Paraty comemora inesperada produção de cacau

Hoje, 26 de março, é o Dia do Cacau. Que o Brasil é um dos maiores produtores do mundo (literalmente), todos sabem.  A novidade é que um estado do país, tradicionalmente fora do mapa da produção do fruto começa a chamar a atenção com colheitas cada vez maiores e diversificadas. Estamos falando do estado do Rio de Janeiro, mais precisamente, da cidade de Paraty, onde os agricultores não sabem o que fazer com os frutos colhidos. 

 

Em Sertão do Taquari, cerca de 25 km do centro de Paraty, Cesar Marcos Vieira tem colhido, a cada ano, mais quantidade de cacau.  Não só ele. Cerca de dez agricultores orgânicos da região estão sendo surpreendidos com essa colheita, digamos, inesperada.  O grupo cultiva a terra em sistema de agrofloresta, que é a ocupação do solo com a produção simultânea de espécies variadas.

 

“Banana e palmito são nossos principais produtos, o que mais vendemos.  O sistema de agrofloresta também ajuda a recuperar o solo e é comum testar plantações. Experimentamos o cacau, mesmo sabendo que não é cultivo comum nessa região. E vingou. O cacaueiro está sendo plantado junto justamente do palmito e da banana, está sendo sombreado por esses produtos e a planta está gostando”, explica César, que preside a associação formada por esses dez agricultores orgânicos do local.

 

Ele atribui o “sucesso” do cacau na região pelo fato de Paraty ser uma cidade onde chove muito e o fruto é típico de regiões úmidas. Não foi “de primeira” que a semente dos cacaueiros vingou. Do ano passado para cá, porém, os agricultores começaram a ter quantidade de produção para levar para feira da cidade. E eis que ninguém compra. O que fazer com essa fruta, ninguém sabe.

 

O cacau é um fruto amargo. Para se transformar no chocolate, alimento adorado em todo o mundo, o processo é longo.  E o ponto de partida é a sua torra, atividade que os agricultores, neste momento, não têm condições de fazer por falta de equipamento e conhecimento.

 

Atualmente, Cesar se dedica a estudar e catalogar os frutos – ele tem se surpreendido com suas variedades de cores. Alguns são roxos, outros amarelos. Uns são mais redondos, outros mais pontiagudos. Uns têm mais polpa que outros. Ele também começou a fazer mudas e a registrar todo o processo para correr atrás da certificação de produto orgânico.

 

 

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“Seria bom se abrisse o cacau e saísse chocolate”, brinca Cesar. “Nós colocamos a semente na terra e, agora, não sabemos o que fazer com o fruto.  Temos que aprender a fazer chocolate. A gastronomia em Paraty é muito forte e vamos começar um trabalho com esse pessoal para aproveitar o nosso cacau”.

 

Ele ainda não consegue contabilizar a quantidade de produção da região. Muito da colheita simplesmente voltou para a terra. Cada um dos dez agricultores planta conforme suas condições. Suas terras variam de 16 a 64 hectares (a de Cesar tem 42 hectares). Porém, nem toda a área é utilizada para plantio. Sem equipamentos, os agricultores se ajudam. A cada 15 dias, promovem mutirão na “casa” de um deles – um trabalho que foi interrompido com a quarentena provocada pela epidemia do Corona vírus.

 

Sem apoio de órgãos como Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) ou Emater (Empresa de assistência técnica e expansão rural dos estados), “que está sem técnico há tempos”, como conta Cesar, os agricultores recorrem aos produtores mais idosos para tirar suas  dúvidas relacionadas com plantio e roçadas.

 

Grande parte da produção desse grupo é voltado para a própria subsistência. Há cinco anos, a situação melhorou um pouco com a venda de produtos para uso na merenda escolar do município. E graças a isso, também, Cesar resgatou um pouco da sua antiga profissão.

 

Paulista de Assis, professor por formação, há 20 anos, foi deslocado para trabalhar em Angra dos Reis. Morou um tempo na Ilha Grande, se apaixonou por Paraty e antecipou sua aposentadoria para cultivar o sonho de trabalhar com a terra. Agora, recebe em casa os alunos  das escolas municipais que vão aprender sobre a comida servida na merenda.

Recebe também universitários que se hospedam no seu hostel, o  Rancho Capial, para, como diz Cesar, aprender sobre agrofloresta e descobrir “que a prática é diferente do que aprendem na sala de aula”.

 

Como se não bastasse o cacau, o cupuaçu também começou a brotar da terra, pelas bandas de Sertão do Taquari. Cesar conta que ficou muita polpa sem comercialização, mas as sementes voltaram a ser plantadas. E estão brotando.

 

“Se tiver como vender, temos como plantar mais. E pensar que as pessoas adoram bombom com recheio de cupuaçu”, comenta Cesar.

 

Ele lamenta o fato de que as pessoas pensem que, em  Paraty, a única atividade econômica seja o turismo. Percebe, porém, nesse período de isolamento social, uma boa oportunidade para mostrar para os jovens da região, que  vale a pena viver da terra:

 

 

 

 

“O jovem vai embora em busca de emprego. Sonha com o salário que cai no dia certo, mas muitas vezes mal consegue viver com esse dinheiro. O agricultor muitas vezes não tem dinheiro na mão. Nossa luta é diferente, mas, na roça, temos o pagamento todos os dias que é a comida na mesa. Quem planta tem comida. Quem planta tem o que vender porque todo mundo precisa comer”.

 

 

 

 

 

26 de março

 

O Dia do Cacau foi instituído por um projeto de lei com o objetivo de se tornar uma data para discutir e encontrar soluções para os cacaueiros do Espírito Santo e da Bahia.

 

Tendo sua origem na América Central, o cacau era considerado uma planta divina. Reza  a lenda que o deus asteca Quetzalcóatl resolveu presentear os humanos com algo capaz de aliviar o cansaço e que permitisse repor as energias. Deu-lhes, então, a semente do cacau.

 

Pará

 

No Brasil, o cultivo do cacau começou no século 17, sendo introduzido primeiro na Província do Grão-Pará e posteriormente na Bahia. Atualmente, o país é o quinto produtor mundial de cacau, atrás dos países africanos Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões.

 

A produção baiana concentra 95% de todo o cacau brasileiro. Porém, o Pará vem, aos poucos, recuperando seu protagonismo, dos tempos da origem da produção do cacau no país.

 

De acordo com o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, quando se fala em produtividade, é naquele estado que os dados mais recentes apontam forte crescimento. A participação do Pará no cenário nacional passou de 18%, em 2005, para 53% em 2018.

Dados do MAPA informam que, em 2018, o Pará produziu mais de 116 mil toneladas de cacau, em aproximadamente 180 mil hectares, área plantada, o que equivale a menos da metade da extensão destinada à colheita na Bahia, que produziu, no mesmo período, pouco mais de 122 mil toneladas.

 

Levantamento do IBGE mostra que a alta da produção de cacau no Pará foi de 200% entre 2005 e 2018, com uma média aproximada de 6 mil toneladas por ano. Isso significa que, se o Pará fosse um país, seria o oitavo maior produtor de cacau do mundo.

 

Leia também: No Dia Mundial do Chocolate, os produtos artesanais brasileiros ganham destaque

 

 

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