Livro sobre pequenas TVs no norte do país revela um Brasil pouco conhecido

Um livro de “causos” que retratam um Brasil que pouco se conhece. Seus personagens são jornalistas, apresentadores de TV, cinegrafistas - em sua maioria, improvisados no ofício. Eles são responsáveis por produzir e levar ao ar, diariamente, três horas e meia de produção local, em pequenos municípios dos nove estados que integram a chamada Amazônia Legal. Reportagem sobre o roubo do galo da cidade; uma novela encenada por 250 atores, na verdade, moradores da cidade; denúncia de estupros de crianças são alguns dos temas desses “causos” reunidos em “Antenas da floresta - a saga das TVs na Amazônia” (Objetiva), da jornalista Elvira Lobato.

 

Essa história começa muitos anos atrás, antes mesmo de Elvira imaginar que escreveria um livro sobre o assunto. Uma das maiores jornalistas do país, nos anos 1990, como repórter especial do jornal Folha de S.Paulo, ela se especializou na cobertura de assuntos relacionados com telecomunicação e radiodifusão.  Conhecer a legislação do setor fazia parte do trabalho. Assim, “aprendeu” que uma brecha na lei – mais precisamente um decreto lei de 1978, assinado pelo então presidente, general Ernesto Geisel -  permitia que retransmissoras da Amazônia Legal pudessem produzir até três horas e meia de programação local.

 

 | retransmissoras apenas captam a programação das geradoras e a retransmitem, sem nenhuma interferência no conteúdo |

 

Dessa forma, retransmissoras se tornaram emissoras de TV em 742 municípios nos estados do Pará, Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Amapá, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso, que representam 56% do território nacional

 

“Uma das informações mais difíceis de se obter é a identidade dos donos de emissoras de TV e rádio do país. Cheguei a solicitar formalmente esses dados a ministros. Em 1994, obtive uma cópia impressa do ministério das Comunicações com os nomes dos donos das emissoras de TV. Esses dados só se tornaram públicos em 2002. Mas, quem são os donos das retransmissoras? Isso sempre foi um verdadeiro buraco negro”, conta Elvira.

 

Em 2011, ao se aposentar, ela decidiu que faria um banco de dados sobre os donos de retransmissoras. Obteve apoio da Fundação Ford, que patrocina a produção de reportagens investigativas, e iniciou o trabalho.

 

Foram oito meses levantando informações junto a cartórios, Polícia Federal, juntas comerciais. Elvira identificou os proprietários das empresas que detêm, atualmente, 1737 canais de retransmissão de TV da Amazônia Legal. Ela os dividiu em 4 grupos: empresários (718 canais, que correspondem a 41% do total);  políticos (373 ou 21% do total); poder público (união, estados e municípios, com 340 canais, ou 20%) e igrejas, (com 272 canais,16% do total). Desse total, ela estima que “pelo menos” 400 canais produzem conteúdo de programação local.

 

O tão sonhado banco de dados estava pronto e foi doado à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Chegou, então, a hora, de começar o trabalho “de verdade”: a produção da reportagem. Tendo o banco de dados como guia, ela traçou o roteiro para a realização de duas expedições. A primeira, passou pelo Tocantins, sul do Pará até Belém – uma rota de 5 mil Km. A segunda se concentrou no Maranhão. Em cada uma delas, convidou parentes, amigos e até uma das filhas para lhe fazer companhia “porque é perigoso viajar sozinha por esses lugares”.

 

 “Sou movida a aventura e curiosidade. Sei que fui a lugares perigosos, mas não tive qualquer problema durante as viagens. Minha regra principal era não dirigir à noite, principalmente, no interior do Pará, onde é muito alto o índice de roubo de carga e carro. Em muitas cidades, eu virei celebridade por ser a ‘jornalista de fora’. Dei muitas entrevistas até para um apresentador que não tinha ideia do que perguntar porque não tinha ideia de quem eu era. Foi uma aventura ótima”, conta.

