30, no Canal Brasil.


Em dez capítulos, a produção conta a história de Elisa (Fernanda Marques), uma jovem de vinte anos que chega ao Hospício Colônia no começo dos anos setenta. Ela está grávida de quatro meses de sua grande paixão juvenil e foi enviada para o local pelo pai, Júlio (Henrique Schafer), que fica enfurecido ao descobrir que a filha arruinara seus projetos de casá-la com um rico vizinho de fazendas. Elisa logo se depara com a verdadeira loucura ali presente, mas rapidamente consegue descobrir que, assim como ela, muitas outras pessoas sem nenhum tipo de diagnostico de doença mental estão internadas: o alcoólatra Raimundo (Bukassa Kabengele), a prostituta Valeska (Andréia Horta), o homossexual Gilberto (Arlindo Lopes) e dona Wanda (Rejane Faria), todos para lá enviados por serem considerados incômodos para a sociedade. Elisa se aproxima destas pessoas e cria laços de amizade fundamentais para sobreviver, da maneira mais sã possível, a uma vida de abusos e violência diária.


Em participações especiais, também fazem parte do elenco Stephanie de Jongh, Rafaela Mandelli, Christian Malheiros, Eduardo Moscovis, Marat Descartes e Nicola Siri.


O Hospital Colônia de Barbacena foi fundado em 12 de outubro de 1903, inicialmente, como local para tratamento de tuberculose, mas logo virou hospital psiquiátrico. Por causa dele, o município foi apelidado de “cidade dos loucos”. Apesar de ter sido construído com 200 leitos, o local atingiu a marca de cinco mil pacientes, nos anos 60. Todos eram mantidos em condições sub-humanas. Faltavam leitos, roupas, proteção contra o frio, água e comida. Como “terapias”, recebiam eletrochoques e banhos frios.

O trem que carregava os internos para lá foi apelidado de “Trem de Doido” pelo escritor Guimarães Rosa. O autor foi a primeira voz a falar sobre o local. As denúncias contra o Colônia surgiram nos anos 60. Em 1961, o fotógrafo Luiz Alfredo registrou pela primeira vez, para a revista “O Cruzeiro”, a grave situação de abuso dos direitos humanos que ocorria no hospício. Em 1979, Helvécio Ratton dirigiu o documentário “Em Nome da Razão”, onde retratava a realidade do Colônia. Em 2013, a escritora e jornalista Daniela Arbex escreveu o premiado livro-reportagem “Holocausto Brasileiro”.

O livro, as fotos e o documentário serviram de base para a criação da série. Foi filmada em preto e branco porque, segundo o diretor e também roteirista André Ristum, não era possível pensar na vida daquelas pessoas com cores. Cada personagem é um arquétipo dos indesejáveis: a jovem grávida que mancha a honra da família; a empregada doméstica que também atendia sexualmente aos patrões e engravida; a prostituta amante do prefeito que ameaça colocar a boca no trombone se ele não cumprir a promessa de abandonar a mulher e é levada para lá pelo próprio amante; o homossexual que chega também pelas mãos da família para se curar; o preso político que está dando trabalho para os agentes de segurança.

“De todos esses ‘tipos’, o livro não falava na presença de presos políticos no local. Nós tomamos a liberdade criativa de incluir esse arquétipo porque, nas nossas pesquisas, recebemos várias informações que as instituições psiquiátricas foram usadas pela ditadura militar para sumir com alguns presos políticos. Recentemente, uma pesquisa confirmou isso. Então, foi um grande acerto tê-los incluídos na história”, contou André Ristum que divide a autoria do roteiro com Marco Dutra e Rita Gloria Curvo.


Na foto, Viviane Monteiro, Arlindo Lopes e Fernanda Marques



A série foi rodada em locações entre Campinas e a cidade de São Paulo, onde parte do hospício foi reconstituído, em um edifício antigo, no bairro do Ipiranga. Elenco e equipe ficaram “internados” no local. Atores sujaram suas roupas de cena; ensebaram os próprios cabelos, deixaram suas unhas pretas.

No trabalho com Fernanda Marques, o preparador de elenco Luis Mário, fez a atriz ouvir sons de pessoas sendo torturadas e ela chegou a ser amarrada em uma cadeira. Já a atriz Andréia Horta se “aqueceu” limpando um espaço com um pequeno pano sujo e um balde de água suja.

“Não há registro que tenha existido uma Elisa real. Porém, ela representa mulheres que existiram. Minha avó, por exemplo, teve o casamento arranjado. Na minha família, tem um histórico ligado a questões psiquiátricas, mas sempre foi um assunto velado. Com o convite para participar da série, fui atrás disso e fiquei com muita vontade de contar essa história”, comentou Fernanda Marques.

A mineira Rejane Faria contou que também tinha uma história velada relacionada com o assunto, na família. Puxou o fio e acabou descobrindo que sua bisavó foi interna do próprio Colônia:

“Foi minha mãe que tirou ela de lá depois de saber do ‘chá da meia noite’”, contou.

