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Quando bagaço do malte vira armação de óculos

Já é comum o reaproveitamento da “sobra” das brassagens de cerveja para a produção de pães, biscoitos e vários tipos de receitas doces e salgadas. A novidade, agora, é poder vestir bagaço do malte. Uma parceria entre a cervejaria Colorado e o estúdio de design Leaf resultou na criação de um óculos cuja armação é feita com bagaço do malte.

São necessários 250 gramas do bagaço para a confecção de uma armação. Todo o processo demora oito dias para ser concluído. A cervejaria Colorado, em Ribeirão Preto (SP), produz cerca de 100 toneladas de bagaço por mês.

“A ideia desse reaproveitamento veio de nosso constante processo de experimentação e desenvolvimento. A gente já havia testado algo parecido antes, mas com cevada virgem, não com a sobra de uma produção. Bagaço do malte foi a primeira vez, mesmo. Um pouco mais desafiador, mas foi bem interessante”, conta Rannan Farah, Relações Públicas da Leaf.

Marcelo Carneiro, sócio fundador da Colorado, conta que quando a ideia foi apresentada para a cervejaria não sabia que era possível transformar bagaço do malte em armação de óculos. Porém, segundo ele, “ao longo das primeiras trocas” com a Leaf logo percebeu “que poderia ser a possibilidade de criar algo único com a cara das duas marcas”.

Ele conta que a cervejaria trabalhou diretamente com a Leaf em todas as fases do projeto - desde o desenvolvimento inicial do produto, à escolha do material e do modelo de óculos, “foi uma construção colaborativa”.

Coube à cervejaria, inclusive, resolver uma questão técnica que estava emperrando o processo:

“O bagaço do malte não estava tendo uma boa reação química com a resina que é utilizada nos óculos. Tivemos então que realizar a secagem do bagaço para que ele se adaptasse à resina e as armações fossem desenvolvidas”, explica Marcelo.

Como resultado, Rannan informa que a armação com bagaço do malte é “totalmente” resistente à chuva. Ele informa que o material passa por um processo de impermeabilização que torna os óculos resistentes à água.

Nessa primeira experiência, foram produzidos dois modelos. A cor foi a que resultou do processo de resinagem do tipo de bagaço de malte enviado pela cervejaria, no caso, a sobra da produção da Indica, uma IPA que leva rapadura na sua receita.

A escolha do rótulo foi, segundo Marcelo, “uma coincidência”. Quando se chegou à conclusão a respeito da viabilidade do projeto, a cervejaria tinha acabado de produzir um lote grande da cerveja. Assim, sua “sobra” foi aproveitada para o desenvolvimento da armação dos óculos.

De reaproveitamento de material a Leaf entende. Inaugurada em 2012, a empresa passou por uma reestruturação, ano passado, e ampliou o leque de produtos. Agora, além de óculos, tem uma linha de headphones e outra de home design. Tudo de madeira. E reaproveitar sobra da matéria prima é lei. A loja em São Paulo também tem um bar.

Por que a Colorado?

“Acho que pela sinergia que tivemos com eles. Assim como nós, dão muito valor ao processo artesanal na fabricação daquilo que fazem. Fazem com carinho e no Brasil. Isso conta muito para nós. E no final foi super fácil trabalhar com o pessoal da Colorado. Eles topam qualquer maluquice que a gente propõe para experimentar”, conta Rannan.

Por que a Leaf?

“Desde o começo, a Colorado procura valorizar e reconhecer pessoas e iniciativas que compartilham o mesmo valor de cuidado e valorização do produto nacional. Assim como apoiamos os micro produtores que fornecem os ingredientes utilizados em nossas cervejas, escolhemos startups pelo protagonismo em suas respectivas áreas, a preocupação com o meio ambiente e a promoção do design contemporâneo brasileiro. A proposta era criar produtos diferentes e ousados que refletissem o espírito inovador da Colorado”, afirma Marcelo. “Foi uma iniciativa muito rica em que conseguimos fazer algo genuíno e diferente que agradaria tanto o nosso público cervejeiro como quem é mais ligado em moda e design. Gostamos muito de trabalhar com a Leaf e acreditamos que esta pode ser um começo de uma longa parceria.”

Na avaliação do sócio da Colorado, a utilização de bagaço do malte para produção de armação de óculos despertou na cervejaria a atenção para o fato de que “sempre existem jeitos de reaproveitar insumos, diminuir o desperdício e reduzir o impacto ambiental”.

E agora que provou o gostinho desse tipo de reaproveitamento, a cervejaria pretende repetir a dose:

“Essa foi a primeira ação nesse sentido, mas isso fez com que a gente se provocasse para outras iniciativas. Estamos pensando em algumas ideias no momento e buscando outros parceiros que queiram entrar com a gente nessa.”

Cada um dos dois modelos feitos com bagaço do malte custa R$ 459. Existe a previsão de lançar outros tipos de óculos com o reaproveitamento de sobra de brassagem de cerveja, mas ainda sem data.

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