 

Em fevereiro de 2016, com a reportagem publicada pela Agência Pública, eis que a editora Objetiva sugere ampliar o trabalho para transformá-lo em livro. Elvira, então, parte para a terceira expedição, pelos estados do Mato Grosso e, outra vez, o Maranhão.

 

Do banco de dados para a realidade, Elvira se deparou com Babacau, uma cidade do Maranhão com 120 mil habitantes e sete emissoras de TVs. No mesmo estado, Codó tem novela que conta com 250 atores – todos moradores da cidade. Em Roraima, a surpresa de encontrar uma TV bilíngue (português\inglês). Com sede em Bonfim, a TV Tacutu, também é vista em Lethem, cidade da  Guiana que faz fronteira com o município brasileiro, sendo separados pelo rio Tacutu. Também no Maranhão, a menor de todas as emissoras, onde todo o trabalho é feito pelo pai e o seu filho de 17 anos.

 

“Eu me surpreendi com o que encontrei. Em muitos lugares, o conteúdo é de baixa qualidade, feito por pessoas que mal sabem ler ou escrever. Mas o Brasil é isso. As matérias dos telejornais são longas. Fala-se muito sobre êxodo rural e estupro de crianças, essa triste realidade. Tem muito improviso e o total envolvimento da comunidade com a programação, o que inclui audiência elevada”, comenta Elvira.

 

Ela admite que imaginava que todo o tempo permitido para conteúdo local  fosse usado

pelos políticos da região. Porém, percebeu que eles fazem uso esporádico dessa produção. No Maranhão, segundo ela, esse quadro é um pouco diferente. Lá, “os apresentadores dos noticiários são quase cabos eleitorais” dos políticos e não existe a menor intenção de produzir material com isenção jornalística. Aliás, sobre os apresentadores, eles são as grandes estrelas, em todas as cidades. E o Whatsapp a principal fonte de informação deles, com o contato de centenas de vizinhos-informantes.

 

Na opinião de Elvira, fazer esse trabalho aos 64 anos, fez toda a diferença. Segundo ela, sua experiência tanto profissional quanto de vida, lhe permitiu “buscar a compreensão” das situações com as quais se deparou ao invés de se deter nos “julgamentos”. Ela conta ter se sentido como no filme “Bye bye Brasil”, (de 1979, que mostra uma trupe de artistas mambembes que cruzam o país).  Foi assim que cada “parada” virou um “causo” e um capítulo do livro.

 

“O meio acadêmico pensa nas grandes cidades. O interior acaba não tendo importância para ninguém, nem para o Governo. O livro retrata uma grande parte do país que estava ignorado. Eu falo muito sobre jornalismo, mas  escrevi pensando no público de uma forma geral. Quero que as pessoas me acompanhem por essas expedições pelo Brasil”, comenta Elvira que sonha, agora, em transformar o livro em um documentário.

 

Enquanto o documentário não vem, outros dois livros estão a caminho. Dessa vez, o público alvo são as crianças. Para a galera de 8 a 11 anos, ela vai escrever sobre crianças ribeirinhas e contar a história do garimpo no Brasil.

 

“Percorri a foz do rio Tocantins, em Belém, que tem 75 ilhas. Conversei com muitas crianças, pais, professores. Lá, o sonho não é ganhar a primeira bicicleta, mas a primeira canoa. O livro vai misturar lúdico com informação. Vou falar sobre os rios, os bichos, os peixes. O grande desafio é achar o tom”, conta Elvira, mãe de sete filhos (três dela e outros quatro do marido também jornalista) e avó de três netos.

 

Leia a reportagem "TVs da Amazônia - uma realidade que o Brasil desconhece", publicada pela Agência Pública, em 2016.

 

Leia as páginas iniciais do livro "Antenas da floresta - a saga das TVs da Amazônia" disponibilizadas pela Amazon.

 

Bye Bye Brasil, verbete

 

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