“Tungstênio” exibe sua força em mais uma premiação

Na cidade de Salvador (BA), um crime ambiental juntará em uma trama um sargento aposentado, um traficante, um policial e a sua esposa. Em síntese, essa é a história de “Tungstênio”, livro em quadrinhos de Marcello Quintanilha que exibe traços realistas, linguagem coloquial e doses generosas do que se pode chamar de “a vida como ela é” em terras brasilis. Uma história de ficção criada a partir de uma notícia de jornal.

 

Lançado em 2014 pela editora brasileira Veneta, rendeu para o autor o prêmio de melhor história policial, no Festival de Angoulême (França), em 2016.  Trata-se da maior premiação para  quadrinhos, em todo o mundo. Na semana passada, o livro venceu duas das 30 categorias do prêmio Rudolph Dirks Award, que destaca os principais artistas e publicações de literatura gráfica, lançados no mercado de língua alemã: melhor roteiro e melhor desenho da América do Sul.

 

Tendo como cenário uma cidade do nordeste do país, com personagens de falas coloquiais e gírias locais, é o “exotismo” brasileiro que vem chamando a atenção dos júris internacionais? Marcello Quintanilha tem certeza que não. Na sua opinião, a força do livro está na construção dos personagens:

 

“O livro tem uma brasilidade muito presente e é magnífico que esteja sendo recebido como tem sido até agora.  Sua força está na psicologia dos personagens que atuam dentro de um meio sobre o qual não têm controle. Isso é algo assimilado em qualquer cultura porque se trata da relação que os personagens estabelecem com o mundo. Considero positivo que esse trabalho tenha um marco qualquer que dá toda essa aceitação”, comenta o autor, em entrevista por Whatsapp.

 

Aos 46 anos, Quintanilha vive, há 16, em Barcelona, capital da comunidade autônoma da Catalunha no Reino de Espanha. Ao seu lado, a esposa brasileira Luciana e a gatinha catalã Bibiana. Ele viaja para o Brasil com regularidade. Em novembro, ele passou duas semanas com a família, em Niterói (RJ), sua cidade natal. Apesar de já ter nacionalidade espanhola, diz não se sentir longe do Brasil e, portanto, ambientar suas histórias no país é algo “natural”.

 

Foi o trabalho que vinha fazendo no Brasil que o levou para o exterior. E ele acabou ficando. Em 2003, ilustrou o primeiro volume da série “Sete balas para Oxford”, lançada na Europa pela editora belga Le Lombard. Nesse projeto, ele era o desenhista, ao lado dos roteiristas Jorge Zentner (Argentina) e Montecarlo (Espanha). Foi para ficar mais próximos dos colegas que se mudou para Barcelona.

 

Lá fora, além de escrever, fez ilustrações para publicações europeias, mas continuou a lançar

suas histórias no Brasil, por diferentes editoras: “Salvador” (2005), “Sábado dos meus amores” (2009, prêmio HQ Mix de melhor desenhista nacional), “Almas Públicas” (2011), “Tungstênio” (2014), “Talco de vidro” (2015) e “Hinário Nacional” (2016, Prêmio Jabuti 2017). “Tungstênio” ele levou três anos para concluir.

 

“Todos os prêmios são importantes, mas não participo da dinâmica das premiações”, afirma Quintanilha.

 

Barcelona surgiu na sua vida um pouco depois de ter publicado sua primeira história: “Fealdade de Fabiano Gorilla”, em 1999. A obra é baseada na vida do seu pai, ex-jogador de um time de futebol de Niterói, o Canto do Rio. Nada mal para quem, adolescente, tinha certeza que fazer história em quadrinhos não serviria como profissão.

 

“Dá para ser quadrinista em qualquer lugar do mundo. Quanto a alguém ser capaz de pagar suas contas somente fazendo quadrinhos, esse tipo de relação está em desenvolvimento no Brasil, onde não há um público tão grande se comparado com Estados Unidos, Japão e França, os maiores mercados de quadrinhos em todo o mundo”, afirma Quintanilha, reconhecido como sendo um artista de traço elegante.

 

 

Sobre influências, ele diz que se sente “fascinado” pelo trabalho do autor e ilustrador francês Edmond Baudoin por conta da “sinceridade do traço”.

 

 

 

 

Próximos passos? Afirma não fazer a “menor ideia” porque não costuma fazer planos. Quintanilha, que desenha desde criança, diz não saber onde se aprende ou como se aprende a ser quadrinista:

 

“Não me sinto em condições de dar conselhos. Nunca ouvi um bom conselho na minha vida. Ninguém deve se apegar a estímulos externos. Meu estímulo sempre foi me comunicar com as pessoas.”

 

No cinema

 

Em 2018, o filme “Tungstênio” estreia no Brasil. A direção ficou a cargo de Heitor Dhalia. No time de roteiristas, o próprio Marcello Quintanilha que trabalhou na adaptação junto com Marçal Aquino e Fernando Bonassi.

 

Em novembro de 2016, Quintanilha passou uma temporada em Salvador para acompanhar as filmagens. Agora, diz ter ficado “muito satisfeito” com o trabalho e que o filme está “extremamente fiel” ao livro.

 

No filme, o policial casca grossa Richard é feito por Fabrício Boliveira. Keira, a mulher do policial, que sonha em se separar é interpretada por Samira Carvalho. Wesley Guimarães faz o traficante Caju e José Dumont é o sargento reformado Seu Ney.

 

A ideia de fazer uma adaptação do livro agradou Quintanilha desde o início. Isso porque, na sua opinião, será uma grande possibilidade de seu trabalho chegar a um público que talvez não tenha contato com quadrinhos.

 

Para quem sempre usa a realidade brasileira em seu trabalho, como percebeu o Brasil, em novembro de 2017, quando visitou sua família?

 

“O país vive um momento interessante. Existe uma maior participação de todos no processo político. Há mais interesse pelo assunto, sem dúvida. Além disso, a Internet mudou a forma como as notícias chegam e as pessoas são mais capazes de expressar seu ponto de vista. É possível, hoje, ter uma visão mais clara para ver como pensa a sociedade brasileira; perceber quais são os aspectos mais caros à sociedade brasileira, o que é muito interessante”.

 

                                                               Para comentar, aqui

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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