O chá era uma espécie de injeção letal. Quando os pacientes morriam e a família não reivindicava o corpo, eles eram doados para faculdades. Ao todo, 1853 cadáveres foram entregues para 17 universidades.

Sobre sua personagem, a empregada doméstica Wanda, Rejane explica que, apesar de tudo, ela escolhe sobreviver no hospício e, para isso, cria suas artimanhas. Seu mantra, que ela ensina para Elisa é: “quanto mais calada e sumida, no local, mais tempo de sobrevida terá”.

“Wanda chega no Colônia grávida e seu filho é tirado dela. Ela não tem ideia se ele está vivo ou morto; também não luta para sair dali. Ela se redimiu lá dentro e, com a vida dos outros pacientes, faz a vida dela. Fico emocionada quando falo da Wanda. Ela tinha tudo para desistir, mas continuou”, contou Rejane.

No caso do homossexual Gilberto, é a mãe que o interna, após ser convencida pelo padre da cidade que o local poderia curar o filho.

“Apesar de tudo, dentro do hospício, ele era mais livre do que do lado de fora”, comentou Arlindo Lopes sobre seu personagem.”Mas, aos poucos, o lugar vai acabando com ele e Gilberto vai perdendo a leveza”.

No papel do enfermeiro Juraci, Augusto Madeira observou que são “profissionais” que justificam suas ações sob o chavão “estou cumprindo ordens”:

“Os enfermeiros nada mais são do que carcereiros porque o local é um verdadeiro campo de concentração. A história tem um pouco de filme de terror porque quem chega lá não tem como sair e as pessoas nunca sabem o que está para acontecer com elas ou com os outros”.

Em contraste com a realidade brutal do Colônia, o diretor buscou em olhares, pequenos gestos e em silêncios, respiros de delicadeza para a narrativa. Na vida real, ele fez a mesma coisa, organizando pequenas festas, na locação onde todos estavam confinados.

O Colônia ainda existe e filmar por lá chegou a ser cogitado. André contou que, após uma visita, descartou a ideia. Se a realidade do hospital psiquiátrico hoje, é outra, alguns pacientes estão lá desde a época do hospital “original”. A possibilidade do trabalho da equipe levar essas pessoas de volta “a um passado horroroso” o desagradou.

“Não consegui ver essa série diferente do preto e branco e isso acabou sendo um elemento a mais para contar a história desse ambiente soturno e desesperançoso”, comentou o diretor.

No mesmo dia da estreia no Canal Brasil, todos os 10 episódios estarão disponíveis nos serviços de streaming Canais Globo e Globoplay. O primeiro episódio estará disponível para não assinantes por sete dias.


Na foto, Eduardo Moscovis (que está em cartaz no cinema com "Veneza")


Episódios

1 – O Hospício Colônia

Elisa é jogada à força dentro de um trem por um funcionário do pai. Chega no Hospício Colônia e se depara com um mundo de abusos e violência.

2 – A fazenda Bambuzal

A rotina no hospício segue e Elisa é atacada pela interna Rosana (Ana Kutner). Conhece Wanda que lhe conta um pouco sobre o funcionamento do Hospício.

3 – A sonâmbula e o corpo

Elisa tem uma primeira noite de sono muito agitada e fica intrigada com conversas que ouve por acaso e começa a pensar em como fugir. Valeska recebe uma visita de seu amante.

4 – Mãe e filha

Raimundo sofre uma sessão de eletrochoques. O tempo passa e Elisa segue internada, sem encontrar um caminho, até receber uma visita tão esperada.

5 - Samba no escuro

Um militar negocia com a direção a permanência de presos políticos, que precisam encontrar uma forma de fugir. Elisa descobre um caminho pro lado de fora.

6 - Salvação

O desaparecimento dos presos políticos deixa Elisa impactada e ela acaba traçando um plano de fuga. Juraci se beneficia com as novas ordens de Freitas (Marcelo Laham).

7 - Trevas

Ricardo (Samuel de Assis) chega no Hospício em busca de informações sobre sua mãe. Wanda, Soraya (Viviane Monteiro) e Gilberto tentam descobrir aonde Elisa foi parar.

8 -Tudo vem, tudo vai

Elisa, ainda em estado prejudicado, conversa com Valeska e preocupa Wanda. Uma visita surpresa aparece procurando Elisa.

9 - Noite de São João

Wanda se despede de Elisa, resgatada pelo filho. Uma festa junina é organizada, enquanto Elisa ainda se recupera da violência à qual foi submetida.

10 - Lua cheia

Elisa se despede de Soraya e Valeska e tenta encontrar uma rota de fuga com a cumplicidade de Laura (Naruna Costa), que não contava com a presença de Juraci.


Onde encontrar o Canal Brasil

NET HD – canal 650

NET – canal 150

SKY HD – canal 513

SKY SD - canal 113

Claro – canal 67

Oi e Via Cabo – canal 66

Vivo TV DTH – 806

Vivo IPTV – 656

Globoplay + Canais Ao Vivo

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