Livro conta a história da ascensão e queda de um homem que foi sinônimo de poder e corrupção no futebol

Prestes a começar mais uma Copa do Mundo, um livro chega ao mercado para lembrar que nem só de amor a um time vive o futebol.  De autoria dos jornalistas Allan de Abreu e Carlos Petrocilo, “O Delator” (Editora Record) conta a história de J. Hawilla. Empresário pioneiro no nicho do marketing esportivo, no país, ele se tornou elo principal de um esquema de corrupção e subornos que envolveu cartolas literalmente em todo o mundo. Preso nos Estados Unidos pelo FBI, se tornou delator e implodiu o esquema. Hawilla morreu em maio passado.

 

 O livro começou a ser produzido em 2015, logo após o “Caso Fifa” vir à tona. Neste momento, o esquema de delações do empresário foi revalado e os cartolas foram “desnudados”. Allan contou que a ideia inicial era fazer um perfil de J. Hawilla que, de humilde jornalista do interior, se tornou um dos empresários mais influentes do meio esportivo brasileiro e mundial. De desempregado, se torna o dono da empresa  Traffic, que o transforma em milionário com um patrimônio que incluía emissoras de TV pelo interior do país, holdings, fazendas de criação de gado e jatinhos.

 

Seu “negócio da China” foi a comercialização de publicidade em placas na beira do gramado de estádios. Em seguida, a negociação de venda de direitos de transmissão televisiva dos principais campeonatos de futebol do mundo.

 

“Ele se vendia como sendo um empreendedor de sucesso, que percebeu um nicho de negócio, que era o marketing esportivo. De fato, ele foi pioneiro nesse setor. Ele percebeu o potencial de negócio da venda das placas dos campos de futebol para a publicidade. Porém, sua fortuna, de verdade, é fruto de 30 anos de corrupção sistêmica”, comenta Allan.

 

O negócio de Hawilla era bem “simples”: a Traffic subornava “cartolas” para conseguir a preço baixo os direitos comerciais de competições da CBF e da Conmebol. Esses direitos eram revendidos para emissoras de TV e patrocinadores por valores muito mais altos. O lucro da operação “remunerava” todos os “empresários” envolvidos.

 

No Brasil, de tempos em tempos, a imprensa soltava alguma denúncia envolvendo a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e seu “eterno” presidente, Ricardo Teixeira, em algum “esquema”. Costumavam resultar em nada. O cartola máximo do futebol brasileiro se valia da proteção de um único escudo: alegava que a CBF é uma instituição privada, que não se utilizava de dinheiro público e só devia satisfações à própria diretoria.

 

Nos Estados Unidos, porém, denúncias de corrupção envolvendo empresas privadas, com ou sem utilização de dinheiro público, “colam”. Foi assim que pegaram Hawilla. Ele foi preso pelo FBI em 2013, acusado de obstrução de Justiça. Na mesma hora, o empresário fez acordo de “colaboração”. Além de entregar vários documentos, se tornou um “grampo ambulante” – passou a gravar todas as conversas com os velhos interlocutores de seus esquemas.

 

Foi assim que, em 2015, estourou o “Caso Fifa”: uma investigação com cerca de 40 réus, dentre eles, os três últimos presidentes da CBF – Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero – e os três últimos presidentes da Conmebol, Nicolas Leoz, Eugenio Figueredo e Juan Angel Napout.

 

Marin está preso em Nova York (EUA). Como o Brasil não faz extradições, Teixeira e Del Nero estão livres, mas se pisarem fora do país serão presos. Para reduzir sua “dívida” com a justiça, Hawilla aceitou pagar uma multa de US$ 151 milhões e, até sua morte, já havia desembolsado US$ 25 milhões.

 

“O Hawilla só ficou algumas horas preso nos Estados Unidos, em 2013. Ele passou a usar tornozeleira eletrônica e com os áudios que gravou implodiu o esquema que ajudou a construir. No Brasil, investigações e CPIs não davam em nada até porque o Ricardo Teixeira costumava financiar campanhas de políticos e patrocinar viagens para desembargadores verem jogos da seleção em vários países. Apesar de todas as denúncias, a podridão continua. Só mudaram os atores. O esquema é muito grande. É um mercado sujo”, afirma Allan que informa que os direitos do livro já foram vendidos para o cinema.

 

Segundo o jornalista, apesar das provas que desmascaram os esquemas de corrupção no futebol, não há indícios que técnicos de times ou seleções tenham participado de forma consciente. Uma das passagens do livro, porém, relembra a final da Copa do Mundo de 1998, quando o Brasil perdeu para a anfitriã França, tendo em campo um apatetado Ronaldinho, que teria tido uma convulsão na véspera do jogo. O então craque não foi poupado porque, a grande partida, na verdade, estava sendo travada entre duas marcas esportivas mundiais que patrocinavam cada uma das seleções. O “craque” derrotado saiu de campo com as chuteiras penduradas no pescoço e fez até o final seu trabalho de divulgação da marca esportiva.

 

Para a realização do livro, ao longo de dois anos, os jornalistas entrevistaram cerca de 80 pessoas, entre cartolas, promotores, políticos, jornalistas e empresários ligados ao marketing esportivo e à TV no Brasil, Argentina e Paraguai. Segundo Allan, uma das grandes dificuldades que enfrentou foi a falta de cooperação do FBI para dar informações.

 

Outra dificuldade foi a recusa de Hawilla em dar entrevista porque, segundo o jornalista, o

empresário achou que o livro não conteria uma “agenda positiva” para ele. Allan conta que muitas pessoas também não deram entrevista “por medo do Hawilla”, que sempre se manteve muito poderoso no ambiente do futebol brasileiro.

 

O empresário morreu no último dia 25 de maio, no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, aos 74 anos, vítima de problemas respiratórios.

 

O jornalista compara Hawilla a Marcelo Odebrecht, “empresários que prosperaram em um ambiente de privilégios e pouquíssima transparência”.  E, apesar de conhecer os bastidores do futebol, Allan diz que vai torcer pela vitória do Brasil, na Copa da Rússia:

 

“Eu não torço contra o Brasil, mas não tenho mais a mesma empolgação que já tive antes. Não vale a penas se envolver tanto sabendo que tem tanta coisa suja por trás. Torcer para a seleção brasileira faz parte da nossa identidade. Pelo trabalho que está sendo feito em campo, acredito inclusive que o Brasil tem tudo para ser campeão”.

 

Sobre os autores:

 

Allan de Abreu nasceu em Urupês (SP) em 1979. Jornalista com mestrado em teoria da literatura pela Unesp, é repórter da revista Piauí. Trabalhou nos jornais Folha de S.Paulo, Diário da Região, Bom Dia e O Estado. Venceu o Prêmio Esso de Jornalismo na categoria Interior em 2004 e é autor de "Cocaína: a rota caipira", também pela Editora Record.

 

Carlos Petrocilo nasceu em São José do Rio Preto (SP) em 1983. Jornalista formado pela Universidade Santo Amaro, em São Paulo, é editor de esportes do Diário da Região. Trabalhou como repórter no Jornal da Tarde e no Lance!. Venceu o Prêmio Petrobras na categoria Reportagem Esportiva em 2013 e é autor do livro "Meninas, o sonho de bola".

 

 

Na revista Piauí, um trecho do livro O Delator está disponível para leitura

 

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