Apanhadores de Sempre-Viva recebem reconhecimento da FAO

30/03/2020

 

O tradicional sistema agrícola dos apanhadores das flores Sempre-Vivas, da Serra do Espinhaço (MG), recebeu o reconhecimento internacional denominado Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM) concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Esse sistema é praticado por seis comunidades formadas por camponeses e quilombolas.

 

Com o reconhecimento, o sistema de Minas Gerais passa a ser o quarto SIPAM da América Latina; o 59º patrimônio agrícola, em 22 países, sendo o primeiro título dessa categoria conquistado pelo Brasil.

 

Os outros três sistemas latino-americanos reconhecidos são o corredor Cuzco-Puno (Peru); o arquipélago de Chiloé (Chile) e o sistema de Chinampa no México. Todos são sistemas ricos em biodiversidade agrícola e vida selvagem, além de importantes fontes de conhecimento indígena e culturas ancestrais.

 

As seis comunidades mineiras que tiveram seus sistemas agrícolas reconhecidas pela FAO são Lavras, Pé-de-Serra, Macacos e as comunidades quilombolas de Raiz, Mata dos Crioulos e Vargem do Inhaí. Ao todo, estão numa área de aproximadamente 100 mil hectares, nos municípios de Diamantina, Buenópolis e Presidente Kubitscheck. Juntos, chegam a manejar mais de 400 espécies de plantas já catalogadas, incluindo as alimentares e as medicinais. 

 

O trabalho com as flores se soma a produções agrícolas, pastoris e extrativistas, que garantem a autonomia alimentar para as comunidades da região.

 

Sempre-Vivas é o “apelido” dado a várias flores nativas da Serra do Espinhaço que, depois de colhidas e secas, conservam sua forma e coloração. Há cerca de 90 espécies manejadas de flores, com diversos formatos e cores.

 

No período de abril a outubro, apanhadores e suas famílias sobem a serra, em direção ao Parque Nacional das Sempre-Vivas, e por lá permanecem, para a coleta, em áreas de campos rupestres do Cerrado, conhecida como Savana brasileira, a 1,4 mil metros de altitude. Nesses campos se encontram 80% das espécies de flores Sempre-Vivas no Brasil, de acordo com dados do dossiê enviado à FAO, em 2018, para justificar a candidatura.

 

Além das flores são também coletados diversos tipos de folhas, frutos secos dentre outros produtos ornamentais, a depender da época do ano.

 

 

Comunidades guardiãs

 

Essas seis comunidades da Serra do Espinhaço são consideradas guardiãs da biodiversidade, tanto de sementes agrícolas como de conhecimentos tradicionais associados às espécies silvestres, utilizadas tanto na dieta quanto na medicina tradicional quilombola. As famílias preservam o modo de vida tradicional de seus descendentes indígenas, europeus e africanos, que viveram no Brasil colonial, em um total de 1,5 mil pessoas. 

 

O manejo é baseado no conhecimento tradicional, transmitido oralmente. O trabalho é feito respeitando os ciclos naturais das espécies, o que garante a renovação e manutenção de cada uma delas.

 

A venda das flores é a principal fonte de geração de renda para as famílias, sendo que algumas, dos municípios de Presidente Kubitschek e Diamantina, já comercializam para os Programas de Compras Públicas (Programa Nacional de Alimentação Escolar –PNAE e o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA).

 

Do total produzido, as exportações ultrapassam 80% das espécies ornamentais comercializadas (flores, botões, ramagens, frutos secos), sendo que 55% destas são as Sempre-Vivas ou Margaridinhas.

 

Os principais importadores são os Estados Unidos, Países Baixos, Espanha e Itália (absorvem quase 90% das exportações). No Brasil, o destino comercial das flores é, principalmente, São Paulo, seguido por Minas Gerais, Paraná, Distrito federal e Ceará, segundo a comissão.

 

SIPAM

 

Criado em 2002 pela FAO, o SIPAM (Globally Important Agricultural Heritage System – GIAHS, sigla em inglês) combina biodiversidade agrícola, ecossistemas resilientes e um patrimônio cultural valioso. São sistemas agrícolas ancestrais que constituem a base para inovações e tecnologias agrícolas contemporâneas e futuras. Sua diversidade cultural, ecológica e agrícola ainda é evidente em muitas partes do mundo, mantida como sistemas únicos de agricultura.

 

Para que o Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço concorresse ao reconhecimento, ainda em 2018, as comunidades se organizaram e, com o apoio da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex), prepararam o dossiê de candidatura com o apoio de universidades parceiras.

 

Além disso, elaboraram o Plano de Conservação Dinâmica do Sistema Agrícola, em parceria com secretarias do governo de Minas Gerais e instituições públicas do estado como o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater), além das prefeituras de Diamantina, Presidente Kubitschek e Buenópolis. Estão previstas ações para estimular pesquisa e inovação, elaboração de um arco legal e de políticas públicas.

 

Cultive Sempre-Viva

 

De acordo com o agricultor orgânico Diego Prospe, as Sempre-Vivas crescem bem quando plantadas em sol pleno. Cultivada em jardins, formam conjuntos isolados ou renques, em canteiros com terra bem preparada, enriquecida com húmus, e boa drenagem.

 

"A Sempre-viva gosta muito de sol. Se plantar em jardineira, tem que fazer um drenozinho muito bem feito para que a flor fique sempre úmida. O recomendável é molhar todos os dias, mas com o cuidado para não deixar a água empoçar”, explica Diego que, no sítio onde mora, em Friburgo (RJ), trabalha com Plantas Alimentícias Nãos Convencionais (PANCs), ao lado da esposa, a chef vegana Clarissa Taguchi. Ela afirma não haver registro da Sempre-viva como sendo uma Panc.

 

Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Foto de abertura: @serrasertão

 

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