Empresa criada por paraense de 22 anos disputará campeonato mundial de estudantes empreendedores

Aos 22 anos, o paraense Noel Orlet é sócio-fundador de uma empresa cujo objetivo é universalizar o acesso à água potável, na Amazônia. O empreendimento social Amana Katu (chuva boa, em tupi-guarani) fatura prêmios por onde passa. O mais recente levará Noel, que cursa o último ano de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA),  para a Cidade do Cabo, na África do Sul. Lá, em 2020, ele disputará com campeões de 50 países a final do Global Student Entrepreneur Awards (GSEA), premiação organizada pela Entrepreneurs’ Organization (EO).  A Amana Katu tem chamado a atenção de grandes empresas que apostaram na aceleração da startup. Uma delas é a Ambev. Porém, foi com os vários prêmios (em dinheiro) já recebidos que o então projeto saiu do papel.

 

 

Essa história começa com o ingresso de Noel na UFPA, onde conheceu a Enactus  - uma rede internacional sem fins lucrativos que busca inspirar estudantes a empreender. O Brasil é um dos 37 países onde a Enactus atua, por intermédio de 21 universidades.

 

“Procurei a Enactus logo no primeiro mês de faculdade porque fui  em busca das oportunidades que as universidades públicas oferecem. Eu já tinha estudado dois anos de Direito em uma instituição particular. Ao todo, 150 colegas estavam inscritos, junto comigo. Para entrar passamos por entrevista, dinâmica de grupo e os desafios de trainees, quando temos duas semanas para entregar projetos”, conta Noel, nascido em Belém, o sétimo filho de um pai hippie da Áustria e uma mãe contadora nerd das Filipinas, país asiático onde morou por quatro anos, quando criança.

 

Em 2017, graças ao Enactus, ele participou de um treinamento em São Paulo. Na ocasião, foi “desafiado” pela Unilever, uma das empresas participantes do evento, a pensar soluções para problemas relacionados à água. Nunca um tema lhe pareceu tão “óbvio”. Afinal, como paraense, conhece de perto o chamado “paradoxo da água na Amazônia”: local que concentra 12% de toda água doce do planeta, tem pluviosidade anual de 2.800mm, mas, mesmo assim, cerca de 10 milhões de pessoas na região não possuem acesso à água potável.

 

Para Noel, parecia “natural” desenvolver algo que aproveitasse água das chuvas para consumo doméstico. Ele conta ter desenvolvido, primeiro, um projeto que funcionava à base de energia solar. Nascia a primeira versão da Amana Katu e o projeto foi inscrito para participar do World Water Race. Não passou, porém, nem para a segunda rodada da competição.

 

“Fizemos algo caro e complexo para ser utilizado pela população ribeirinha. Entendemos que precisávamos fazer algo de baixo custo, sustentável e simples”, conta Noel que, para usar a linguagem dos empreendedores, “pivotou” seu projeto inicial e, no ano seguinte, voltou no  World Water Race, e faturou a premiação.

 

Foi o contato com o engenheiro Edson Urbano, que estuda questões relacionadas com sustentabilidade,  que a Amana Katu começou a se tornar o que é hoje: uma cisterna acoplada a um sistema de calhas da residência que coleta água da chuva. Funciona filtrando a água das chuvas em diversas barreiras como um filtro grosseiro para as sujeiras maiores, separador de água da chuva, clorador e carvão ativado.

 

A cisterna, por sua vez, é uma reutilização da que é usada na indústria alimentícia e seria descartada.  O sistema custa R$ 550,00. A cada cinco vendidos, um é doado a uma família ribeirinha de baixa renda.

 

 

 

De 2017 até agora, Amana Katu conquistou 18 premiações, o que rendeu uma receita de cerca de R$ 42 mil. No início do ano, ganhou seu CNPJ e se tornou, formalmente, um negócio social. Segundo Noel, até o último mês de setembro, contabiliza 1,2 milhão de litros de água de chuva aproveitados e 6.932 pessoas com acesso novo ou melhorado à água limpa.

 

A meta da empresa para os próximos três anos é vender 2.680 unidades, aproveitar 84.833.997 litros de água e faturar R$1.228.734.

 

O World Water Race foi conquistado no Vale do Silício (EUA), tida como a meca da inovação. Foi nesse momento que o projeto chamou a atenção da Ambev e a ainda start up foi convidado a participar do programa Aceleradora 100+ mantido pela cervejaria, com foco em sustentabilidade.

 

Por conta disso, Noel e sua equipe trabalham também para melhorar as condições de vida dos produtores rurais de Maués, no interior da Amazônia. A economia do município gira, principalmente, em torno do guaraná – são exportadas 300 toneladas, por ano, da fruta.

 

“A agricultura familiar é a característica da região, onde as pessoas têm dificuldade de acesso a saneamento e água potável. A Ambev percebeu uma possibilidade de ajudar a comunidade. Isso resulta em uma produção de melhor qualidade e agrega valor ao seu produto. Está acontecendo um movimento em prol da sustentabilidade, de uma maneira geral, por parte das empresas, nos negócios tradicionais”, afirma Noel.

 

O aproveitamento de água de chuva para uso doméstico é apenas o primeiro produto criado pela Amana Katu. No momento, um segundo produto está em fase final de desenvolvimento. É voltado  para o reaproveitamento da água da chuva para a agricultura, atividade onde se dá o maior desperdício de água, no Brasil. Esse novo produto (linha Agro Katu) conta com aceleração da Nufarm. Originária da Austrália, a fabricante global de defensivos agrícolas está no Brasil há 55 anos. Sua sede fica na cidade de Maracanaú, na região metropolitana de Fortaleza, capital do Ceará. É um dos maiores grupos empresariais do estado nordestino.

 

Faz parte dos planos da empresa social uma expansão internacional para países que também têm alta pluviosidade e falta de acesso à água potável, como a própria Filipinas, além do Zimbabue (África). 

 

Atualmente, Noel é presidente da Enactus UFPA . Na Amana Katu tem dois sócios: a biotecnologista Isabel Cruz, também de 22 anos, e o engenheiro civil e de produção Wilson Costa, de 25 anos. No negócio, Noel é o responsável pelas vendas e formação de parcerias, além de ser o “rosto” que representa a empresa nos concursos.

 

“Nada a gente faz sozinho. Eu acabei sendo o único da equipe original do projeto e dei continuidade. Empreender não é fácil e na Amazônia há desafios adicionais, principalmente, no campo da logística. Já me formo com a minha empresa criada, tendo sido estruturada, desde o início como um negócio social. Ou seja, não visa somente o lucro, mas também em gerar valor para a sociedade. Tudo isso dá muito trabalho, mas é possível de realizar. Até porque, sonhar pequeno e sonhar grande dá o mesmo trabalho”, afirma Noel.

 

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